segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Livros do Ano 2016



À manhã dia 31 de Janeiro, terça feira, a Livraria LeYa/SolMar realiza pelas 19h, a eleição dos "Livros do Ano 2016". Esta iniciativa tem como principal objetivo dar a conhecer os livros que constituíram referência dos seis leitores convidados de várias áreas profissionais. Este ano o evento conta com o seguinte grupo de leitores: Artur Veríssimo, Eleonor Marino Duarte, Leonor Sampaio Silva, João Pedro Porto, Maria Fernanda Sequeira e Pedro Pascoal de Melo.

Desde 2008 que a SolMar realiza esta rúbrica, com intuito de criar um momento de tertúlia à volta dos livros, entre passagens e sínteses de leituras, bem como, as emoções e sensações que as escolhas convocam. Os melhores livros de 2016 escolhidos pelos convidados serão considerados a seleção da livraria. 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

A Biblioteca à Noite



Alberto Manguel, escritor, tradutor e ensaísta argentino, fala sobre como sua biblioteca imaginária tem sempre um texto a sua disposição. E quando lhe faltam palavras é nessa biblioteca secreta, que habita sua imaginação, que ele encontra resposta para seus desejos e suas angústias.

"Noites há em que sonho com uma biblioteca inteiramente anónima em que os livros não têm títulos nem ostentam autores, formando uma corrente narrativa contínua. Nessa biblioteca, o herói d’«O Castelo» embarcaria no Pequod, em busca do Santo Graal, acostaria numa ilha deserta e, usando fragmentos dados à costa, reconstruiria a sociedade a partir das suas ruínas, relataria o seu primeiro encontro centenário com o gelo e recordaria, em penoso pormenor, como se recolhia cedo à cama."


A Biblioteca à Noite, Alberto Manguel, Ed. Tinta da China, 2016.


quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Recensão dos Sonetos Completos de Antero de Quental - Expresso



SONETOS COMPLETOS
Antero de Quental

"Antero de Quental (1842-1891), figura mítica e romântica do Portugal oitocentista, filho e neto de liberais e de mãe muito religiosa, viveu quase sempre dividido entre esses dois mundos e disso deu conta em poemas, cartas e muitos outros textos. Num Portugal atrasado e pobre, ousou, pensou, combateu, amou, sempre com a mesma alta postura ética. Foi sobretudo um poeta. E como tal reconhecido por leitores alemães, espanhóis, russos, franceses, ingleses, italianos, suecos. A Livraria Artes & Letras, de Ponta Delgada, terra natal de Antero, quis assinalar o nascimento, a vida e a obra de um dos “Vencidos da Vida”, organizador das Conferências Democráticas do Casino Lisbonense, com a publicação desta cuidada edição dos “Sonetos Completos”. Para tal convidou Ana Maria Almeida Martins, especialista na obra do “poeta das ideias”, autora do prefácio, que recupera a edição de 1886, por respeitar integralmente o critério de Antero de Quental. A luz, paixão e fogo que vibram na poesia de Antero, mormente nos Sonetos, dão bem a medida de uma aspiração que o acompanhou no tempo que vai da redação à revisão e publicação dos mesmos, aspiração essa temperada por um filtro metafísico que eclode sistematicamente nos versos e os satura de uma mescla de sentir e pensar, de compulsão e contenção, como não podia deixar de ser num homem cujas características sempre foram essas mesmas, quer enquanto indivíduo introspetivo quer enquanto cidadão interventivo. Para o autor, os Sonetos constituíam uma espécie de autobiografia espiritual, o que terá induzido uns quantos a olhar para a sua poesia como um mapa dos seus tormentos existenciais, amorosos e outros, chegando mesmo a entender a reflexão metafísica e o pessimismo ali presentes como prenúncio do dia fatídico. Felizmente, outros tantos leitores assinalaram, também desde os primórdios, o quanto a poesia anteriana tem, como disse o correligionário Eça de Queirós, dessa “coisa estranha e rara – as dores de uma inteligência”. Uma inteligência dividida entre eros e tanatos. Uma poesia das coisas que se insinua, lenta e musical, no leitor. “Deixá-la ir, a vela, que arrojaram/ Os tufões pelo mar, na escuridade,/ Quando a noite surgiu da imensidade,/ Quando os ventos do Sul se levantaram…// Deixá-la ir, a alma lastimosa,/ Que perdeu fé e paz e confiança,/ À morte queda, à morte silenciosa…”. Razão tem por isso Eduardo Lourenço quando assinala que não há na nossa literatura poeta tão naturalmente universal como Antero. “É como se estivesse só no Universo, ilha pura, sem qualquer arquipélago.”"

CARLOS BESSA
in Expresso, Agosto 2016

quarta-feira, 17 de agosto de 2016


          Soneto 5 

          As horas que em terno ofício emolduraram
          Essa face gentil onde o olhar se demora
          Hão-de ser a tiranas de si mesmas, as horas,
          Como da fealdade que a perfeição supera.
          Pois não repousa o Tempo, antes guia o Verão
          Ao temível Inverno, para aí o lograr;
          A seiva enregelada, as folhas sem fulgor,
          Soterrada a beleza, e em vez, desolação.
          Assim, não fora a essência do Verão conservada,
          Líquida prisioneira entre vítreas paredes,
          O fruto da beleza por ela era roubado
          E nem memória havia de beleza que fosse.
             Mas a flor, no Inverno, perde só a aparência,
             Sobrevivendo, doce, o que lhe deu substância.

            31 Sonetos, William Shakespeare, Relógio d'Água, 2015

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Aquela Ilha Esquecida



“Aquela Ilha esquecida
Que eu habito adormecida
Que, à noite, eu vou habitar;

Aquela Ilha encantada
Que não se encontra de dia,
Pois fica na madrugada;

A Ilha não descoberta,
Onde a criptoméria aberta
Espalha em volta o luar;

A Ilha desconhecida
Que pelos caminhos do sonho
Se mostra a quem a buscar.

Áquela Ilha distante,
Não há ninguém que se afoite…

Aquela Ilha esquecida
Que só tem um habitante:
Eu que lá vivo de noite…”  


(In) Antologia Poética, Natália Correia, D.Quixote, 2013

quinta-feira, 28 de julho de 2016

D.Pedro IV- São Miguel, 10 de junho de 1832


 “Minha querida Maria. Recebi a tua cartinha de 10 de maio escrita um pouco mal para a tua idade e adiantamento. Parece-me que tu não tens cuidado muito de estudares, e enquanto Mamam não me mandar dizer que tu te aplicas como no meu tempo eu não deixarei de te mostrar sempre que tenha ocasião o meu desprazer: quando tu, minha filha, chegares a uma idade mais avançada, tu não deixarás de conhecer que eu tinha razão de te desejar ver instruída, o efeito de não ter recebido uma educação conveniente eu tenho sentido, tudo que tenho feito tem sido porque Deus me tem favorecido, eu não quero que tu me julgues para o futuro um pai descuidado de tua educação, antes quero que me tenhas por severo.
            O amor que te tenho, minha querida filha, é que faz falar-te tão claro, eu espero que tu estudes d’ora em diante como convém a quem tem que reger uma Nação que precisa de bons exemplos e de uma rainha assaz instruída (…)”.

Carta de D. Pedro IV, rei de Portugal e Imperador do Brasil, a D. Maria II

(In) D.Pedro IV, Paulo Rezzutti, Casa das Letras, 2016. 

segunda-feira, 25 de julho de 2016

"Doce Carícia"

   Amory Clay, 1928
       
        O romance Doce Carícia assume-se como uma cativante autobiografia ficcional da autoria de William Boyd acerca da inesquecível Amory Clay.
             A obra centra-se na figura de Amory Clay, cujo trajeto fora marcado, entre diversos aspetos, por momentos fulcrais do século XX: “Amory Clay recomeçara a fotografar e era paga para isso-, mas era estranho estar na América enquanto se travava uma guerra Europa”. Nascida na década que antecedeu a Primeira Guerra Mundial, a protagonista da obra em questão recebeu um nome andrógino por parte do seu pai que ficara desapontado pelo sexo do bebé, anunciando-o como masculino. No entanto, Amory não adotou uma atitude de submissão, tendo-se assumido como mulher e rejeitado os limites que lhe impunham. Apaixonada pela fotografia, dedicou-se ao registo da sua própria versão dos acontecimentos, além de que circulou entre Londres e Nova Iorque na qualidade de fotojornalista e de jornalista de moda: “Depressa percebi que não era uma fotógrafa de moda; examinava uma vez e outra as minhas fotografias para a American Mode e não via senão poses rígidas, falsas e inibidas- mediocridade, em suma. As poucas fotos informais que consegui fazer com as modelos, enquanto elas mudavam de roupa, quando iam buscar um café ou quando ficávamos à conversa o fim da sessão, pareciam-me mil vezes mais vivas”.
A audácia apresenta-se como uma constante da personalidade de Amory, não temendo arriscar tudo. O seu desejo desenfreado de adquirir novas experiências levou-a a conhecer a decadência do período histórico que vivenciou. William Boyd, o autor de Doce Carícia nasceu no Gana, mais propriamente, em Acra, tendo desempenhado em Oxford o cargo de professor de inglês e literatura. Atualmente é membro da Sociedade Real da Literatura Inglesa, passando grande parte do seu tempo em duas regiões distintas: Londres e França.
Neste romance, o leitor depara-se com uma personagem que se reveste de uma vibrante, dinâmica e forte personalidade.


Doce Carícia , William Boyd, D.Quixote, 2016

quinta-feira, 21 de julho de 2016

"À Beira da Água"



“Havia escorpiões na gruta o ano inteiro, mas sobretudo nos dias antes de as plantas começarem a deixar passar as gotas de água. A velha tinha uma trouxa enorme com trapos e servia-se dela para os expulsar das paredes e do teto, pisando-os rapidamente com o calcanhar duro e nu. De vez em quando, um passarozinho ou pequeno animal selvagem aparecia à boca da gruta, mas ela nunca era suficientemente rápida para o matar e já tinha desistido de tentar”.

Paul Bowles, o escritor nova-iorquino de Queens, começou por viajar em 1929, tendo como destino a Europa, onde conviveu com Gertrude Stein, Jean Cocteau e Ezra Pound, entre outros. Em 1931, o viajante escolheu Tânger como destino para passar grande parte da sua vida, sendo a sua produção literária influenciada pela dinâmica das múltiplas culturas que conhecera.
A sua vida fora marcada pela dedicação à composição musical, assim como, à escrita de ficção, poesia, ensaios e reportagens. Destaca-se, entre a sua vasta obra literária, O Céu que Nos Protege que ocupou o primeiro lugar da lista dos livros mais vendidos do The New York Times, além de que foi alvo de uma adaptação cinematográfica por parte de Bernardo Bertolucci. Atualmente, a obra À Beira da Água apresenta-se como o primeiro de dois volumes que reúnem os contos de Paul Bowles. À Beira da Água contém 29 contos, como por exemplo O Escorpião que incide na história de uma velha de escassos recursos e de fraca memória que vivia sozinha numa gruta de argila frequentemente habitada por escorpiões. Igualmente interessante é o conto intitulado Paragem em Corazón, onde um casal em lua de mel se apresenta como protagonista. A ação desenrola-se com base na intensificação da ansiedade do marido face ao desaparecimento da esposa e na consequente tentativa de a encontrar. Neste cenário o leitor depara-se com o frenético batimento cardíaco do marido que está intimamente ligado ao título Paragem em Corazón. Paul Bowles socorre-se do amor, do suspense e da intriga, construindo este cativante conto.

 À Beira da Água, Paul Bowles, Quetzal Editores, 2016. 

segunda-feira, 18 de julho de 2016

George Orwell - "Ensaios Escolhidos"



George Orwell, oriundo da Índia Britânica, mais propriamente, de Motihari, assumiu-se como jornalista, ensaísta político e um como um dos mais emblemáticos escritores ingleses do século XX.
Ao defender o autonomismo, George Orwell fora considerado simpatizante do anarquismo, opondo-se, de forma intensa, ao totalitarismo. A sua produção literária é marcada pela oposição mencionada, além de que reflete profundas injustiças sociais. Estes seus ideais transparecem na célebre obra intitulada 1984 que se apresenta como um romance distópico, cujo foco incide na realidade e no terror de cariz político nos mais diversos países. George Orwell, em 1984, critica os fatores que na sociedade moderna poderiam conduzir a uma vida de privação e embrutecimento. É de referir que o escritor, ao escrever 1984, não imaginava que a sua obra adquirisse um caráter profético, apesar de se ter assistido à concretização de certos cenários patentes na mesma – “The Big Brother is Watching you”.
Na obra Ensaios escolhidos estão reunidos 37 ensaios que acompanharam o trajeto de George Orwell desde a Birmânia até à sua vida em Londres e Paris. Veja-se, por exemplo, em Bons Maus Livros, a reflexão do autor acerca de obras que não tendo grandes pretensões literárias eternizaram-se: “Um tipo de livro que raramente vemos ser produzido hoje em dia, mas que floresceu abundantemente no final do século XIX, é aquele que a Chesterton chamou o “bom mau livro”, ou seja, o tipo de livro que não tem pretensões literárias, mas que permanece legível numa altura em que produções mais sérias já desapareceram de cena. Dentro desta categoria, livros claramente notáveis são Raffles e as histórias de Sherlock Holmes, que mantiveram a sua posição enquanto inúmeros “romances sociais”, “documentos humanos” e “terríveis denúncias” disto ou daquilo caíram num merecido esquecimento. (…) Contudo, todos os livros de que tenho estado a falar são “literatura de evasão”. Formam gratos nichos na nossa memória, sossegados recantos onde o espírito pode pastar ocasionalmente, mas dificilmente pretendem ter algo que ver com a vida real”.

Ensaios Escolhidos, George Orwell, Relógio D’Água, 2016.