sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Vistas do Mar de Gilberto Bernardo




Norte Sul Azul

Há um olhar que liga o Norte ao Sul (ou vice-versa) e os reúne nesse território (quase) neutro em que um e outro afirmam as suas particularidades, no mesmo momento em que elas se diluem para afirmarem uma coisa outra, que já não é a simples soma de elementos e dados. Esse olhar é o de Gilberto Bernardo, que uma vez mais convoca um segundo olhar, o nosso, para o território da (sua) pintura. 
Este é o tempo do mar. Na sua dimensão natural, na sua dimensão humana também. Às vezes, o azul exasperado é o arrepio de um Inverno que traz consigo rumores e inquietações; outras vezes, ele abre-se aos dias luminosos, mesmo com a cinza açoriana ameaçando a limpidez da paisagem. 
Este é também o tempo dos homens. É possível senti-los na quietação dos barcos alinhados junto às casas como se fossem os frutos de um quintal de terra e mar. Invisíveis, talvez à sombra dos templos ou das casas, os homens vigiam o andamento dos dias ou, algures, entre as redes, medem a extensão das malhas e das pescarias frustradas. 
Do Norte para o Sul, entre cores e mares, viaja o olhar de Gilberto Bernardo. E, com o dele, também o nosso.

Urbano Bettencourt (Julho de 2018)

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

No Verão Todos Somos Xerazade

John Singer Sargent

No Verão Todos Somos Xerazade. Damos por nós em conversas que se espreguiçam, sem cronómetro nem pressas de ver o fim, deslumbradas pela aparente falta de propósito, por não terem requerido, como é habitual nas outras estações, um fito, um lugar e um tempo exactos. Conversas que são, na sua ligeireza, uma espécie de navegação sem rumo, mas onde mais depressa, e não raro de um modo surpreendente para nós próprios, nos reencontramos.


José Tolentino Mendonça, O Pequeno Caminho Das Grandes Perguntas, Quetzal, 2017


quarta-feira, 18 de julho de 2018

A Paria de Chesil


A Paria de Chesil, 1960, Florence e Edward, jovens recém-casados, em lua-de-mel, numa época de grandes alterações sociais e sexuais «Eram jovens, licenciados, ambos virgens naquela sua noite de núpcias, e viviam numa época em que uma conversa sobre dificuldades sexuais, que nunca é fácil, era simplesmente impossível.» 
Do grande escritor britânico Ian McEwan, um romance subtil, adaptado agora ao cinema. Tal como João Lopes diz «É uma dolorosa aventura de impossível romantismo.»

Leia o Livro veja o Filme


sexta-feira, 25 de maio de 2018

Meridiano 28 de Joel Neto


Em 1939, o mundo entrou em guerra. Foi o conflito mais mortífero da História da Humanidade. Mas, na pequena ilha açoriana do Faial, ingleses e alemães conviveram em paz durante mais três anos. Eram os loucos dos cabos telegráficos.
No mar em frente emergiam os periscópios de Hitler. Dezenas de navios britânicos eram afundados todos os meses. Já em terra, as crianças inglesas continuavam a aprender na escola alemã, dividindo as carteiras com meninos adornados de suásticas. As famílias juntavam-se para bailes e piqueniques.
Os hidroaviões da Pan Am faziam desembarcar estrelas de cinema e de música, estadistas e campeões de boxe. Recolhiam-se autógrafos. Jogava-se tennis e croquet. Dançava-se ao som do jazz. Viviam-se as mais arrebatadoras histórias de amor.
QUEM FOI HANSI ABKE?
QUE SOMBRA LANÇA HOJE SOBRE O DESTINO DE JOSÉ FILEMOM MARQUES, O SOBRINHO CRIADO NO BRASIL?
Um romance que vai de Lisboa a Nova Iorque, de Friburgo a Praga, de Bristol a Porto Alegre e às ilhas açorianas, onde todos são descobertos e ninguém pode ser apanhado.
Um reencontro entre dois homens de tempos distintos e que talvez tenham mais em comum do que aquilo que gostariam de acreditar. Uma memória das mulheres que amaram e talvez não tenham sabido fazê-lo.

Meridiano 28, Joel neto, Ed. Cultura, 2018

Philip Roth 1933-2018


Não estar vivo, basicamente, não sentir a vida, não a cheirar. Mas a diferença entre hoje e o medo que tinha de morrer quando tinha 12 anos é que agora tenho uma espécie de resignação em relação à realidade. Já não me parece uma injustiça tão grande morrer. 

Philip Roth 



sexta-feira, 11 de maio de 2018

Corpo Triplicado de Maria Brandão



Corpo Triplicado é um conjunto de ficções curtas dedicadas a personagens singulares: um vendedor de bíblias, uma ninfomaníaca literata, um mirone de balcão de bar, uma executiva com tensão pré-menstrual, um individualista na andropausa, um sedutor míope, uma freira perdida em Amesterdão. Personagens solitárias, desconcertantes, delirantes, encerradas num mundo descrente na humanidade, que decorre da observação de um episódio, um padrão comportamental, um parágrafo literário, uma música, uma fotografia. Tédio, desamor, solidão, decadência, desejo, sexo, morte são alguns dos ingredientes servidos a seco, sem ingenuidade, numa linguagem dura, mas elegante, com um ritmo rápido e um humor mordaz.

Nas livrarias na última semana de Maio de 2018.

terça-feira, 8 de maio de 2018

A Febre das Alamas Sensíveis



Respiravam todas. Contavam respirar no dia seguinte. Não tinham nenhuma moléstia que as inquietasse. Uma rapariga, esbarrando nele, deixou cair a bolsinha de mão. Ernest apanhou-a num movimento rápido e devolveu-lha; sorriram um para o outro com o mesmo embaraço simpático. Era bonita. ‘Se esta sonhasse que eu sou, ou fui, tísico…’”
Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis
(...)«A originalidade de A Febre das Almas Sensíveis vem ainda de outras formas narrativas e da própria construção de personagens. A saber, uma jovem investigadora decide passar algum tempo nas ruínas do Caramulo em busca de documentos perdidos, desde cartões postais a cartas pelas quais reconstrói vidas inteiras no contexto do seu tempo e condição social. Por outras palavras, a metáfora aqui nunca deixa de existir, mas refere-se mais à sociedade do que ao doente ou doentes. Os nomes dos personagens são muitos, mas a narradora nunca deixa o leitor pendurado em incertezas ou insinuações. Quase hesito em utilizar esta designação formalista, só que a Febre das Almas Sensíveis se assemelha ao que então se chamava nos Estados Unidos “realismo romântico”, a realidade da esperança e a força de cada um ou uma de vencer perante o pior das situações pessoais ou mesmo familiares. Todos eles vivem, como creio ter escrito Jorge de Sena num poema quando contraiu também uma “doença prolongada”, a morte social antes da previsível morte física. Todos se desviam, todos pretendem certa preocupação ao longe, todos vivem no medo do seu meio ambiente e das notícias que partem de quem está gravemente doente. “Em casa, — escreve a narradora — acautelando o contágio, Natália separava a louça de Armando, destinando-lhe um prato e uma malga para uso próprio, sacudia-lhe as roupas e deixava-as apanhar o ar na varanda durante a noite”. O período mais focado no romance é precisamente a época salazarista.» 
Vamberto Freitas. 
Ler aqui 

Um Artista do Mundo Flutuante



1948. O Japão reconstrói as suas cidades após a hecatombe da II Guerra Mundial e procura olhar o futuro com a confiança possível. Retirado, o mestre pintor Masuji Ono passa os dias a cuidar do jardim na companhia das duas filhas adultas e do pequeno neto, e os serões a beber e a conversar com velhos amigos no barzinho sossegado do costume. Porém, o constante assédio do passado e as memórias de uma vida e carreira profundamente marcadas pela ascensão do militarismo japonês conjuram sombras que ameaçam seriamente a tranquilidade da sua reforma.

Uma delicada tragicomédia familiar, que é também um retrato subtil e comovente do Japão do pós-guerra.

domingo, 22 de abril de 2018

Dia Mundial do Livro



O Dia Mundial do Livro é comemorado, desde 1996 e por decisão da UNESCO, a 23 de Abril. Pretende anualmente promover o prazer da leitura e o respeito pelos livros e pelos seus autores.​
Esta data foi escolhida com base na tradição catalã segundo a qual, neste dia, os homens oferecem às suas «damas» uma rosa vermelha de S. Jorge e recebem em troca um livro, testemunho das aventuras do cavaleiro. Em simultâneo, é prestada homenagem à obra de grandes escritores, como Shakespeare, Cervantes e Garcilaso de la Vega, falecidos em abril de 1616.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Antonio Tabucchi - Autobiografias Alheias



O mundo é mesmo estranho, sabem? Há cerca de vinte anos fiz uma viagem aos Açores, arquipélago que me pareceu mais imaginário do que real. Aliás, tão «deslocado» em relação a tudo que quando regressei também me pareceu que a minha viagem tinha sido imaginária... Para que tudo aquilo que tinha visto e vivido não se desvanecesse no ar como uma miragem, pensei em contá-lo. Dai nasceu um pequeno livro que se chamava (ainda se chama) "Mulher de Porto Pim", e fiquei muito orgulhoso porque finalmente a minha viagem adquiria um sentido de realidade, começava a existir verdadeiramente.

Antonio Tabucchi, "Autobiografias Alheias", Dom Quixote, 2018