sexta-feira, 11 de maio de 2018

Corpo Triplicado de Maria Brandão



Corpo Triplicado é um conjunto de ficções curtas dedicadas a personagens singulares: um vendedor de bíblias, uma ninfomaníaca literata, um mirone de balcão de bar, uma executiva com tensão pré-menstrual, um individualista na andropausa, um sedutor míope, uma freira perdida em Amesterdão. Personagens solitárias, desconcertantes, delirantes, encerradas num mundo descrente na humanidade, que decorre da observação de um episódio, um padrão comportamental, um parágrafo literário, uma música, uma fotografia. Tédio, desamor, solidão, decadência, desejo, sexo, morte são alguns dos ingredientes servidos a seco, sem ingenuidade, numa linguagem dura, mas elegante, com um ritmo rápido e um humor mordaz.

Nas livrarias na última semana de Maio de 2018.

terça-feira, 8 de maio de 2018

A Febre das Alamas Sensíveis



Respiravam todas. Contavam respirar no dia seguinte. Não tinham nenhuma moléstia que as inquietasse. Uma rapariga, esbarrando nele, deixou cair a bolsinha de mão. Ernest apanhou-a num movimento rápido e devolveu-lha; sorriram um para o outro com o mesmo embaraço simpático. Era bonita. ‘Se esta sonhasse que eu sou, ou fui, tísico…’”
Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis
(...)«A originalidade de A Febre das Almas Sensíveis vem ainda de outras formas narrativas e da própria construção de personagens. A saber, uma jovem investigadora decide passar algum tempo nas ruínas do Caramulo em busca de documentos perdidos, desde cartões postais a cartas pelas quais reconstrói vidas inteiras no contexto do seu tempo e condição social. Por outras palavras, a metáfora aqui nunca deixa de existir, mas refere-se mais à sociedade do que ao doente ou doentes. Os nomes dos personagens são muitos, mas a narradora nunca deixa o leitor pendurado em incertezas ou insinuações. Quase hesito em utilizar esta designação formalista, só que a Febre das Almas Sensíveis se assemelha ao que então se chamava nos Estados Unidos “realismo romântico”, a realidade da esperança e a força de cada um ou uma de vencer perante o pior das situações pessoais ou mesmo familiares. Todos eles vivem, como creio ter escrito Jorge de Sena num poema quando contraiu também uma “doença prolongada”, a morte social antes da previsível morte física. Todos se desviam, todos pretendem certa preocupação ao longe, todos vivem no medo do seu meio ambiente e das notícias que partem de quem está gravemente doente. “Em casa, — escreve a narradora — acautelando o contágio, Natália separava a louça de Armando, destinando-lhe um prato e uma malga para uso próprio, sacudia-lhe as roupas e deixava-as apanhar o ar na varanda durante a noite”. O período mais focado no romance é precisamente a época salazarista.» 
Vamberto Freitas. 
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Um Artista do Mundo Flutuante



1948. O Japão reconstrói as suas cidades após a hecatombe da II Guerra Mundial e procura olhar o futuro com a confiança possível. Retirado, o mestre pintor Masuji Ono passa os dias a cuidar do jardim na companhia das duas filhas adultas e do pequeno neto, e os serões a beber e a conversar com velhos amigos no barzinho sossegado do costume. Porém, o constante assédio do passado e as memórias de uma vida e carreira profundamente marcadas pela ascensão do militarismo japonês conjuram sombras que ameaçam seriamente a tranquilidade da sua reforma.

Uma delicada tragicomédia familiar, que é também um retrato subtil e comovente do Japão do pós-guerra.

domingo, 22 de abril de 2018

Dia Mundial do Livro



O Dia Mundial do Livro é comemorado, desde 1996 e por decisão da UNESCO, a 23 de Abril. Pretende anualmente promover o prazer da leitura e o respeito pelos livros e pelos seus autores.​
Esta data foi escolhida com base na tradição catalã segundo a qual, neste dia, os homens oferecem às suas «damas» uma rosa vermelha de S. Jorge e recebem em troca um livro, testemunho das aventuras do cavaleiro. Em simultâneo, é prestada homenagem à obra de grandes escritores, como Shakespeare, Cervantes e Garcilaso de la Vega, falecidos em abril de 1616.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Antonio Tabucchi - Autobiografias Alheias



O mundo é mesmo estranho, sabem? Há cerca de vinte anos fiz uma viagem aos Açores, arquipélago que me pareceu mais imaginário do que real. Aliás, tão «deslocado» em relação a tudo que quando regressei também me pareceu que a minha viagem tinha sido imaginária... Para que tudo aquilo que tinha visto e vivido não se desvanecesse no ar como uma miragem, pensei em contá-lo. Dai nasceu um pequeno livro que se chamava (ainda se chama) "Mulher de Porto Pim", e fiquei muito orgulhoso porque finalmente a minha viagem adquiria um sentido de realidade, começava a existir verdadeiramente.

Antonio Tabucchi, "Autobiografias Alheias", Dom Quixote, 2018

quinta-feira, 5 de abril de 2018

O Nervo Ótico



talvez olhar para um Rothko tenha algo de experiência espiritual, mas de um tipo que não admite palavras. (...) Sinto as minhas pupilas a dilatarem-se. Abro e fecho os olhos. Quando os abro, o vermelho chupa-me; quando os fecho, flutua sobre o preto das minhas pálpebras. Aproximo-me, procuro ficar parada a quarenta e seis centímetros de distância, como aconselhava Rothko. E penso: como pôde este homem criar as pinturas euforicamente abstratas do seu melhor período artístico no seu pior momento de derrocadas interiores? E isso leva-me a T.S.Eliot: « Quanto mais perfeito é o artista, mais completamente separados estarão dele o homem que sofre e o espírito que cria.

" O Nervo Ótico", María Gainza, D. Quixote, 2018.

quarta-feira, 21 de março de 2018

Correspondência ao Mar - Vitorino Nemésio

Alfredo Cunha


Quando penso no mar
A linha do horizonte é um fio de asas
E o corpo das águas é luar,

De puro esforço, as velas são memória
E o porto e as casas
Uma ruga de areia transitória.

Sinto a terra na força dos meus pulsos:
O mais é mar, que o remo indica,
E o bombeado do céu cheio de astros avulsos.

Eu, ali, uma coisa imaginada

Que o Eterno pica,
Vou na onda, de tempo carregada,

E desenrolo...
Sou movimento e terra delineada,
Impulso e sal de pólo a pólo.

Quando penso no mar, o mar regressa
A certa forma que só teve em mim ‑
Que onde acaba, o coração começa.

Começa pelo aro das estrelas
A compasso retido em mente pura
E avivado nos vidros das janelas.

Começa pelo peito das baías
A rosar-se e crescer na madrugada
Que lhe passa ao de leve as orlas frias.

E, de assim começar, é abstrato e imenso:
Frio como a evidência ponderada.
Quente como uma lágrima num lenço.

Coração começado pelos peixes,
És o golfo de todo o esquecimento
Na minha lembrança que me deixes,

E a rosa dos Ventos baralhada:
Meu coração, lágrima inchada,
Mais de metade pensamento.

Vitorino Nemésio ,O Bicho Harmonioso.

terça-feira, 20 de março de 2018

Natália Correia





Em 1950 Natália Correia visitou os Estados Unidos. Terra de fascínio e oportunidade para muitos emigrantes, o colosso americano é retratado neste livro, nos seus sucessos e contradições, com a penetrante lucidez da autora, já então capaz de intercalar diferentes registos de escrita com uma mestria prodigiosa.
Entre a Raiz e a Utopia e Descobri que Era Europeia, introdução e notas de Ângela Almeida, são as novas reedições da editora Ponto de Fuga. 

quarta-feira, 7 de março de 2018

Yeats


Tivesse eu o manto bordado do céu,
com fios de luz dourada e prateada,
o manto azul e sombrio e escuro
da noite e da luz e da meia-luz, 
estenderia esse manto a teus pés:
mas pobre como sou, posso apenas sonhar;
estendi os meus sonhos a teus pés;
pisa com cuidado, são os meus sonhos que estás a pisar.

William Butler Yeats

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018