domingo, 9 de dezembro de 2018

As Ilhas Desconhecidas Notas e Paisagens



Desconfio que as Sete cidades é também a alma duma paisagem. As grandes paisagens que morrem a alguma parte hão-de ir ter... Deus colocou-a aqui, delicada e virgem, no fundo desta cratera tremenda, entre o fogo e o caos; rodeou-a de solidão e de montes: pôs-lhe à volta, para a defender, o mar. Mas sente-se que tem saudades e tenta quebrar o encanto: envolta em névoa ligeira, sonha, flutua e queda-se um pouco triste: quer ser ainda mais aérea- vai estremecer, desaparecendo no éter...

As Ilhas Desconhecidas notas e paisagens, Raul Brandão, edição Artes e Letras, 2018. 

domingo, 4 de novembro de 2018

Vitorino Nemésio Poesia (1916-1940)





O PAÇO DO MILHAFRE

À beira de água fiz erguer meu Paço
De Rei-Saudade das distantes milhas:
Meus olhos, minha boca eram as ilhas;
Pranto e cantiga andavam no sargaço.

Atlântico, encontrei no meu regaço
Algas, corais, estranhas maravilhas!
Fiz das gaivotas minhas próprias filhas,
Tive pulmões nas fibras do mormaço.

Enchi infusas nas salgadas ondas
E oleiro fui que as lágrimas redondas
Por fora fiz de vidro e, dentro, de água.

Os vagalhões da noite me salvavam
E, com partes iguais de sal e mágoa,
Minhas altas janelas se lavavam.


Vitorino Nemésio, Obras Completas, Poesia (1916-1940), ed. Imprensa Nacional/Companhia das Ilhas, 2018. 

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

A Praia de Manhattan



Sentiu uma torrente de bem-estar cuja fonte não foi de imediato evidente. E então apercebeu-se: a dor do escafandro tinha-se sumido.(...) Sentiu um puxão solitário no cordão umbilical: Estás bem? repetiu o puxão para indicar que compreendia e que não havia problemas. Está tudo bem. Deu por si a sorrir. O ar nas narinas sabia-lhe deliciosamente; até o silvo da sua chegada que o tenente Axel descrevera como ' um mosquito que não precisariam de regular a válvula de escape, mas Anna não foi capaz de resistir a apertar um nadinha mais o local em forma de estrela para que se acumulasse mais ar dentro do escafandro. Começou a subir muito ligeiramente, a lama a agarrar-se às solas dos sapatos enquanto estes se afastam. Uma explosão de prazer rebentou dentro dela. Parecia estar a voar , parecia magia - parecia estar dentro de um sonho. Abriu a válvula de escape e deixou sair o ar em excesso até os pés assentarem de novo no leito da baía.
A Praia de Manhattan, Jennifer Egan, Quetzal, 2018

Helena Almeida 1934 - 2018


Voar, 2001

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Inédito de José Saramago


Para celebrar os 20 anos da atribuição do Nobel da Literatura a José Saramago, a Porto Editora vai publicar o “Último Caderno de Lanzarote”, um diário inédito do autor, descoberto casualmente por Pilar del Rio, correspondente a 1998, ano em que o escritor foi galardoado.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Se a Tua Rua Falasse



Um dos grandes nomes da literatura norte-americana do século XX, James Arthur Baldwin (1924-1987), é publicado pela primeira vez em Portugal. “Se A Tua Rua Falasse” é uma das grandes obras a reter da rentrée, com chancela Alfaguara. 
Profundamente comovente, este romance é uma bela canção de blues, de toada doce-amarga, cheia de esperança. Baldwin foi uma das vozes mais influentes do ativismo pelos direitos civis. 

Em 1979, Baldwin iniciou "Remember This House", um trabalhobiográfico sobre Medgar Evers (1925-1963), Malcolm X (1925-1965) e Martin Luther King Jr. (1929-1968), os três maiores líderes negros da década de 1960 nos EUA, todos eles assassinados. A obra analisava a história do racismo, assim como o tratamento dado às minorias em território norte-americano. O manuscrito inacabado foi confiado ao realizador haitiano Raoul Peck que, combinando textos e imagens de arquivo em que o autor expôs os seus pensamentos em "Iam Not Your Negro" realizado pelo hatiano Raoul Peck, sobre o tema.
Narrado pelo actor Samuel L. Jackson, é uma reflexão sobre as lutas históricas pela igualdade de direitos e a forma como o tema se mantém actual e pertinente no contexto do século XXI.


Obra Completa Vitorino Nemésio



A Rentrée Literária chega com Obra Completa de Vitorino Nemésio, uma edição da Companhia das Ilhas, em parceria com a Imprensa Nacional. 
"Poesia I (1916-1940)", bem como, "Amor de Nunca Mais" (teatro), os contos "Paço do Milhafre" e "O Mistério do Paço do Milhafre" serão os primeiros volumes sair já este mês de Setembro. Podemos contar com "Sob os Signos de Agora / Conhecimento de Poesia/Elogio Histórico de Júlio Dantas", para novembro 
Este projeto editorial é da responsabilidade do Professor Luiz Fagundes Duarte.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Vistas do Mar de Gilberto Bernardo




Norte Sul Azul

Há um olhar que liga o Norte ao Sul (ou vice-versa) e os reúne nesse território (quase) neutro em que um e outro afirmam as suas particularidades, no mesmo momento em que elas se diluem para afirmarem uma coisa outra, que já não é a simples soma de elementos e dados. Esse olhar é o de Gilberto Bernardo, que uma vez mais convoca um segundo olhar, o nosso, para o território da (sua) pintura. 
Este é o tempo do mar. Na sua dimensão natural, na sua dimensão humana também. Às vezes, o azul exasperado é o arrepio de um Inverno que traz consigo rumores e inquietações; outras vezes, ele abre-se aos dias luminosos, mesmo com a cinza açoriana ameaçando a limpidez da paisagem. 
Este é também o tempo dos homens. É possível senti-los na quietação dos barcos alinhados junto às casas como se fossem os frutos de um quintal de terra e mar. Invisíveis, talvez à sombra dos templos ou das casas, os homens vigiam o andamento dos dias ou, algures, entre as redes, medem a extensão das malhas e das pescarias frustradas. 
Do Norte para o Sul, entre cores e mares, viaja o olhar de Gilberto Bernardo. E, com o dele, também o nosso.

Urbano Bettencourt (Julho de 2018)

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

No Verão Todos Somos Xerazade

John Singer Sargent

No Verão Todos Somos Xerazade. Damos por nós em conversas que se espreguiçam, sem cronómetro nem pressas de ver o fim, deslumbradas pela aparente falta de propósito, por não terem requerido, como é habitual nas outras estações, um fito, um lugar e um tempo exactos. Conversas que são, na sua ligeireza, uma espécie de navegação sem rumo, mas onde mais depressa, e não raro de um modo surpreendente para nós próprios, nos reencontramos.


José Tolentino Mendonça, O Pequeno Caminho Das Grandes Perguntas, Quetzal, 2017


quarta-feira, 18 de julho de 2018

A Paria de Chesil


A Paria de Chesil, 1960, Florence e Edward, jovens recém-casados, em lua-de-mel, numa época de grandes alterações sociais e sexuais «Eram jovens, licenciados, ambos virgens naquela sua noite de núpcias, e viviam numa época em que uma conversa sobre dificuldades sexuais, que nunca é fácil, era simplesmente impossível.» 
Do grande escritor britânico Ian McEwan, um romance subtil, adaptado agora ao cinema. Tal como João Lopes diz «É uma dolorosa aventura de impossível romantismo.»

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