quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Poesia de Leonardo - caderno de mitos pessoais



a época derrete-nos
estalam as horas
na pele dos frutos
triste brisa que não passa
temos agora os olhos fixos
na respiração vazia
das durações
poucas palavras para dizer
se não cabem na vertigem
nem da sombra nem da língua
esperemos que o sol se ponha
procuramos o abrigo da demora
os impérios arrastam séculos
por isso temos de envelhecer

Leonardo, caderno de mitos pessoais, capa: aguarela de Victor Bernardo Almeida, edição Artes e Letras, 2019

domingo, 9 de dezembro de 2018

As Ilhas Desconhecidas Notas e Paisagens



Desconfio que as Sete cidades é também a alma duma paisagem. As grandes paisagens que morrem a alguma parte hão-de ir ter... Deus colocou-a aqui, delicada e virgem, no fundo desta cratera tremenda, entre o fogo e o caos; rodeou-a de solidão e de montes: pôs-lhe à volta, para a defender, o mar. Mas sente-se que tem saudades e tenta quebrar o encanto: envolta em névoa ligeira, sonha, flutua e queda-se um pouco triste: quer ser ainda mais aérea- vai estremecer, desaparecendo no éter...

As Ilhas Desconhecidas notas e paisagens, Raul Brandão, edição Artes e Letras, 2018. 

domingo, 4 de novembro de 2018

Vitorino Nemésio Poesia (1916-1940)





O PAÇO DO MILHAFRE

À beira de água fiz erguer meu Paço
De Rei-Saudade das distantes milhas:
Meus olhos, minha boca eram as ilhas;
Pranto e cantiga andavam no sargaço.

Atlântico, encontrei no meu regaço
Algas, corais, estranhas maravilhas!
Fiz das gaivotas minhas próprias filhas,
Tive pulmões nas fibras do mormaço.

Enchi infusas nas salgadas ondas
E oleiro fui que as lágrimas redondas
Por fora fiz de vidro e, dentro, de água.

Os vagalhões da noite me salvavam
E, com partes iguais de sal e mágoa,
Minhas altas janelas se lavavam.


Vitorino Nemésio, Obras Completas, Poesia (1916-1940), ed. Imprensa Nacional/Companhia das Ilhas, 2018. 

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

A Praia de Manhattan



Sentiu uma torrente de bem-estar cuja fonte não foi de imediato evidente. E então apercebeu-se: a dor do escafandro tinha-se sumido.(...) Sentiu um puxão solitário no cordão umbilical: Estás bem? repetiu o puxão para indicar que compreendia e que não havia problemas. Está tudo bem. Deu por si a sorrir. O ar nas narinas sabia-lhe deliciosamente; até o silvo da sua chegada que o tenente Axel descrevera como ' um mosquito que não precisariam de regular a válvula de escape, mas Anna não foi capaz de resistir a apertar um nadinha mais o local em forma de estrela para que se acumulasse mais ar dentro do escafandro. Começou a subir muito ligeiramente, a lama a agarrar-se às solas dos sapatos enquanto estes se afastam. Uma explosão de prazer rebentou dentro dela. Parecia estar a voar , parecia magia - parecia estar dentro de um sonho. Abriu a válvula de escape e deixou sair o ar em excesso até os pés assentarem de novo no leito da baía.
A Praia de Manhattan, Jennifer Egan, Quetzal, 2018

Helena Almeida 1934 - 2018


Voar, 2001

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Inédito de José Saramago


Para celebrar os 20 anos da atribuição do Nobel da Literatura a José Saramago, a Porto Editora vai publicar o “Último Caderno de Lanzarote”, um diário inédito do autor, descoberto casualmente por Pilar del Rio, correspondente a 1998, ano em que o escritor foi galardoado.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Se a Tua Rua Falasse



Um dos grandes nomes da literatura norte-americana do século XX, James Arthur Baldwin (1924-1987), é publicado pela primeira vez em Portugal. “Se A Tua Rua Falasse” é uma das grandes obras a reter da rentrée, com chancela Alfaguara. 
Profundamente comovente, este romance é uma bela canção de blues, de toada doce-amarga, cheia de esperança. Baldwin foi uma das vozes mais influentes do ativismo pelos direitos civis. 

Em 1979, Baldwin iniciou "Remember This House", um trabalhobiográfico sobre Medgar Evers (1925-1963), Malcolm X (1925-1965) e Martin Luther King Jr. (1929-1968), os três maiores líderes negros da década de 1960 nos EUA, todos eles assassinados. A obra analisava a história do racismo, assim como o tratamento dado às minorias em território norte-americano. O manuscrito inacabado foi confiado ao realizador haitiano Raoul Peck que, combinando textos e imagens de arquivo em que o autor expôs os seus pensamentos em "Iam Not Your Negro" realizado pelo hatiano Raoul Peck, sobre o tema.
Narrado pelo actor Samuel L. Jackson, é uma reflexão sobre as lutas históricas pela igualdade de direitos e a forma como o tema se mantém actual e pertinente no contexto do século XXI.


Obra Completa Vitorino Nemésio



A Rentrée Literária chega com Obra Completa de Vitorino Nemésio, uma edição da Companhia das Ilhas, em parceria com a Imprensa Nacional. 
"Poesia I (1916-1940)", bem como, "Amor de Nunca Mais" (teatro), os contos "Paço do Milhafre" e "O Mistério do Paço do Milhafre" serão os primeiros volumes sair já este mês de Setembro. Podemos contar com "Sob os Signos de Agora / Conhecimento de Poesia/Elogio Histórico de Júlio Dantas", para novembro 
Este projeto editorial é da responsabilidade do Professor Luiz Fagundes Duarte.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Vistas do Mar de Gilberto Bernardo




Norte Sul Azul

Há um olhar que liga o Norte ao Sul (ou vice-versa) e os reúne nesse território (quase) neutro em que um e outro afirmam as suas particularidades, no mesmo momento em que elas se diluem para afirmarem uma coisa outra, que já não é a simples soma de elementos e dados. Esse olhar é o de Gilberto Bernardo, que uma vez mais convoca um segundo olhar, o nosso, para o território da (sua) pintura. 
Este é o tempo do mar. Na sua dimensão natural, na sua dimensão humana também. Às vezes, o azul exasperado é o arrepio de um Inverno que traz consigo rumores e inquietações; outras vezes, ele abre-se aos dias luminosos, mesmo com a cinza açoriana ameaçando a limpidez da paisagem. 
Este é também o tempo dos homens. É possível senti-los na quietação dos barcos alinhados junto às casas como se fossem os frutos de um quintal de terra e mar. Invisíveis, talvez à sombra dos templos ou das casas, os homens vigiam o andamento dos dias ou, algures, entre as redes, medem a extensão das malhas e das pescarias frustradas. 
Do Norte para o Sul, entre cores e mares, viaja o olhar de Gilberto Bernardo. E, com o dele, também o nosso.

Urbano Bettencourt (Julho de 2018)

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

No Verão Todos Somos Xerazade

John Singer Sargent

No Verão Todos Somos Xerazade. Damos por nós em conversas que se espreguiçam, sem cronómetro nem pressas de ver o fim, deslumbradas pela aparente falta de propósito, por não terem requerido, como é habitual nas outras estações, um fito, um lugar e um tempo exactos. Conversas que são, na sua ligeireza, uma espécie de navegação sem rumo, mas onde mais depressa, e não raro de um modo surpreendente para nós próprios, nos reencontramos.


José Tolentino Mendonça, O Pequeno Caminho Das Grandes Perguntas, Quetzal, 2017