quinta-feira, 19 de outubro de 2017

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Outono

                                                           Maçãs, Paul Cézanne

Uma das macieiras estava num estado lastimável, muitos dos ramos estavam mortos, parecia rígida e sem vida, mas podei-a no começo do verão, nunca tinha feito antes, e entusiasmei-me muito, cortei mais e mais sem ver como ficava (...). Aniquilada, foi a palavra que me veio à cabeça. Agora os ramos cresceram, cheios de folhas, e está carregada de maçãs. Foi a experiência que adquiri ao trabalhar no jardim, não há nenhuma razão para se ser cauteloso ou ter medo de alguma coisa, a vida é robusta, como que jorra em cascata, cega e verde, e por vezes mete medo, porque nós também vivemos, mas sob uma espécie de circunstâncias controladas, que nos fazem ter medo do que é cego, selvagem, caótico, que se ergue para o sol e que a maior parte das vezes é belo, mas de uma forma mais profunda do que o visual ... 

 No Outono", Karl Ove Knausgard, Relógio D'Água, 2016 

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Leituras de verão

 


   Das muitas edições nos escaparates das livrarias, deixamos aqui duas sugestões de leitura para este verão:

   Vinte anos após o sucesso de O Deus das Pequenas Coisas, vencedor do Booker Prize, surge o tão aguardado segundo romance de Arundhati Roy. Em O Ministério da Felicidade Suprema, a autora dá voz a heróis improváveis e almas feridas que encontram redenção no amor, tendo como plano de fundo o subcontinente indiano, desde os bairros superlotados da Velha Deli e os centros comerciais reluzentes da nova metrópole às montanhas e os vales de Caxemira. O regresso de Arundhati Roy à ficção tem sido destacado pela imprensa internacional como o acontecimento literário do ano. O Ministério da Felicidade Suprema é um dos mais aguardados romances da história recente da literatura, estando já a ser traduzido para 29 línguas.  
   Considerado o livro revelação do ano, o romance de Paolo Cognetti parte da experiência autobiográfica do autor, ao ter fugido para as montanhas dos Alpes para escapar a uma depressão. Paolo Cognetti descreve as paisagens no registo fascinante de quem conhece a montanha. Mas não se fica pelo deslumbre da paisagem, atribuindo-lhe, por vezes, uma beleza sombria, ácida, que não infundia a paz mas essencialmente força e alguma angustia. As Oito Montanhas é um livro magnético, que explora ligações acidentadas mas graníticas, a possibilidade de aprender e a procura do nosso lugar no mundo.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Sabemos O Que É Um Livro?


Edward Hopper

Lembro-me de que, em Paris, à entrada de um alfarrabista para os lados de Notre-Dame, vi copiado o início do poema que Walt Whitman dedicou “a um estranho”. E os versos de arranque dizem o seguinte: “Estranho que por mim passas! não sabes com que/ desejo ardente meus olhos te fitam.” Os estranhos somos nós, os leitores, os possíveis leitores ou os que não chegamos a sê-lo, pois tantas vezes passamos ignorando o que os livros nos dedicam e a longa espera, mesmo se falhada, que fazem por nós. Falar de indústria a propósito dos livros é um palreio escasso, quando não absurdo. Nos livros interessa não a sua materialidade mas a pré-história que a contamina. Um livro é um enigma como as pirâmides do Egito. É um laboratório em combustão. Uma saída de emergência. Um clube de socorro a náufragos. Um intercomunicador entre silêncios. Um lança-chamas. Um abrigo de floresta. Um trilho mais adiante. 

José Tolentino Mendonça (In) E Revista do Expresso, 10 Junho 2017 


sábado, 10 de junho de 2017

Há Palavras Que Nos Beijam


Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.


Poesias Completas & Dispersos, Alexandre O'Neill, Assírio & Alvim, 2017.


50 anos de Cem Anos de Solidão


Fotografia de Daniel Mordzinski


"Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo."

Gabriel García Márquez , Cem Anos De Solidão, Ed. Dom.Quixote

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

A Biblioteca à Noite



Alberto Manguel, escritor, tradutor e ensaísta argentino, fala sobre como sua biblioteca imaginária tem sempre um texto a sua disposição. E quando lhe faltam palavras é nessa biblioteca secreta, que habita sua imaginação, que ele encontra resposta para seus desejos e suas angústias.

"Noites há em que sonho com uma biblioteca inteiramente anónima em que os livros não têm títulos nem ostentam autores, formando uma corrente narrativa contínua. Nessa biblioteca, o herói d’«O Castelo» embarcaria no Pequod, em busca do Santo Graal, acostaria numa ilha deserta e, usando fragmentos dados à costa, reconstruiria a sociedade a partir das suas ruínas, relataria o seu primeiro encontro centenário com o gelo e recordaria, em penoso pormenor, como se recolhia cedo à cama."


A Biblioteca à Noite, Alberto Manguel, Ed. Tinta da China, 2016.


quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Recensão dos Sonetos Completos de Antero de Quental - Expresso



SONETOS COMPLETOS
Antero de Quental

"Antero de Quental (1842-1891), figura mítica e romântica do Portugal oitocentista, filho e neto de liberais e de mãe muito religiosa, viveu quase sempre dividido entre esses dois mundos e disso deu conta em poemas, cartas e muitos outros textos. Num Portugal atrasado e pobre, ousou, pensou, combateu, amou, sempre com a mesma alta postura ética. Foi sobretudo um poeta. E como tal reconhecido por leitores alemães, espanhóis, russos, franceses, ingleses, italianos, suecos. A Livraria Artes & Letras, de Ponta Delgada, terra natal de Antero, quis assinalar o nascimento, a vida e a obra de um dos “Vencidos da Vida”, organizador das Conferências Democráticas do Casino Lisbonense, com a publicação desta cuidada edição dos “Sonetos Completos”. Para tal convidou Ana Maria Almeida Martins, especialista na obra do “poeta das ideias”, autora do prefácio, que recupera a edição de 1886, por respeitar integralmente o critério de Antero de Quental. A luz, paixão e fogo que vibram na poesia de Antero, mormente nos Sonetos, dão bem a medida de uma aspiração que o acompanhou no tempo que vai da redação à revisão e publicação dos mesmos, aspiração essa temperada por um filtro metafísico que eclode sistematicamente nos versos e os satura de uma mescla de sentir e pensar, de compulsão e contenção, como não podia deixar de ser num homem cujas características sempre foram essas mesmas, quer enquanto indivíduo introspetivo quer enquanto cidadão interventivo. Para o autor, os Sonetos constituíam uma espécie de autobiografia espiritual, o que terá induzido uns quantos a olhar para a sua poesia como um mapa dos seus tormentos existenciais, amorosos e outros, chegando mesmo a entender a reflexão metafísica e o pessimismo ali presentes como prenúncio do dia fatídico. Felizmente, outros tantos leitores assinalaram, também desde os primórdios, o quanto a poesia anteriana tem, como disse o correligionário Eça de Queirós, dessa “coisa estranha e rara – as dores de uma inteligência”. Uma inteligência dividida entre eros e tanatos. Uma poesia das coisas que se insinua, lenta e musical, no leitor. “Deixá-la ir, a vela, que arrojaram/ Os tufões pelo mar, na escuridade,/ Quando a noite surgiu da imensidade,/ Quando os ventos do Sul se levantaram…// Deixá-la ir, a alma lastimosa,/ Que perdeu fé e paz e confiança,/ À morte queda, à morte silenciosa…”. Razão tem por isso Eduardo Lourenço quando assinala que não há na nossa literatura poeta tão naturalmente universal como Antero. “É como se estivesse só no Universo, ilha pura, sem qualquer arquipélago.”"

CARLOS BESSA
in Expresso, Agosto 2016

quarta-feira, 17 de agosto de 2016


          Soneto 5 

          As horas que em terno ofício emolduraram
          Essa face gentil onde o olhar se demora
          Hão-de ser a tiranas de si mesmas, as horas,
          Como da fealdade que a perfeição supera.
          Pois não repousa o Tempo, antes guia o Verão
          Ao temível Inverno, para aí o lograr;
          A seiva enregelada, as folhas sem fulgor,
          Soterrada a beleza, e em vez, desolação.
          Assim, não fora a essência do Verão conservada,
          Líquida prisioneira entre vítreas paredes,
          O fruto da beleza por ela era roubado
          E nem memória havia de beleza que fosse.
             Mas a flor, no Inverno, perde só a aparência,
             Sobrevivendo, doce, o que lhe deu substância.

            31 Sonetos, William Shakespeare, Relógio d'Água, 2015