sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Ruy Belo Homem de Palavra(s)


Enterro Sob o Sol

Era a calma do mar naquele olhar
Ela era semelhante a uma manhã
teria a juventude de um mineral
Passeava por vezes pelas ruas
e as ruas uma a uma eram reais
Era o cume da esperança: eternizava
cada uma das coisas que tocava
Mas hoje é tudo como um fruto de setembro
ó meu jardim sujeito à invernia
A aurora da cólera desponta
já não sei da idade do amor
Só me resta colher as uvas do castigo
Sou um alucinado pela sede
Caminho pela areia dêem-me um
enterro sob o sol enterro de água


Ruy Belo, Todos os Poemas.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Poema de Tomas Transtromer - Nobel da Literatura de 2011



Allegro


Toco Haydn depois de um dia infeliz
Experimento nas maõs um suava ardor.

As teclas obedecem. Batem brandos martelos.

A tonalidade é verde, viva, aprazível.
A tonalidade diz que a liberdade existe

E que alguém se nega a pagar imposto ao imperador.

Meto as mãos nos meus bolsos-haydn
E faço de conta que encaro o mundo com calma.

Iço depois a bandeira-haydn, que significa:

“ Nós não nos rendemos, mas queremos paz.”


Traduções, do Sueco,
de Alexandre Pastor

domingo, 30 de outubro de 2011

É Na Terra Não é Na Lua



"É NA TERRA NÃO É NA LUA" de Gonçalo Tocha Vencedor DocLisboa

"No filme, cada pessoa é tratada de uma maneira diferente, de acordo com a relação que criava com cada uma. Fazia o exercício de pensar como é que podia engrandece-las através da imagem e da minha interação com elas. É o caso, por exemplo, da senhora Inês, da loja de artesanato. Queria comprar um gorro do Corvo, e ela não tinha, então, pedi-lhe para me fazer um e assim aproveitava para filmar o processo. Acabou por ser um símbolo muito forte no filme, também porque acompanhava a evolução da nossa relação. Agora, ando sempre com o gorro. É como se estivesse a vestir o Corvo."

Gonçalo Tocha (in JL)

sábado, 29 de outubro de 2011

URBANO neste meio de mar

Exposição Antológica URBANO neste meio de mar
Núcleo de Arte Sacra e Núcleo de Santa Bárbara
28 de Outubro de 2011 a 29 de Janeiro de 2012

sábado, 22 de outubro de 2011

O Burro e o Bolo de Massa Cevada


"No século passado vivia nos Mosteiros, ilha de S.Miguel, uma pobre viúva com uma única filha em idade de casar. Apesar da rapariga namorar há muito tempo com um rapaz da freguesia, não havia maneira do rapaz marcar a data do casamento.
A viúva querendo ver a filha casada, o mais rapidamente possível resolveu recorrer aos seus conhecimentos de feitiçaria para apressar o casamento. Assim, certa noite, antes do nascer do sol, a mãe acordou a filha e foram ambas para a cozinha fazer um bolo de massa cevada que a rapariga deveria oferecer ao rapaz. A massa foi colocada em cima de um pano branco, alvo como a neve, e amassado pela rapariga enquanto a mãe rezava uma orações só do seu conhecimento.
Quando ao fim da tarde o rapaz se apresentou em casa da futura sogra para namorar, encontrou à sua espera um bolo de massa cevada alto e fofo como ele nunca tinha visto. O rapaz desconfiado achou que aquilo não era normal afirmando não ter fome, no momento, prometeu comer uma fatia do bolo mais tarde. No entanto, já a caminho de casa o rapaz passou por uma arribana e vendo lá dentro um burro atirou-lhe o bolo.
O burro não se fez rogado e saciou a fome com aquele maravilhoso pitéu. Quase imediatamente, o animal ficou muito agitado e rebentando a corda que o amarrava saiu numa correria louca em direcção à casa da viúva e da filha. Todos os esforços para afastar o burro foram em vão e o animal zurrava cada vez mais alto demonstrando o seu amor pela rapariga. O rapaz, perante este cenário, afastou-se o mais depressa que as pernas lhe permitiam, e nunca mais quis saber da rapariga."

As Lendas No Imaginário Açoriano de Avelino Santos e Lúcia Santos
Blu Edições, 2011.

Nova Edição - As Lendas no Imaginário Açoriano



« As lendas são a prova de que as tradições de um povo permanecem vivas e que cada geração recebe e guarda com carinho uma herança que tem sido religiosamente guardada e passada de geração em geração. As lendas revelam o mais íntimo e profundo do ser humano, não se centrando unicamente em seres imaginários, mas exprimindo as crenças e as convicções do meio cultural onde as pessoas se movem, porque a lenda é a “ dramatização do fogo nas entranhas da Terra, é a estupefacção e a admiração dos vulcões vomitando lava ardente, pedras incandescentes, cinzas amortalhadoras (...) o mar com os seus mistérios e encantos; as lagoas com os seus bramidos e policromias; á a lua, o sol, as plantas.”»

Da Introdução


As Lendas no Imaginário Açoriano de Avelino Santos e Lúcia Santos.

Blu Edições, 2011.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

domingo, 25 de setembro de 2011

5 Minutos de Cultura

O desejo de ser inutíl


"Reflectir, encarar as coisas, assumir as responsabilidades, prosseguir o seu trabalho ou seja o que for que se empreendeu mesmo quando as circunstâncias se tornam adversas, é isso um homem, alguém que enfrenta os seus problemas, que leva até ao fim o que se propôs fazer, que procura ser rigoroso consigo próprio. Eu tento ser assim, e trato de me defender quando os meus princípios éticos são atacados."

Hugo Pratt, O desejo de ser inútil, Relógio D'Água

domingo, 11 de setembro de 2011

Antero de Quental 11 Setembro de 1891



Na Mão De Deus

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva no colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!


Antero de Quental
, Sonetos Completos.