quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018
quarta-feira, 24 de janeiro de 2018
Um Símbolo de Resistência
Num período de profundas mutações nos hábitos de consumo de bens culturais e de lazer, as livrarias (tradicionais e independentes) lutam de forma desigual pela afirmação da sua cota de mercado, o qual não tem em linha de conta a diferenciação da prateleira mas o valor do desconto.Isto numa semana em que ficamos a saber que encerrou mais uma livraria histórica em Lisboa, a Aillaud & Lellos, no Chiado.
Esta circunstância teve inúmeras repercussões e levou, inclusive, a uma chamada de atenção da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) para a necessidade de implementação de medidas de apoio (urgente) às livrarias ameaçadas de extinção, recomendando a análise dos mecanismos de apoio vigentes em França, exemplo maior nas políticas de difusão do livro.
Nos Açores, o número de livrarias é reduzido e há ilhas que não as têm. Por regra, o acesso ao livro é possível através das bibliotecas públicas (governamentais, municipais ou escolares), de outros espaços comerciais cuja vocação primordial não é o livro e, num número cada vez mais significativo, pela aquisição online.
Felizmente, ainda, existem espaços que mantêm a sua actividade de forma resiliente. Um dos melhores exemplos, entre nós, é a Livraria Solmar que, complementarmente, ao usual lançamento de livros com autores regionais e nacionais, mantém a organização de feiras temáticas e de iniciativas como a dos ‘Livros do Ano’, cujo principal objetivo é dar a conhecer os livros que constituíram a preferência dos leitores (convidados).
E aqui faço uma declaração de interesses, na medida em que fui um dos convidados da edição deste ano.
Tenho uma relação de amizade para com os seus proprietários, sou um frequentador diário da livraria, um espaço de encontros, de tertúlia improvisada, de conversas distendidas, num tempo dado a pressa(s).
A livraria é, igualmente, um campo de ansiedade e contenção, na medida em que ao olhar para as propostas alinhadas na prateleira, no gosto em desfolhar as páginas à minha frente e sentir o cheiro do papel, sei que não vou conseguir ler tudo o que (já) tenho (até final da minha vida).
Compro mais do que leio, é quase compulsivo, gosto de livros e, em Portugal, as edições estão melhores: nas traduções, na impressão, no design e no papel.
A humidade das ilhas deixa (na maioria dos casos) tudo a perder.
Devia ler mais mas, se pensar bem nisso, nunca li tanto como agora. O dia é preenchido a ler, de forma fragmentada (e acelerada).
Este é um fenómeno transversal a (quase) tudo o que fazemos, pessoal e profissionalmente.
O nosso consumo é realizado na diagonal, em formato descartável e de bolso. Vivemos um período de enormes transformações tecnológicas (que ainda só agora começaram) e que ditam (inconscientemente) a forma como nos correlacionámos, por exemplo, com o cinema, a música e o livro.
Passamos do disco, para a faixa e para a playlist do Spotify.
O cinema (em Ponta Delgada é um duplo desafio) passou para a BOX (oficial e pirateada) e as estrelas cinematográficas estão, preferencialmente, na série televisiva.
O ponto de encontro dos amigos passou a ser um grupo no Facebook.
E o livro dá muitas vezes lugar ao artigo na revista, ao jornal ou ao post.
Afirmar o (pretenso) cosmopolitismo de Ponta Delgada passa por olhar a singularidade de espaços como este, pela promoção (consequente) de políticas de apoio à difusão do livro (e da leitura) e pelo enquadramento de uma linha de apoios públicos a esta actividade (que é cada vez menos um negócio e devia ser entendida como um serviço público).
A livraria (Solmar e muitas outras suas congéneres) é, hoje, um símbolo de resistência à voragem do tempo (e do mercado).
* Publicado na edição de 22/01/18 do Açoriano Oriental
sábado, 20 de janeiro de 2018
Livros do Ano 2017 - Pelo Mundo dos livros e da Escrita
Fotografia de Tito Fontes
Fotografia de Carlos Olyveira
Tendo como principal objectivo dar a conhecer os livros que constituíram no ano transacto a preferência dos cinco leitores convidados, aqui fica em síntese a lista das escolhas.
Agradecemos com carinho aos nossos convidados e a todos os presentes.
Ana Monteiro: Silêncio na Era do Ruído de Erling Kagge, Quetzal.
História Íntima da Humanidade, de Theodore Zeldin, Texto Editores.
Volume 2 da Revista Grotta, direção de Nuno Costa Santos, ed. Letras Lavadas.
Alexandre Pascoal: Homens Bons de Arturo Pérez-Reverte, Edições Asa.
A Maldição dos Trinta Denários, de J. Van Hamme, C. de Siegeleer e René Sterne, Ed. Asa.
Catálogo da Exposição Interior/ Exterior, do Museu Carlos Machado.
No âmbito das leituras dramatizadas realizadas no Teatro Micaelense, Alexandre Pascoal destacou ainda dois livros de teatro, Al Pantalone de Mário Botequilha e Peça romântica para um teatro fechado de Tiago Rodrigues, ambas edições da Companhia das Ilhas.
Emanuel Jorge Botelho: As Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos três últimos séculos, Antero de Quental, Ed. Artes e Letras.
Últimos Poemas, José Miguel Silva, ed. Averno
O Caçador Esquimó, Miguel Martins, Ed. Fahrenheit 451.
Baixo Contínuo, Rui Nunes, Relógio D’ Água.
Existência, Gastão Cruz, Assírio & Alvim.
Segundo Emanuel Jorge Botelho um livro de todos os anos é A faca Não Corta o Fogo de Herberto Helder, ed. Assírio Alvim. (2008)
Elsa Soares: A Mais Absurda das Religiões, Nuno Costa Santos, ed. Escritório
ABN da Pessoa com Universo ao fundo, Leonor Sampaio da Silva, Companhia das Ilhas.
A Estranha Ordem das Coisas, António Damásio, Temas e Debates
Pedro Gomes: O Anjo Pornográfico - A Vida de Nelson Rodrigues de Ruy Castro, Tinta da China.
O Pequeno Caminho das Grandes Perguntas, José Tolentino Mendonça, Quetzal
Os Ossos Dentro da Cinza, Emanuel Jorge Botelho, ed. Averno.
Os dois destaques da livraria foram para Os Loucos da Rua Mazur de João Pinto Coelho (Prémio LeYa 2017 ), que estará em Ponta Delgada, no dia 24 de Fevereiro, na livraria para a apresentação do seu premiado romance.
Volume 2 da Revista Grotta, com apresentação marcada para o dia 15 de Fevereiro, também na livraria.
quarta-feira, 10 de janeiro de 2018
Livros do Ano 2017
Imagem em Cianotipia por Vitor Marques
Ana Monteiro, Alexandre Pascoal, Elsa M. Soares Emanuel Jorge Botelho e Pedro Gomes são os convidados da Livraria SolMar, para darem a conhecer as suas escolhas/preferências das leituras do ano 2017.
terça-feira, 2 de janeiro de 2018
Fahrenheit 451
Pegue nessa aldeia quase toda e divida as páginas por pessoa. E um dia, quando a guerra acabar, os livros poderão voltar a ser escritos. As pessoas serão convocadas uma a uma para recitarem o que sabem, que será impresso, e depois chegará outra Era das Trevas na qual, talvez, tenhamos de repetir toda a operação. Mas é está maravilha do Homem: nunca fica desencorajado ou aborrecido a ponto de desistir do que tem mesmo de ser feito, pois sabe muito bem que é importante e vale a pena.
Ray Bradbury, Fahrenheit 451
sábado, 30 de dezembro de 2017
Os Melhores LeYa 2017
Desejamos a todos um Bom Ano 2018.
Aqui fica alguns dos “melhores do ano”, do grupo LeYa, em diferentes órgãos de
comunicação social nacionais:
O Ministério da Felicidade Suprema, Arundhati Roy (Visão, Público e Observador); Até que as
Pedras se Tornem mais Leves que a Água , António Lobo Antunes (Visão,
Público); Swing Time, Zadie Smith
(Público); Quando Portugal Ardeu,
Miguel Carvalho (Observador); Atos
Humanos, Han Kang (Observador, Time Out, Expresso), Abril e Outras Transições, José Cutileiro (Observador); A Casa das Tias, Cristina Almeida
Serôdio (Jornal “i” e Expresso); Caminhos
e Destinos – A Memória dos Outros II, Marcello Duarte Mathias (jornal “i”),
O Escritor Fantasma, Philip Roth
(Sábado); Dias Úteis, Patrícia
Portela (Sábado), Lamento de uma América
em Ruínas, J.D. Vance (Sábado); A
Tragédia de um Povo, Orlando Figes (Sábado, Expresso); Todos os dias Morrem Deuses, António Tavares (Time Out), História Íntima da Humanidade, Theodore
Zeldin (Time Out); 1640, Deana
Barroqueiro (Expresso); Os Loucos da Rua
Mazur, João Pinto Coelho (Expresso); A
Construção do Vazio, Patrícia Reis (Expresso); O Pianista de Hotel, Rodrigo Guedes de Carvalho (Expresso).
quarta-feira, 20 de dezembro de 2017
Agenda Terra 2108
Estamos no centro de Ponta Delgada, numa rua
estreita e calma, metade ao sol metade à sombra, onde o tempo passa devagar. Entrei
num pequeno espaço comercial, aberto a todos os que por ali passam. Ao fundo do
corredor, ladeado de máquinas e mesas da era de Gutenberg, está um homem de
estatura média, vestido de azul escuro: é o tipógrafo Dinis Botelho. O cheiro a
tinta invade-nos as narinas sem pedir licença - há folhas de papel por todo o lado, mesas de
caracteres móveis, prensas, chapas, tinta preta que tinge o chão com largos
borrões. O labor é feito num compasso lento, as máquinas estão em silêncio. As
matrizes (letras do alfabeto) estão às avessas e de tantas letras de um mundo
ao contrário nascem calendários, cartões, blocos, cadernos com um design
arrojado. Estou na Tipografia Micaelense, um autêntico museu vivo, aberta a uma
cultura urbana que tem vindo a mostrar-se segura e ambiciosa.
Um
grupo de jovens artistas açorianos com formação, gosto e sensibilidade, dão todos
os anos àquele espaço outra vitalidade e dinâmica. São cinco, como as Aventuras
de Enid Blyton, e a aventura vai fervilhando num encontro feliz entre o antigo
e o moderno. Todos com formação em áreas diversas: Júlia Garcia, em desing de
comunicação, André Laranjinha, em pintura, Maria Emanuel Albergaria, em antropologia,
Diana Diegues, coordenadora gráfica das criações periféricas e Nuno Silva
formado em filosofia. A eles se deve a Agenda que irá pautar o passar do tempo
na ilha; «Um peixe de terra no meio do mar/
Este meu naco de chão onde vou dando recorte aos passos da minha alma» como
diz o poeta Emanuel Jorge Botelho nas suas 30
Crónicas.
Desde
2014 que, na Micaelense, se vê criar esta agenda singular, feita manualmente e
impressa de forma artesanal. Os temas foram variando ao longo dos anos: no
primeiro, o Tempo, em 2015 Ilhas, 2016 contemplou a Luz, 2017 trouxe-nos o Corpo,
e em 2018 chegou a Terra. A ideia foi criar uma agenda diferente de todas as
outras, personalizada, artesanal e numerada o que a torna única, sendo uma forma
de louvar a arte tipográfica.
A
Micaelense é a única tipografia, em Ponta Delgada, sobrevivente à passagem,
avassaladora, dos tempos hipermodernos.
Já
sabe! Comprar um livro é imprescindível como prenda de Natal, e se comprar a
Agenda Terra 2018, à venda nas livrarias da cidade, estará a contribuir para perpetuar
a memória e valorizar o nosso património.
Publicado
no Açoriano Oriental, 20 Dezembro, 2017.
sexta-feira, 24 de novembro de 2017
Um Simples Pensamentos
UM SIMPLES PENSAMENTO
É a música, este romper do escuro.
Vem de longe, certamente doutros dias,
doutros lugares. Talvez tenha sido
a semente de um choupo, o riso
de uma criança, o pulo de um pardal.
Qualquer coisa em que ninguém
sequer reparou, que deixou de ser
para se tornar melodia. Trazida
por um vento pequeno, um sopro,
ou pouco mais, para tua alegria.
E agora demora-se, este sol materno,
fica contigo o resto dos dias.
Como o lume, ao chegar o inverno.
É a música, este romper do escuro.
Vem de longe, certamente doutros dias,
doutros lugares. Talvez tenha sido
a semente de um choupo, o riso
de uma criança, o pulo de um pardal.
Qualquer coisa em que ninguém
sequer reparou, que deixou de ser
para se tornar melodia. Trazida
por um vento pequeno, um sopro,
ou pouco mais, para tua alegria.
E agora demora-se, este sol materno,
fica contigo o resto dos dias.
Como o lume, ao chegar o inverno.
sexta-feira, 10 de novembro de 2017
Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos últimos Três Séculos de Antero de Quental
Causas da Decadência dos Povos Peninsulares é um texto ímpar na cultura portuguesa. O ainda jovem Antero tinha já estruturada uma visão do mundo altamente consciente das diferenças fundamentais que separavam a Ibéria da modernidade, à época a implantar-se e a crescer desafogadamente no Centro e Norte da Europa. O filósofo serve-se de uma linguagem de manifesto porque pretende intervir na sociedade acordando-a para as realidades que os novos tempos impunham. Daí que, por vezes, o estilo algo bombástico, panfletário mesmo, tenha irritado alguns espíritos do seu tempo. Mas o apaixonado Antero dirigia-se oralmente ao seu público e essa marca ficou nítida na versão escrita que depois deu à sua conferência. Não haja, porém, dúvida de estarmos perante um grande clássico da nossa história cultural.
Onésimo Teotónio Almeida
Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Três Últimos Séculos, Prefácio de Onésimo Teotónio de Almeida, ed. Artes e Letras, 2017
segunda-feira, 6 de novembro de 2017
quinta-feira, 19 de outubro de 2017
quinta-feira, 5 de outubro de 2017
quarta-feira, 4 de outubro de 2017
Outono
Maçãs, Paul Cézanne
Uma das macieiras estava num estado lastimável, muitos dos ramos estavam mortos, parecia rígida e sem vida, mas podei-a no começo do verão, nunca tinha feito antes, e entusiasmei-me muito, cortei mais e mais sem ver como ficava (...). Aniquilada, foi a palavra que me veio à cabeça. Agora os ramos cresceram, cheios de folhas, e está carregada de maçãs. Foi a experiência que adquiri ao trabalhar no jardim, não há nenhuma razão para se ser cauteloso ou ter medo de alguma coisa, a vida é robusta, como que jorra em cascata, cega e verde, e por vezes mete medo, porque nós também vivemos, mas sob uma espécie de circunstâncias controladas, que nos fazem ter medo do que é cego, selvagem, caótico, que se ergue para o sol e que a maior parte das vezes é belo, mas de uma forma mais profunda do que o visual ...
No Outono", Karl Ove Knausgard, Relógio D'Água, 2016
segunda-feira, 17 de julho de 2017
Leituras de verão

Das muitas edições nos escaparates das livrarias, deixamos aqui duas sugestões de leitura para este verão:
Vinte anos após o sucesso de O Deus das
Pequenas Coisas, vencedor do Booker Prize, surge o tão aguardado segundo
romance de Arundhati Roy. Em O
Ministério da Felicidade Suprema, a autora dá voz a heróis improváveis e almas
feridas que encontram redenção no amor, tendo como plano de fundo o subcontinente
indiano, desde os bairros superlotados da Velha Deli e os centros comerciais
reluzentes da nova metrópole às montanhas e os vales de Caxemira. O regresso de Arundhati Roy à
ficção tem sido destacado pela imprensa internacional como o acontecimento
literário do ano. O Ministério da Felicidade Suprema é um dos mais aguardados
romances da história recente da literatura, estando já a ser traduzido para 29
línguas.
Considerado o livro revelação do ano, o romance de Paolo Cognetti
parte da experiência autobiográfica do autor, ao ter fugido para as montanhas dos
Alpes para escapar a uma depressão. Paolo Cognetti descreve as paisagens no
registo fascinante de quem conhece a montanha. Mas não se fica pelo deslumbre
da paisagem, atribuindo-lhe, por vezes, uma beleza sombria, ácida, que
não infundia a paz mas essencialmente força e alguma angustia. As Oito
Montanhas é um livro magnético, que explora ligações acidentadas mas
graníticas, a possibilidade de aprender e a procura do nosso lugar no mundo.
segunda-feira, 12 de junho de 2017
Sabemos O Que É Um Livro?
Edward Hopper
Lembro-me de que, em
Paris, à entrada de um alfarrabista para os lados de Notre-Dame, vi copiado o
início do poema que Walt Whitman dedicou “a um estranho”. E os versos de
arranque dizem o seguinte: “Estranho que por mim passas! não sabes com que/
desejo ardente meus olhos te fitam.” Os estranhos somos nós, os leitores, os
possíveis leitores ou os que não chegamos a sê-lo, pois tantas vezes passamos
ignorando o que os livros nos dedicam e a longa espera, mesmo se falhada, que
fazem por nós. Falar de indústria a propósito dos livros é um palreio escasso,
quando não absurdo. Nos livros interessa não a sua materialidade mas a
pré-história que a contamina. Um livro é um enigma como as pirâmides do Egito.
É um laboratório em combustão. Uma saída de emergência. Um clube de socorro a
náufragos. Um intercomunicador entre silêncios. Um lança-chamas. Um abrigo de
floresta. Um trilho mais adiante.
José Tolentino Mendonça (In) E Revista do Expresso, 10 Junho 2017
sábado, 10 de junho de 2017
Há Palavras Que Nos Beijam
Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
Poesias Completas & Dispersos, Alexandre O'Neill, Assírio & Alvim, 2017.
50 anos de Cem Anos de Solidão
Fotografia de Daniel Mordzinski
"Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo."
Gabriel García Márquez , Cem Anos De Solidão, Ed. Dom.Quixote
quarta-feira, 18 de janeiro de 2017
A Biblioteca à Noite
Alberto Manguel, escritor, tradutor e ensaísta argentino, fala sobre como sua biblioteca imaginária tem sempre um texto a sua disposição. E quando lhe faltam palavras é nessa biblioteca secreta, que habita sua imaginação, que ele encontra resposta para seus desejos e suas angústias.
"Noites há em que sonho com uma biblioteca inteiramente anónima em que os livros não têm títulos nem ostentam autores, formando uma corrente narrativa contínua. Nessa biblioteca, o herói d’«O Castelo» embarcaria no Pequod, em busca do Santo Graal, acostaria numa ilha deserta e, usando fragmentos dados à costa, reconstruiria a sociedade a partir das suas ruínas, relataria o seu primeiro encontro centenário com o gelo e recordaria, em penoso pormenor, como se recolhia cedo à cama."
A Biblioteca à Noite, Alberto Manguel, Ed. Tinta da China, 2016.
"Noites há em que sonho com uma biblioteca inteiramente anónima em que os livros não têm títulos nem ostentam autores, formando uma corrente narrativa contínua. Nessa biblioteca, o herói d’«O Castelo» embarcaria no Pequod, em busca do Santo Graal, acostaria numa ilha deserta e, usando fragmentos dados à costa, reconstruiria a sociedade a partir das suas ruínas, relataria o seu primeiro encontro centenário com o gelo e recordaria, em penoso pormenor, como se recolhia cedo à cama."
A Biblioteca à Noite, Alberto Manguel, Ed. Tinta da China, 2016.
quarta-feira, 24 de agosto de 2016
Recensão dos Sonetos Completos de Antero de Quental - Expresso
SONETOS COMPLETOS
Antero de
Quental
"Antero de Quental (1842-1891),
figura mítica e romântica do Portugal oitocentista, filho e neto de liberais e
de mãe muito religiosa, viveu quase sempre dividido entre esses dois mundos e
disso deu conta em poemas, cartas e muitos outros textos. Num Portugal atrasado
e pobre, ousou, pensou, combateu, amou, sempre com a mesma alta postura ética.
Foi sobretudo um poeta. E como tal reconhecido por leitores alemães, espanhóis,
russos, franceses, ingleses, italianos, suecos. A Livraria Artes & Letras,
de Ponta Delgada, terra natal de Antero, quis assinalar o nascimento, a vida e
a obra de um dos “Vencidos da Vida”, organizador das Conferências Democráticas
do Casino Lisbonense, com a publicação desta cuidada edição dos “Sonetos
Completos”. Para tal convidou Ana Maria Almeida Martins, especialista na obra
do “poeta das ideias”, autora do prefácio, que recupera a edição de 1886, por
respeitar integralmente o critério de Antero de Quental. A luz, paixão e fogo
que vibram na poesia de Antero, mormente nos Sonetos, dão bem a medida de uma
aspiração que o acompanhou no tempo que vai da redação à revisão e publicação
dos mesmos, aspiração essa temperada por um filtro metafísico que eclode
sistematicamente nos versos e os satura de uma mescla de sentir e pensar, de
compulsão e contenção, como não podia deixar de ser num homem cujas
características sempre foram essas mesmas, quer enquanto indivíduo introspetivo
quer enquanto cidadão interventivo. Para o autor, os Sonetos constituíam uma
espécie de autobiografia espiritual, o que terá induzido uns quantos a olhar
para a sua poesia como um mapa dos seus tormentos existenciais, amorosos e
outros, chegando mesmo a entender a reflexão metafísica e o pessimismo ali
presentes como prenúncio do dia fatídico. Felizmente, outros tantos leitores
assinalaram, também desde os primórdios, o quanto a poesia anteriana tem, como
disse o correligionário Eça de Queirós, dessa “coisa estranha e rara – as dores
de uma inteligência”. Uma inteligência dividida entre eros e tanatos. Uma
poesia das coisas que se insinua, lenta e musical, no leitor. “Deixá-la ir, a
vela, que arrojaram/ Os tufões pelo mar, na escuridade,/ Quando a noite surgiu
da imensidade,/ Quando os ventos do Sul se levantaram…// Deixá-la ir, a alma
lastimosa,/ Que perdeu fé e paz e confiança,/ À morte queda, à morte
silenciosa…”. Razão tem por isso Eduardo Lourenço quando assinala que não há na
nossa literatura poeta tão naturalmente universal como Antero. “É como se
estivesse só no Universo, ilha pura, sem qualquer arquipélago.”"
CARLOS BESSA
in Expresso, Agosto 2016
















