quarta-feira, 17 de agosto de 2016
Soneto 5
As horas que em terno ofício emolduraram
Essa face gentil onde o olhar se demora
Hão-de ser a tiranas de si mesmas, as horas,
Como da fealdade que a perfeição supera.
Pois não repousa o Tempo, antes guia o Verão
Ao temível Inverno, para aí o lograr;
A seiva enregelada, as folhas sem fulgor,
Soterrada a beleza, e em vez, desolação.
Assim, não fora a essência do Verão conservada,
Líquida prisioneira entre vítreas paredes,
O fruto da beleza por ela era roubado
E nem memória havia de beleza que fosse.
Mas a flor, no Inverno, perde só a aparência,
Sobrevivendo, doce, o que lhe deu substância.
31 Sonetos, William Shakespeare, Relógio d'Água, 2015
sexta-feira, 29 de julho de 2016
Aquela Ilha Esquecida
“Aquela Ilha
esquecida
Que eu habito
adormecida
Que, à noite, eu
vou habitar;
Aquela Ilha
encantada
Que não se
encontra de dia,
Pois fica na
madrugada;
A Ilha não
descoberta,
Onde a
criptoméria aberta
Espalha em volta
o luar;
A Ilha
desconhecida
Que pelos
caminhos do sonho
Se mostra a quem
a buscar.
Áquela Ilha
distante,
Não há ninguém
que se afoite…
Aquela Ilha
esquecida
Que só tem um
habitante:
Eu que lá vivo
de noite…”
(In) Antologia
Poética, Natália Correia, D.Quixote, 2013
quinta-feira, 28 de julho de 2016
D.Pedro IV- São Miguel, 10 de junho de 1832
“Minha querida Maria. Recebi a tua cartinha de
10 de maio escrita um pouco mal para a tua idade e adiantamento. Parece-me que
tu não tens cuidado muito de estudares, e enquanto Mamam não me mandar dizer
que tu te aplicas como no meu tempo eu não deixarei de te mostrar sempre que
tenha ocasião o meu desprazer: quando tu, minha filha, chegares a uma idade
mais avançada, tu não deixarás de conhecer que eu tinha razão de te desejar ver
instruída, o efeito de não ter recebido uma educação conveniente eu tenho
sentido, tudo que tenho feito tem sido porque Deus me tem favorecido, eu não quero
que tu me julgues para o futuro um pai descuidado de tua educação, antes quero
que me tenhas por severo.
O amor que te tenho, minha querida
filha, é que faz falar-te tão claro, eu espero que tu estudes d’ora em diante
como convém a quem tem que reger uma Nação que precisa de bons exemplos e de
uma rainha assaz instruída (…)”.
Carta de D. Pedro IV,
rei de Portugal e Imperador do Brasil, a D. Maria II
(In) D.Pedro IV, Paulo Rezzutti, Casa das
Letras, 2016.
segunda-feira, 25 de julho de 2016
"Doce Carícia"
Amory Clay, 1928
O romance Doce Carícia assume-se como uma
cativante autobiografia ficcional da autoria de William Boyd acerca da
inesquecível Amory Clay.
A obra centra-se na figura de Amory Clay, cujo
trajeto fora marcado, entre diversos aspetos, por momentos fulcrais do século
XX: “Amory Clay recomeçara a fotografar e
era paga para isso-, mas era estranho estar na América enquanto se travava uma
guerra Europa”. Nascida na década que antecedeu a Primeira Guerra Mundial,
a protagonista da obra em questão recebeu um nome andrógino por parte do seu pai
que ficara desapontado pelo sexo do bebé, anunciando-o como masculino. No
entanto, Amory não adotou uma atitude de submissão, tendo-se assumido como
mulher e rejeitado os limites que lhe impunham. Apaixonada pela fotografia,
dedicou-se ao registo da sua própria versão dos acontecimentos, além de que
circulou entre Londres e Nova Iorque na qualidade de fotojornalista e de
jornalista de moda: “Depressa percebi que
não era uma fotógrafa de moda; examinava uma vez e outra as minhas fotografias
para a American Mode e não via senão poses rígidas, falsas e inibidas-
mediocridade, em suma. As poucas fotos informais que consegui fazer com as
modelos, enquanto elas mudavam de roupa, quando iam buscar um café ou quando
ficávamos à conversa o fim da sessão, pareciam-me mil vezes mais vivas”.
A
audácia apresenta-se como uma constante da personalidade de Amory, não temendo arriscar
tudo. O seu desejo desenfreado de adquirir novas experiências levou-a a
conhecer a decadência do período histórico que vivenciou. William Boyd, o autor
de Doce Carícia nasceu no Gana, mais
propriamente, em Acra, tendo desempenhado em Oxford o cargo de professor de inglês
e literatura. Atualmente é membro da Sociedade Real da Literatura Inglesa,
passando grande parte do seu tempo em duas regiões distintas: Londres e França.
Neste
romance, o leitor depara-se com uma personagem que se reveste de uma vibrante,
dinâmica e forte personalidade.
Doce Carícia ,
William Boyd, D.Quixote, 2016
quinta-feira, 21 de julho de 2016
"À Beira da Água"
“Havia
escorpiões na gruta o ano inteiro, mas sobretudo nos dias antes de as plantas
começarem a deixar passar as gotas de água. A velha tinha uma trouxa enorme com
trapos e servia-se dela para os expulsar das paredes e do teto, pisando-os
rapidamente com o calcanhar duro e nu. De vez em quando, um passarozinho ou pequeno animal selvagem aparecia à boca da gruta, mas ela nunca era suficientemente rápida para o matar e já tinha desistido de tentar”.
Paul Bowles, o escritor
nova-iorquino de Queens, começou por viajar em 1929, tendo como destino a Europa,
onde conviveu com Gertrude Stein,
Jean Cocteau e Ezra Pound, entre outros. Em 1931, o viajante escolheu
Tânger como destino para passar grande parte da sua vida, sendo a sua produção
literária influenciada pela dinâmica das múltiplas culturas que conhecera.
A sua vida fora marcada
pela dedicação à composição musical, assim como, à escrita de ficção, poesia,
ensaios e reportagens. Destaca-se, entre a sua vasta obra literária, O Céu que Nos Protege que ocupou o
primeiro lugar da lista dos livros mais vendidos do The New York Times, além de que foi alvo de uma adaptação
cinematográfica por parte de Bernardo Bertolucci. Atualmente, a obra À Beira da Água apresenta-se como o
primeiro de dois volumes que reúnem os contos de Paul Bowles. À Beira da Água contém 29 contos, como por
exemplo O Escorpião que incide na
história de uma velha de escassos recursos e de fraca memória que vivia sozinha
numa gruta de argila frequentemente habitada por escorpiões. Igualmente interessante é o conto
intitulado Paragem em Corazón, onde
um casal em lua de mel se apresenta como protagonista. A ação desenrola-se com
base na intensificação da ansiedade do marido face ao desaparecimento da esposa
e na consequente tentativa de a encontrar. Neste cenário o leitor depara-se com o frenético batimento cardíaco do marido que está intimamente ligado
ao título Paragem em Corazón. Paul
Bowles socorre-se do amor, do suspense
e da intriga, construindo este cativante conto.
À Beira da Água, Paul Bowles, Quetzal
Editores, 2016.
segunda-feira, 18 de julho de 2016
George Orwell - "Ensaios Escolhidos"
George
Orwell, oriundo da Índia Britânica, mais propriamente, de Motihari, assumiu-se
como jornalista, ensaísta político e um como um dos mais emblemáticos escritores
ingleses do século XX.
Ao
defender o autonomismo, George Orwell fora considerado simpatizante do
anarquismo, opondo-se, de forma intensa, ao totalitarismo. A sua produção
literária é marcada pela oposição mencionada, além de que reflete profundas
injustiças sociais. Estes seus ideais transparecem na célebre obra intitulada 1984 que se apresenta como um romance
distópico, cujo foco incide na realidade e no terror de cariz político nos mais
diversos países. George Orwell, em 1984,
critica os fatores que na sociedade moderna poderiam conduzir a uma vida de
privação e embrutecimento. É de referir que o escritor, ao escrever 1984, não imaginava que a sua obra
adquirisse um caráter profético, apesar de se ter assistido à concretização de
certos cenários patentes na mesma – “The
Big Brother is Watching you”.
Na
obra Ensaios escolhidos estão
reunidos 37 ensaios que acompanharam o trajeto de George Orwell desde a
Birmânia até à sua vida em Londres e Paris. Veja-se, por exemplo, em Bons Maus Livros, a reflexão do autor acerca
de obras que não tendo grandes pretensões literárias eternizaram-se: “Um tipo de livro que raramente vemos ser
produzido hoje em dia, mas que floresceu abundantemente no final do século XIX,
é aquele que a Chesterton chamou o “bom mau livro”, ou seja, o tipo de livro
que não tem pretensões literárias, mas que permanece legível numa altura em que
produções mais sérias já desapareceram de cena. Dentro desta categoria, livros
claramente notáveis são Raffles e as histórias de Sherlock Holmes, que
mantiveram a sua posição enquanto inúmeros “romances sociais”, “documentos humanos”
e “terríveis denúncias” disto ou daquilo caíram num merecido esquecimento. (…)
Contudo, todos os livros de que tenho estado a falar são “literatura de
evasão”. Formam gratos nichos na nossa memória, sossegados recantos onde o
espírito pode pastar ocasionalmente, mas dificilmente pretendem ter algo que
ver com a vida real”.
Ensaios Escolhidos,
George Orwell, Relógio D’Água, 2016.
quinta-feira, 14 de julho de 2016
Literatura, Identidade, uma pequena reflexão sobre "Minima Azorica" de Onésimo Teotónio Almeida
A
temática de Minima Azorica O meu mundo é deste reino, livro de
ensaios da autoria de Onésimo Teotónio Almeida, incide na afirmação de uma identidade
específica: a açoriana.
Na
obra supramencionada, Onésimo Almeida realça a quão problemática fora a
aceitação da reflexão em torno da tese da identidade, pelo que foram
necessários longos períodos de tempo para que se verificasse o estabelecimento
da mesma. A este propósito é fulcral fazer referência ao ensaio intitulado Minima Azorica, ou a fala de açorianos no
meio do mar patente no terceiro volume da obra BorderCrossings Leituras Transatlânticas, da autoria do ensaísta
Vamberto Freitas que afirma: “[…] Levou
muitos séculos para nomearmos o que nos aconteceu e nos moldou como povo- a
açorianidade […]”.
Não
obstante viver no continente americano, Onésimo Almeida revela-se incapaz de
esquecer a sua origem açoriana, razão pela qual alega: “[…] Jamais escondi que os Açores me foram e são, ainda e sempre, um
lugar íntimo. […] Os primeiros vinte e dois anos de vida imprimem um caráter a
qualquer um […]”. Uma das diversas ideias a destacar da sua obra assenta,
sem dúvida, no desinteresse do público continental face à cultura açoriana e,
consequentemente, na irracionalidade da insistência em obter tal interesse. É, precisamente, neste contexto que o Onésimo
Almeida afirma: “[…] Esforço vão, como
tantos outros no país. A partir de certa altura, achei mais sábio desistir. Não
vale a pena tentar captar o olhar e os ouvidos de quem vive há séculos obcecado
com a atenção dos estrangeiros […]”. Significa isto que de, acordo com o
autor, o importante é focarmo-nos na afirmação da nossa cultura em detrimento
da preocupação com a indiferença nacional. Esta indiferença perante a cultura
açoriana é reiterada por Vamberto Freitas: “[…]
Não tem sido nada fácil a nossa afirmação histórica e cultural como parte
fundamental e indesligável da restante nação”.
Segundo
Onésimo Almeida, a reforçar a existência da açorianidade surge a elevada
publicação literária açoriana, de qualidade, que tende a superar a nacional. É
neste âmbito que, de entre uma multiplicidade de autores, se alude a alguns açorianos,
tais como, Pedro da Silveira, Natália Correia, Vitorino Nemésio, Dias de Melo,
Daniel Sá, Fernando Aires, Antero de Quental, Emanuel Félix, José Enes,
Madalena Férin, Rogério Silva e José Martins Garcia, os quais em muito
contribuíram para a dinamização da história cultural literária. A açorianidade
transparece na forte influência que a geografia e os elementos físicos que a
compõem exercem sob a escrita dos autores mencionados. Quer isto dizer que, de
acordo com autor, o isolamento, as tempestades, os vulcões, as chuvas
prolongadas e os cataclismos açorianos produzem um ambiente específico que
molda a cultura e, por conseguinte, a escrita que, assim, apresenta traços
peculiares. São destes elementos climatéricos que decorre a predominância da
melancolia e da fatalidade na produção literária açoriana.
A
necessidade de afirmação da identidade açoriana é fruto do confronto com a realidade
cultural exterior, representada pelo continente português, do qual resulta a
consciencialização açoriana das diferenças existentes nessa mesma realidade e a
consequente necessidade de afirmação de uma identidade distinta. Deste modo,
faz todo o sentido o subtítulo da obra Minina
Azorica: O meu mundo é deste reino.
Sara Simão
Helena Frias
Ponta Delgada 14 de julho, 2016
terça-feira, 12 de julho de 2016
A enigmática personalidade italiana de Elena Ferrant
Elena
Ferrante assume-se como uma das figuras mais enigmáticas no campo literário da
atualidade.
Provavelmente,
Ferrante terá nascido em 1943, em Itália, num pobre e popular bairro de
Nápoles, tendo vivido na Grécia. O mistério que se lhe associa advém do
desconhecimento do seu género, constituindo o seu nome um possível pseudónimo. Publicou,
pela primeira vez, em 1991, o romance intitulado Um Estranho Amor. A reforçar o seu anonimato surge a inexistência
de um contacto direto com jornalistas nas entrevistas, escassas, escritas e intermediadas
pelos próprios editores, em que aceitou participar. Ferrante sempre evitou
comparecer à entrega de prémios ou à estreia de adaptações cinematográficas das
suas obras. A honestidade apresenta-se como uma constante da sua escrita, ideia
que é ilustrada pela seguinte frase proferida por Ferrante numa entrevista publicada
pela revista literária The Paris Review:“A
ficção literária parece-me feita de propósito para dizer a verdade”.
Editada
em Portugal pela Relógio D’Água, a tetralogia de Elena Ferrante compõe-se de Amiga Genial, de História do Novo Nome, História de Quem Vai e de Quem Fica e História da Menina Perdida. A sua carreira
adquiriu um enorme prestígio com a publicação das suas obras em diversos países
e, consequentemente, com a obtenção de excelentes críticas nos Estados Unidos
da América. James Wood em 2013 na revista The
New Yorker, elaborou um extenso artigo a elogiar a capacidade criativa
literária afirmando: ”Elena Ferrante” is one of Italy’s best-known least-known
contemporary writers. She is the author of several remarkable,
lucid, austerely honest novels […]”. De igual modo, o
jornal inglês The Guardian efetuou
rasgados elogios acerca de Ferrante. Não obstante serem reinventadas, as
histórias são inspiradas em acontecimentos reais, facto que se encontra patente
numa entrevista que Ferrante aceitou para o New
York Times: “As mulheres das minhas
histórias são ecos de mulheres reais que, por causa do seu sofrimento ou da sua
combatividade, influenciaram muito a minha imaginação: a minha mãe, uma amiga
de infância, mulheres conhecidas cujas histórias eu sabia”. A este propósito
surge em Amiga Genial, a personagem
Raffaela Cerullo, mais conhecida por Lila, que desempenha, entre diversos
papéis, o de amiga de infância de Elena e de mãe de Rino. A escrita de
Ferrante, geralmente, incide nas angústias de um passado das quais as figuras
femininas se revelam incapazes de se libertar. A narrativa do primeiro volume
da tetralogia foca a angústia de Lila, mais propriamente, o seu desejo de
desaparecer sem deixar rasto: “[…] Há
pelo menos trinta anos que me diz que quer desaparecer sem deixar rasto, e só
eu sei bem o que ela quer dizer. […] A sua intenção foi sempre outra: queria
volatilizar-se; queria que todas as células desaparecessem; que dela não fosse
possível encontrar nada […]”. O estado de alma de Lila acaba por ser
transposto para o seu filho Rino e amiga Elena aquando do seu desaparecimento
sem rasto: “Rino ligou-me esta manhã […]
Mas o motivo do telefonema era outro: não sabia da mãe. […] Mas acabara por
ficar preocupado. Perguntara a toda a gente, dera uma volta pelos hospitais,
até tinha ido à polícia. […] Disse-me coisas sem pés nem cabeça. Queria ir à
televisão, ao programa onde se fala das pessoas desaparecidas, fazer um apelo,
pedir perdão à mãe, suplicar-lhe que volte”.
A identidade de Elena Ferrante restringe-se à personagem literária, constituindo-se, por isso, na vida real como um enigma. Socorre-se da absoluta liberdade de criação artística, fruto do forte respeito pela sua vida privada, de modo a reinventar acontecimentos reais por via da escrita.
A identidade de Elena Ferrante restringe-se à personagem literária, constituindo-se, por isso, na vida real como um enigma. Socorre-se da absoluta liberdade de criação artística, fruto do forte respeito pela sua vida privada, de modo a reinventar acontecimentos reais por via da escrita.
Todos os Contos
"Aí está ele, o mar, a mais ininteligível das existências não humanas. E aqui está a mulher, de pé na praia, o mais ininteligível dos seres vivos. Como ser humano fez um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornou-se o mais ininteligível dos seres vivos. Ela e o mar. Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos inconvencíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões. Ela olha o mar, é o que pode fazer. Ele só lhe é delimitado pela linha do horizonte, isto é pela sua incapacidade humana de ver a curvatura da terra".
(In) Todos os Contos, Clarice Lispector, Relógio D'Água, 2016.
quinta-feira, 7 de julho de 2016
Obras de José Martins Garcia
Amanhã, na LeYa na Solmar
pelas 18.30h, apresentação pública da reedição de três grandes obras de José Martins Garcia. A
colecção, integrada na Biblioteca Açoriana da Companhia das Ilhas, é dirigida
pelos escritores Urbano Bettencourt e Carlos Alberto Machado.
(…)
Este autor tem caminhado sempre por caminhos próprios, sem atenção às últimas
modas ou preocupaçõezinhas existenciais. Não é yuppie nem está fora de horas –
vai, exactamente por isso, perdurar. Noutro livro seu, pressentimos que algo de
maior está para vir. Talvez a preocupação, a obsessão, com o Grande e
Definitivo romance diz só respeito aos críticos. Talvez. Mas poucos em
Portugal, nestes nossos dias, têm dado provas dessa possibilidade, como este
autor.
[Vamberto
Freitas, “Memória da Terra ou o Perpétuo Cativeiro”, in "O Imaginário dos
Escritores Açorianos", Lisboa, Edições Salamandra, 1992: 41]
quarta-feira, 22 de junho de 2016
Uma Ode aos Açores
«Toda a vida escrevi sobre a Mulher de Porto Pim, livro de cabeceira e artefacto literário que contemplo como se fosse um Moby Dick em miniatura. As suas (…) páginas são um bom exemplo de «livro de fronteira», um mecanismo feito de contos breves, fragmentos de memórias, diários de viagens metafísicas, notas pessoais, biografia e suicídio de Antero de Quental, fragmentos de uma história ouvida na coberta de um navio, mapas, bibliografia, bizarros textos jurídicos, canções de amor: elementos que à primeira vista não têm nada a ver entre si, sobretudo com a literatura, mas que Antonio Tabucchi transformou em ficção pura. Um livro memorável.»
Enrique Vila-Matas
Mulher de Porto Pim, Antonio Tabucchi, Editora D.Quixote, 2016.
quinta-feira, 9 de junho de 2016
Uma viagem literária pelo magnífico arquipélago dos Açores
O segredo das Ilhas, narrativa de viagem
João de Melo
Editora D.Quixote, 2016
Já disponível!
"A melancolia é uma arte. Vede quanta beleza existe no próprio e simples dizer das cinco sílabas desta palavra: me-lan-co-li-a. Agridoce, tão próxima do silêncio interior como das mágoas do olhar, nos Açores esta palavra é comum a todas as ilhas. E a todas as pessoas. Mas em nenhuma delas como em São Miguel ela resulta tanto desta forma de contemplar o encanto da paisagem; de a ver de cima (quando se sai da Ribeira Grande para o alto da serra, a caminho da Lagoa do Fogo): a gente pára ali, a meio da encosta, volta-se para trás, e pasma. Deslumbra-se com o que tem a frente dos olhos."
João de Melo
quarta-feira, 8 de junho de 2016
A VIDA NO CAMPO - JOEL NETO LANÇAMENTO EM PONTA DELGADA DIA 29 DE JUNHO, PELAS 19H
"De resto, celebramos um Inverno de sol, como foi este, mas depois parece que alguma coisa ficou por concretizar. Os Açores são mais Açores num dia de temporal. E, depois, o sol extemporâneo tem sobre nós um efeito - o mesmo efeito que sentem esses que trabalham de noite e dormem de dia, e que a certa altura perdem mão na passagem do tempo."
Joel Neto
domingo, 8 de maio de 2016
Mia Couto na LeYa na Solmar - 9 de Maio
"Na verdade, o que de mais precioso trouxe comigo foram dois livros de poesia que releio vezes sem fim. Um de Antero de Quental. Outro de Guerra Junqueiro."
domingo, 17 de abril de 2016
Sonetos Completos de Antero de Quental, uma Edição Artes & Letras
Não há na nossa literatura, nem mesmo Camões, poeta tão naturalmente universal como Antero de Quental, dada a natureza ideal e intemporal da sua inspiração e o conflito que a alimenta, pura interpretação do espírito sobre si mesmo no meio de um mundo incompreensível. Nenhum objecto empírico, natural ou histórico, é, ao menos nos Sonetos, matéria determinante da sua poesia. Os Açores como qualquer outro. É como se estivesse só no universo, ilha pura, nem sequer arquipélago.
Eduardo Lourenço, Antero e o imaginário nemesiano.
segunda-feira, 21 de março de 2016
25 anos de Palavras
À
Livraria.
arrumar o que dos séculos
é o rebentar mais fecundo
destinar aonde pulsa
o suor de outra mão
deixar num canto o corpo
para caber o que se abriga
enquanto não regressa
a braços fora desse pó
outro suor é às escuras
e outro vagueia nas rasuras
em claridade se vão cavando
todas as sortes que rodopiam
só se refugiam as suas portas
quando os hóspedes adormecem
pois carregam a nossa insónia
enquanto o vento embala os frutos
Inédito de Leonardo, 21 Março de 2016
domingo, 20 de março de 2016
25 Anos de Palavras
Fotografia de Walter Tapia
Tudo isto num gesto infinitamente
renovado, que nunca cansativo, pois a vida faz-se destes pequenos gestos,
expressão do afecto e do culto da palavra.”
domingo, 13 de março de 2016
Vamberto Feitas - Céu Nublado com Boas Abertas
Fotografia de Fernando Resendes
Meteorologia açoriana e o
continente como desterro
É a minha vez de
me expor, de contar histórias, de as cruzar comigo, o meu modo de ser, as
minhas contradições e alterações de humor. De escrever um livro que um neto um
dia encontrará e com o qual poderá tentar dialogar.
Nuno Costa Santos, Céu Nublado com Boas Abertas
Vamberto Freitas
De todos os livros que Nuno Costa Santos vem publicando
ao longo da sua carreira, os contos de dez regressos, publicado em 2003
pela extinta Salamandra Edições, então sob a direcção do seu fundador Bruno da
Ponte, permanece o seu livro mais
conhecido e, na altura, mais comentado por um apreciável rol de críticos.
Retiro-o da nossa estante aqui em casa em preparação para as linhas que se
seguem, e deparo-me com algumas das suas páginas sublinhadas a lápis e
comentado nas margens. Foi a leitura da
Adelaide Freitas, autora do Sorriso Por Dentro Da Noite, que seria
publicado um ano depois. Releio alguns passos, duplamente fascinado – pela
prosa contundente e ágil de um escritor então ainda tão jovem, e nada menos
surpreso pelas palavras da minha grande companheira de vida. De entre os montes
de livros nas nossas duas secretárias, ela não deixava nunca passar em branco nenhum
livro de um autor açoriano, quer esse autor se visse como tal, quer ele se
entendesse como tal, quer ele se entendesse como sendo pertencente a geografias muito mais vastas e a cânones
supostamente muito mais conhecidos e prestigiados, ou até como um candidato
“nacional” ao Nobel. “Viagem em livro de aprendizagem”, “memória”, “e a memória
sempre”, escreve ela progredindo na leitura; “note-se a subtileza a todos os
níveis”, aponta outro o passo em questão. “Não era igual aos outros”, escreve
numa das margens sobre um personagem ou protagonista, ou simplesmente reforça
as suas palavras narrativas. Por fim, e entre outros comentários seus, viro
para a última página, e encontro enfaticamente sublinhadas as derradeiras
palavras do livro: “Só sinto pena de estarmos a consumir a nossa intimidade numa cidade
que desconhece os nossos nomes e o silêncio da nossa baía”. A minha regra de
nunca ler mais ninguém sobre um livro que eu próprio tenciono comentar foi-se
desta vez, e ainda bem. Uma geração de escritores a ler a seguinte, com bondade
e inevitavelmente com mente teorizadora, pois foi a nossa a primeira geração
nos Açores com formação literária superior. Ouço, nesta tarde tranquila aqui no
Pópulo, as vozes serenas de um autor que regressa em força à nossa
convivência, e ouço com saudades a voz acutilante desta sua outra leitora,
talvez um dos últimas livros que teve entre mãos antes de ser silenciada pela
doença. Não vou tentar adivinhar o que a Adelaide diria agora deste novo
romance de Nuno Costa Santos, Céu Nublado com Boas Abertas, mas tenho a
certeza absoluta que não discordaria, pelo menos em parte, da minha apreciação.
A palavra regresso é uma das umas constantes da prosa de Nuno Costa
Santos, tal como já o eram em obras suas anteriores. A verdade é que o autor
pertence a uma geração que nasceu e cresceu com a “revolução” da sociedade
portuguesa a partir de 1974, e cedo começou a dar conta de si como novas vozes
literárias, alguns deles atingindo hoje o estatuto ambíguo da maturidade,
sabendo que o seu lugar nas nossas estantes ou se consolida agora, ou então
passam eles a ser meras curiosidades de uma época,
escritores de ocasião e por quinze minutos famosos. Creio que este romance é
algo mais do que isso, do que um inevitável regresso à terra de nascença e de
todos os afectos. É um retrato extremamente bem conseguido da vida açoriana nos
tempos da maior agonia da nossa modernidade, e da insistente memória de que
todos necessitamos contra a perdição no Nada, que as partidas também
significam. O regresso a casa, na vida e na arte, não é um capricho, é o mais
antigo mandamento desde a literatura dos gregos, é o princípio e o fim da
poesia, a memória de termos sido como testemunho de quem somos ou de como nos
entendemos entre todos os outros.
Céu Nublado com Boas Abertas coloca-nos no tempo presente quando, num apartamento
lisboeta, cheio de memórias e que fora dos seus avós maternos, o
protagonista-narrador descobre um romance inédito, Exílio na Montanha,
do seu avô açoriano, João Pereira da Costa, (nascido nos Fenais da Luz, em S.
Miguel), que foi como doente de tuberculose, contraída como militar nas Furnas,
para os sanatórios do Caramulo nas décadas 30-40, e alguns anos depois como
administrador bancário, transferido dos serviços da ilha para a capital.
Narrado na primeira pessoa, a estrutura do romance é de uma audácia formal
pouco habitual na literatura portuguesa, combinando biografia, autobiografia,
historicismo, e um inusitado dialogismo bakhtiniano (o carnavalesco, diria o
teórico russo, faz parte da tragédia de estarmos vivos) entre a obra presente e
a que inesperadamente a desperta
após a sua descoberta nas estantes agora só visitadas por um neto, esse que as
lê e leva a cabo um outro pedido escondido do avô – quem encontrasse o seu
romance fosse à ilha recolher outras histórias, como que numa actualização do
que ficara dito por um escritor da geração desaparecida. Eis aqui a síntese
possível de um romance que viaja entre os anos dessa geração, e a dos nossos
dias, a sociedade açoriana lembrada numa época já então de um isolamento
relativo e os dias presentes de um narrador-escritor regressado, uma vez mais,
às origens e enfrentando a ambiguidade da sua própria identidade e razão de
vida, apanhado logo de início numa teia policial que lhe vai permitir dissecar
outras misérias que assolam a vida moderna nas ilhas desce aos seus subterrâneos
enquanto todos em volta fingem normalidade. A ilha, agora, é tão-só a metonímia
das grandes sociedades em qualquer parte, só que o narrador não dispensa mais
os cantos onde nasceu e aprendeu a amar ou a espreitar o resto mundo. Não vou
repetir a temática do regresso (as frases soltas da Adelaide citadas
anteriormente claramente dizem algo sobre isto) que faz da nossa escrita um corpus
literário de grande autenticidade, quase sem igual no mundo da
lusofonia, e aqui está um dos nossos mais eloquentes e bem conseguidos, creio
que duradouros, exemplos em Céu Nublado com Boas Abertas,
a própria meteorologia
açoriana uma personagem dominante na nossa maneira de ver obcecadamente
adivinhar o mundo e os seus instáveis humores. A ideia de crime como
ponto de partida para as mais recentes grandes narrativas referenciadas no
arquipélago parece ser uma constante. Na obra presente leio as andanças de
pequenos fora-da-lei repatriados e nativos ligados ao mundo da droga e da
prostituição numa ilha atlântica como um contraponto
bem mais ameno ao crime oficializado que era o da sociedade em geral na
narrativa de Exílio na Montanha, a arbitrariedade entre a vida e a morte
de todos um absoluto do seu quotidiano. Para além do sofrimento em o Céu
Nublado com Boas Abertas, está o amor dessas mesmas gerações idas, tendo
como antonímia o vazio existencialista da actualidade, um mundo de tudo e uma
vida de nada. É delicioso passear-nos com o narrador deste romance por pequenas
zonas e bairros micaelenses, reviver com ele o sentido das coisas quando a doce
solidão e inocência pré-adulta são a memória a que mais nos agarramos. Céu
Nublado com Boas Abertas é tudo, no entanto, menos um romance “inocente”, é
de uma beleza extraordinária na dissecação e sugestão dos dias que se foram e
dos dias que são os nossos.
Céu Nublado com Boas Abertas dirige ainda as suas vozes polifónicas a outros diálogos
com a cultura popular (música e cinema) e erudita do mundo, não me
surpreendendo nada saber que na estante que provoca toda esta outra narrativa
está a Montanha Mágica, de Thomas Mann, que havia colocado o seu Hans
Castorp noutro sanatório europeu, também nas vésperas de uma grande guerra no
continente, e enquanto o seu vulnerável personagem tenta perceber o seu tempo e
a sua vida em circunstâncias colectivas semelhantes. Nuno Costa Santos presta
aqui uma outra homenagem a determinados escritores açorianos, mencionando
títulos de obras ou citando-os directamente nestas suas páginas. A consciência
de “arquipélago” – ironicamente não assim tão comum entre nós como se pensará –
está também demarcada não tanto pela presença destes seus autores como pela
origem de certas personagens do romance. Uma geração faz a cortesia a
outra, a nossa tradição literária perpetuada, renovada, contextualizada nos
vários tempos das nossas vidas, mesmo enquanto corta com ela numa espécie de
contra-narrativa. Na originalidade e eficácia destas páginas, ao comover e a
levar o leitor a repensar a sua própria história e a dos seus, a dos Açores e
do restante país, nunca esquecendo outras e bem mais distantes geografias das
nossas ligações ao mundo, recorda-nos como poucos de como a literatura açoriana
se tornou uma das vivas componentes da literatura açoriana se tornou uma das
vivas componentes da literatura portuguesa no seu todo. Se as antologias
canónicas ainda não deram por isso, poderiam começar por este romance. Que é
mais um publicado num grande editora nacional, também deveria significar
qualquer coisa, nunca lhe retirando especificidade dos seus referentes e
contextualização geral. Não vale a pena insinuar aqui comparações, ou dar mais
espaço a outros. Basta dizer
que nos últimos tempos o acto literário originário ou, directa ou
indirectamente, virados para as ilhas, é nada menos do que brilhante – para
quem quiser e souber apreciá-lo, em todas as suas implicações.
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Nuno
Costa Santos, Céu Nublado com Boas Abertas, Lisboa, Quetzal, 2016.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2016
Histórias das relações Portugal - EUA
As relações entre Portugal e os Estados Unidos foram moldadas ao longo do tempo por três circunstâncias condicionantes essenciais: a evolução da distribuição de poder no sistema internacional; os grandes acontecimentos mundiais; a dinâmica geral da ligação entre a Europa e a América.
Quanto às duas primeiras, não há dúvidas de que a ascensão dos EUA a grande potência mundial no início do século XX teve um muito importante impacto no relacionamento luso-americano, o mesmo sucedendo com acontecimentos como as grandes revoluções - com destaque para a América e a Francesa - e as guerras totais.
Mas o principal objectivo deste livro é analisar a terceira circunstância , isto é, procurar perceber em que medida o diálogo entre Lisboa e Washington convergiu, ou divergiu, do quadro mais vasto da conexão entre a Europa e a América.
Histórias das Relações Portugal - EUA ( 1776 - 2015), Tiago Moreira de Sá, D.Quixote, 2016.


















