quarta-feira, 22 de julho de 2015

Ela move-se




«POEMAS VESTIDOS – A poesia veste-se, despe-se, usa-se, oferece-se, respira-se. A poesia pode não mudar o mundo, mas é um sinal de esperança. O Daniel Gonçalves, poeta maior, escreveu “ Poemas vestidos” porque, como me escreveu numa dedicatória, “ o momento certo para a poesia é como o do abraço”, depois do nosso encontro improvável, uma arte em que os açorianos e a aves migratórias se tornaram especialistas. O Daniel é o poeta do amor indizível, da saudade imaculada, da distância que magoa. O amor, tal como a terra, move-se numa órbita invisível. As coisas, os lugares, as mãos, vestem-se duma doçura que sabe a redenção ou a perdição. Quando os garajaus rondarem as marés, nas longas noites de Verão, é tempo de desafiar os versos do Daniel, lentamente, como quem abre um portulano e sabe que esperar não é perder.»

  Pedro Gomes (in) Açoriano Oriental, 22 de julho, 2015



                Daniel da Silva Gonçalves é professor e poeta. O escritor foi galardoado com vários prémios entre os quais o 1º prémio do Concurso Internacional de Poesia do Centro Internazionale Amici Scuola (CIAS) promovido pela UNESCO em 1993 na Itália; em 2007, foi galardoado com o prémio Labjovem Açores, obra selecionada para o Plano Regional de Leitura dos Açores e o Prémio de Manuel Alegre em 2010.




terça-feira, 21 de julho de 2015

Os livros são comparáveis a seres vivos





“Os livros são comparáveis a seres vivos, a pessoas amadas,
permanecendo ligados às circunstâncias do encontro
e às emoções que suscitam.”
Marcel Proust


 
A invenção do livro está intimamente ligada á escrita e á leitura. Aquilo que está impresso tem uma dimensão cultural inultrapassável, dirigindo-se a um leitor, possuindo como finalidades: o conhecimento, a reflexão, o ensino, a evasão, a difusão do pensamento e a preservação da memória coletiva. O livro é um dos grandes meios da história da comunicação. Desde o séc XV, com a prensa de Johannes Gutenberg, até aos nossos dias, assiste-se a uma expansão a nível mundial, num aumento de quantidade de obras publicadas, numa maior distribuição, de tal modo que este passa a estar presente no nosso quotidiano.

Em finais do séc. XX, na década de 90, a internet alcança a população em geral, através do World Wilde Web, tendo como seu mentor Tim Bernners. Lee. Surgem grandes mudanças, que na forma como a informação é transmitida, que na alteração em quase todas as áreas do nosso modo de vida. É aqui que nasce o e-book, ou seja, o livro em suporte eletrónico, a par de um admirável mundo novo- a Era do Digital. Ganhando cada vez mais força na sociedade contemporânea, esta é a revolução digital do próprio livro. A questão que se coloca é se o livro tradicional, e a sua existência enquanto tal, estarão ameaçados pelo e-book? Para isso, temos de perceber quais as valências de um e de outro. No caso do livro digital, este será sempre uma cópia do seu antecessor, tem grafia e páginas semelhantes às do livro impresso, mas numa sociedade de imagens, eis que o computador nos fixa na obrigatoriedade de ler. No digital o acesso é mais rápido, a sua capacidade de armazenamento é maior, ocupando muito pouco espaço, por exemplo: como consultar os 35 volumes e 71.818 artigos, da Encyclopédie de Denis Diderot? A resposta é: online. Umberto Eco, distingue dois tipos de livros, aqueles de consulta e aqueles de ler. Reconhecemos, então, que há outras possibilidades de relação com o livro, combinando acessibilidades múltiplas e que os modos de leitura têm-se alterado ao longo da história.

Hoje, tudo é digital, tudo é móvel, a procura de e-books aumentou exponencialmente, principalmente nos EUA e Inglaterra, alastrando-se para o resto do mundo, bem como, o aumento e oferta de novos aparelhos, tais como: portáteis, smartphones e tablets. O avanço tecnológico é vertiginoso, o que foi ontem, já não o é hoje. As questões ambientais que se aponta ao livro tradicional, como o gasto de papel e tinta, são tão pertinentes como a gestão de resíduos dos equipamentos, e do consumo energético de que estes necessitam para funcionar. Significa que, para o leitor, será sempre necessário energia elétrica para manter esses aparelhos operacionais. Ao adquirir novos equipamentos obriga-nos a toda uma mudança arquitetónica mental, até à habituação do sofisticado grito tecnológico. A nossa capacidade de leitura no ecrã, é bem mais reduzida, devido às nossas limitações físicas. Num estudo levado a cabo pela Universidade da Harvard, provou-se que o e-book interfere no sono, principalmente naqueles que leem na cama, a luz emitida pelos dispositivos incomoda e não ajuda. Neste mundo da Internet os focos de distração são muitos, com um clique podemos aceder a links, a ler uma notícia de última hora ou até mesmo a ver a página do facebook. No livro impresso isso já não acontece, ele é encerrado em si mesmo e é fiel a si próprio. Umberto Eco e Jean- Calude Carrière, na obra Obsessão de Fogo dizem-nos o seguinte «O livro é como uma colher (…). Uma vez inventados, não se pode fazer melhor. Não se pode fazer uma colher que seja melhor que uma colher.»

O livro tradicional tem uma dimensão sensorial, emocional e afetiva únicas. Podemos estabelecer uma relação física através do toque das capas, da textura do papel, do cheiro, da tinta, numa experiência singular e individual. São potencialmente eternos desde que bem conservados, são resistentes ao choque, embora possam cair e danificar-se, não impossibilita a leitura. Ir a uma biblioteca, autênticos templos do livro, onde o acesso é gratuito na consulta, sendo permitido o empréstimo, ou ir a uma livraria, agarrar, ler alguns parágrafos antes de comprar, é sem dúvida o reflexo das múltiplas possibilidades que o livro oferece.

Roger Chartier, numa entrevista intitulada Da história da Cultura Impressa à História cultural do Impresso sugere que o livro impresso deveria copiar as mais-valias da técnica eletrónica, permitindo ao leitor escrever nas margens, como dentro do próprio texto, para que este torne mais maleável. Aqui levanta-se o problema dos direitos de autor, e neste caso estaríamos a ser coautores.

Os livros representam um negócio importante e sempre o foram desde a Idade Média. Contudo, depara-se na atualidade com dois graves problemas. O primeiro está relacionado com o fator económico, o elevado custo de produção do livro físico, tendo em conta a impressão, a distribuição e o seu comércio, em comparação com o e-book, que apresenta resultados de rentabilidade mais elevados para os editores, ao eliminarem os intermediários através da venda direta online. O segundo problema, é a importante defesa dos direitos de autor, pois não estão criadas condições nas plataformas digitais de proteção contra a cópia indevida.

Podemos afirmar que o livro é um resistente, pois sobrevive desde o séc. XV, até aos dias de hoje, bem ao contrário, a internet ainda é jovem. Neste espaço, e neste tempo, anunciou-se a morte do livro, mas a realidade tem vindo a mostrar o contrário. Segundo o Financial Times, contrariando todas a expetativas, as vendas do livros em papel sofreram um aumento em 2014, no mercado livreiro dos EUA, Reino Unido e Austrália, enquanto as publicações em dispositivos eletrónicos diminuíram. Este novo paradigma tem tendência a manter-se, segundo os especialistas, o incremento da compra do livro impresso tem sido fortemente influenciado por um público mais jovem – muito curioso é que os jovens leitores acreditam que a informação verdadeira está fora da Internet. A venda de títulos como A Culpa É das Estrelas, de John Green ou a saga Crepúsculo de Stephenie Meyer, está no topo das preferências dos jovens adolescentes entre os 13 e 17 anos.

Concluindo, podemos afirmar que o perigo efetivo para o livro, quer em suporte digital, quer em papel, será sempre a falta de hábitos de leitura.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Simplesmente Onésimo



            (…)
             
“ Na passada sexta-feira, com Onésimo em São Miguel, em mais um regresso de quem está sempre presente, foi tempo de um encontro de Amigos, na Livraria Solmar, com José Carlos Frias sempre atento e dedicado anfitrião, para uma informal apresentação do Onésimo, Único e Multímodo e do Identidade, Valores, Modernidade. Vamberto Freitas, referência obrigatória quando se fala de recensão e crítica literária nos Açores, fez a apresentação dos livros, cabendo a Osvaldo Cabral, jornalista, antigo Diretor da RTP/ Açores e atual Diretor Executivo do jornal Diário dos Açores, falou sobre Onésimo e o Pico da Pedra, as influências culturais que o ambiente de infância e juventude podem ter na personalidade e no caminho do sucesso e do saber. Foi um pouco de “lavar a alma” de recordações e de sentimentos, porque disto mesmo se faz o viver e o pulsar da terra em cada um de nós.” (…)
            “ Só posso dizer muito obrigado por tudo quanto me deram e continuarão a dar e que apenas se apaga neste sincero abraço de parabéns! “

Santos Narciso,
 Leituras do Atlântico, 20 de julho,2015 (in) Atlântico Expresso
 

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Inês Dias - " O Deserto do Papel ", de Inês Pereira Botelho : Way to Blue



WAY TO BLUE
- Apresentação de O Deserto do Papel, de Inês Pereira Botelho
 (Ponta Delgada, Junho de 2015)


Há pessoas que são como lugares, E, neste caso, famílias que são como lugares: regressar para junto delas traz-nos de volta a um lugar em que há sempre alguém contente por se cruzar connosco num aeroporto (como a Inês e a sua família); um lugar em que não se esquecem as músicas – leia-se, as pessoas – da nossa vida, por mais voltas que esta dê (e estou a falar da Renata Correia Botelho); em que a poesia ensina a unir as pontas do mar (e falo do Emanuel Jorge Botelho), em que o milagre da vida acontece diariamente, como no poema em forma de lapinha que a Lorena Correia Botelho criou para mim.
É precisamente esse o lugar a que os livros da Inês (nascida em 2004) nos trazem, tanto o primeiro – A Cinza Roxa (2011) – como este novo O Deserto do Papel. Os textos são concisos, gerados à volta de imagens que partem do mais ínfimo, de pormenores que, através do seu olhar quase fotográfico, se transformam em metáforas de algo muito maior. Já em A Cinza Roxa a Inês começava por escrever “ O meu mundo é o meu segredo e o meu tesouro” e de facto, os textos agora reunidos possuem uma profunda dimensão humana, atenta aos outros, seja no poema sobre “Aquelas crianças solitárias/com a sombra vazia “ (p.19), seja no terno poema intitulado “ Os hábitos do rapaz solitário” (p.13), ou ainda no texto sobre “ A Guerra” (p.33).

Mas não se pense que esta dimensão ética dos textos da Inês se reduza ao Homem. Pelo contrário, sabem integrar o Homem na Natureza, permitindo-nos assistir à passagem das estações ao longo das páginas ou às flores que nascem e “ganham asas” do poema “ Na Páscoa” (p.9), e fazendo-nos sobretudo acreditar que há mesmo um deus entre as ervas, que não nos deixa esquecer os mais pequenos e desprotegidos. A título de exemplo, não resisto a citar na íntegra o poema “Um gato invulgar”, dedicado a Daniela Gomes:

   “Sempre que passava pelo
    parque natural da rua
             da arte, encontrava um gato
             preto com pintas vermelhas
             a que chamava o gato do relvado.
             Nos dias em que o sono
             o enrolava na noite, as nuvens
             serviam-lhe de companhia e o céu
             de abrigo. Era o que tinha aquele
             gato com frio. Quem por lá passava
             não via o animal!
             Até sozinho passava"

Curiosamente, alguns dos textos do livro foram produzidos em contexto de aula. E tendo contado a minha vida durante muito tempo em anos escolares e não em anos civis, não posso deixar de me sentir verdadeiramente feliz com o facto de a escola funcionar, desta vez - e como deveria funcionar de todas as vezes -, enquanto sítio encorajador de produção e não de repetição, de consciência em vez de indiferença.
Uma outra dimensão muito presente neste livro é a da luz. Há uma constante procura dessa luz que torne a noite menos escura – ou, nas palavras da própria Inês, de “uma vela acesa sobre a escuridão” (p.34). Trata-se de uma luz capaz de redimir o mundo e de revelar uma alegria profundamente íntima mas partilhável em tudo, desde “ O mundo dos sonhos “ (p.11) ao poema “Inverno”, que inicia o livro e que cito:

   “ Por vez o inverno é bom
              o vento assobia baixinho
              e entre a névoa nasce um sol frio.”


No fundo, a maravilhosa capa que a Daniela Gomes fez sintetiza estas duas dimensões: aquele gato é um segredo adormecido sobre si próprio, aguardando, aconchegado e sereno, “ o dia seguinte” (p.13). Que os dias e as palavras da Inês sejam sempre assim, e nos continuem a iluminar.


Inês Dias
Livraria Solmar / Ponta Delgada, 25 de junho de 2015


            Inês Pereira Botelho nasceu a 16 de Março de 2004, em Ponta Delgada, ilha de São Miguel, Açores.
           Os poemas agora publicados foram escritos entre 2012 e 2015. Contando sempre com o total envolvimento da autora, sofreram alterações muito pontuais, que basearam-se sobretudo em pequenos ajustes na parte gramatical.
      Alguns dos textos em prosa, igualmente intervencionados de forma mínima, foram produzidos ao longo do 4º ano de escolaridade (2013/2014), em contexto de aula. Os dois textos finais datam já de 2015.




quarta-feira, 15 de julho de 2015

Encontro com Onésimo Teotónio de Almeida



Onésimo Teotónio de Almeida, escritor, investigador, pensador e filósofo, estará amanhã na Livraria LeYa Solmar pelas 19 horas, para a apresentação dos livros “ ONÉSIMO, ÚNICO E MULTIMODO” e “ IDENTIDADE, VALORES, MODERNIDADE” da autoria de João Maurício Brás, à conversa com Osvaldo Cabral e Vamberto Freitas.
“ONÉSIMO , ÚNICO, MULTÍMODO “, emergiu de um projeto em 2013, que tinha como intuito publicar numa revista um conjunto de textos de vários autores sobre Onésimo Almeida, celebrando, assim, cinquenta anos de vida literária. Todavia, esse projeto cresceu e tornou-se no livro atualmente publicado. Esta obra teve a colaboração de vários escritores, críticos, investigadores e académicos, entre os quais: José Blanco, George Monteiro, João de Melo, Victor Rui Dores, Álamo de Oliveira, Isabel Alarcão, Artur Goulart, Eugénio Lisboa, Teolinda Gersão, Vamberto Freitas e José Cândido de Oliveira Martins.
Ao longo da entrevista dada ao “Diário dos Açores” (15 de julho, 2015) Onésimo Teotónio de Almeida demonstra um carinho e ternura especial pela sua terra natal e acrescenta a evolução e expansão dos Açores ao longo dos anos, afirmando que “os Açores estão cada vez mais nas bocas do mundo.“
Contudo, é necessário preservar a identidade cultural que distingue os Açores do resto do mundo.