terça-feira, 21 de julho de 2015

Os livros são comparáveis a seres vivos





“Os livros são comparáveis a seres vivos, a pessoas amadas,
permanecendo ligados às circunstâncias do encontro
e às emoções que suscitam.”
Marcel Proust


 
A invenção do livro está intimamente ligada á escrita e á leitura. Aquilo que está impresso tem uma dimensão cultural inultrapassável, dirigindo-se a um leitor, possuindo como finalidades: o conhecimento, a reflexão, o ensino, a evasão, a difusão do pensamento e a preservação da memória coletiva. O livro é um dos grandes meios da história da comunicação. Desde o séc XV, com a prensa de Johannes Gutenberg, até aos nossos dias, assiste-se a uma expansão a nível mundial, num aumento de quantidade de obras publicadas, numa maior distribuição, de tal modo que este passa a estar presente no nosso quotidiano.

Em finais do séc. XX, na década de 90, a internet alcança a população em geral, através do World Wilde Web, tendo como seu mentor Tim Bernners. Lee. Surgem grandes mudanças, que na forma como a informação é transmitida, que na alteração em quase todas as áreas do nosso modo de vida. É aqui que nasce o e-book, ou seja, o livro em suporte eletrónico, a par de um admirável mundo novo- a Era do Digital. Ganhando cada vez mais força na sociedade contemporânea, esta é a revolução digital do próprio livro. A questão que se coloca é se o livro tradicional, e a sua existência enquanto tal, estarão ameaçados pelo e-book? Para isso, temos de perceber quais as valências de um e de outro. No caso do livro digital, este será sempre uma cópia do seu antecessor, tem grafia e páginas semelhantes às do livro impresso, mas numa sociedade de imagens, eis que o computador nos fixa na obrigatoriedade de ler. No digital o acesso é mais rápido, a sua capacidade de armazenamento é maior, ocupando muito pouco espaço, por exemplo: como consultar os 35 volumes e 71.818 artigos, da Encyclopédie de Denis Diderot? A resposta é: online. Umberto Eco, distingue dois tipos de livros, aqueles de consulta e aqueles de ler. Reconhecemos, então, que há outras possibilidades de relação com o livro, combinando acessibilidades múltiplas e que os modos de leitura têm-se alterado ao longo da história.

Hoje, tudo é digital, tudo é móvel, a procura de e-books aumentou exponencialmente, principalmente nos EUA e Inglaterra, alastrando-se para o resto do mundo, bem como, o aumento e oferta de novos aparelhos, tais como: portáteis, smartphones e tablets. O avanço tecnológico é vertiginoso, o que foi ontem, já não o é hoje. As questões ambientais que se aponta ao livro tradicional, como o gasto de papel e tinta, são tão pertinentes como a gestão de resíduos dos equipamentos, e do consumo energético de que estes necessitam para funcionar. Significa que, para o leitor, será sempre necessário energia elétrica para manter esses aparelhos operacionais. Ao adquirir novos equipamentos obriga-nos a toda uma mudança arquitetónica mental, até à habituação do sofisticado grito tecnológico. A nossa capacidade de leitura no ecrã, é bem mais reduzida, devido às nossas limitações físicas. Num estudo levado a cabo pela Universidade da Harvard, provou-se que o e-book interfere no sono, principalmente naqueles que leem na cama, a luz emitida pelos dispositivos incomoda e não ajuda. Neste mundo da Internet os focos de distração são muitos, com um clique podemos aceder a links, a ler uma notícia de última hora ou até mesmo a ver a página do facebook. No livro impresso isso já não acontece, ele é encerrado em si mesmo e é fiel a si próprio. Umberto Eco e Jean- Calude Carrière, na obra Obsessão de Fogo dizem-nos o seguinte «O livro é como uma colher (…). Uma vez inventados, não se pode fazer melhor. Não se pode fazer uma colher que seja melhor que uma colher.»

O livro tradicional tem uma dimensão sensorial, emocional e afetiva únicas. Podemos estabelecer uma relação física através do toque das capas, da textura do papel, do cheiro, da tinta, numa experiência singular e individual. São potencialmente eternos desde que bem conservados, são resistentes ao choque, embora possam cair e danificar-se, não impossibilita a leitura. Ir a uma biblioteca, autênticos templos do livro, onde o acesso é gratuito na consulta, sendo permitido o empréstimo, ou ir a uma livraria, agarrar, ler alguns parágrafos antes de comprar, é sem dúvida o reflexo das múltiplas possibilidades que o livro oferece.

Roger Chartier, numa entrevista intitulada Da história da Cultura Impressa à História cultural do Impresso sugere que o livro impresso deveria copiar as mais-valias da técnica eletrónica, permitindo ao leitor escrever nas margens, como dentro do próprio texto, para que este torne mais maleável. Aqui levanta-se o problema dos direitos de autor, e neste caso estaríamos a ser coautores.

Os livros representam um negócio importante e sempre o foram desde a Idade Média. Contudo, depara-se na atualidade com dois graves problemas. O primeiro está relacionado com o fator económico, o elevado custo de produção do livro físico, tendo em conta a impressão, a distribuição e o seu comércio, em comparação com o e-book, que apresenta resultados de rentabilidade mais elevados para os editores, ao eliminarem os intermediários através da venda direta online. O segundo problema, é a importante defesa dos direitos de autor, pois não estão criadas condições nas plataformas digitais de proteção contra a cópia indevida.

Podemos afirmar que o livro é um resistente, pois sobrevive desde o séc. XV, até aos dias de hoje, bem ao contrário, a internet ainda é jovem. Neste espaço, e neste tempo, anunciou-se a morte do livro, mas a realidade tem vindo a mostrar o contrário. Segundo o Financial Times, contrariando todas a expetativas, as vendas do livros em papel sofreram um aumento em 2014, no mercado livreiro dos EUA, Reino Unido e Austrália, enquanto as publicações em dispositivos eletrónicos diminuíram. Este novo paradigma tem tendência a manter-se, segundo os especialistas, o incremento da compra do livro impresso tem sido fortemente influenciado por um público mais jovem – muito curioso é que os jovens leitores acreditam que a informação verdadeira está fora da Internet. A venda de títulos como A Culpa É das Estrelas, de John Green ou a saga Crepúsculo de Stephenie Meyer, está no topo das preferências dos jovens adolescentes entre os 13 e 17 anos.

Concluindo, podemos afirmar que o perigo efetivo para o livro, quer em suporte digital, quer em papel, será sempre a falta de hábitos de leitura.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Simplesmente Onésimo



            (…)
             
“ Na passada sexta-feira, com Onésimo em São Miguel, em mais um regresso de quem está sempre presente, foi tempo de um encontro de Amigos, na Livraria Solmar, com José Carlos Frias sempre atento e dedicado anfitrião, para uma informal apresentação do Onésimo, Único e Multímodo e do Identidade, Valores, Modernidade. Vamberto Freitas, referência obrigatória quando se fala de recensão e crítica literária nos Açores, fez a apresentação dos livros, cabendo a Osvaldo Cabral, jornalista, antigo Diretor da RTP/ Açores e atual Diretor Executivo do jornal Diário dos Açores, falou sobre Onésimo e o Pico da Pedra, as influências culturais que o ambiente de infância e juventude podem ter na personalidade e no caminho do sucesso e do saber. Foi um pouco de “lavar a alma” de recordações e de sentimentos, porque disto mesmo se faz o viver e o pulsar da terra em cada um de nós.” (…)
            “ Só posso dizer muito obrigado por tudo quanto me deram e continuarão a dar e que apenas se apaga neste sincero abraço de parabéns! “

Santos Narciso,
 Leituras do Atlântico, 20 de julho,2015 (in) Atlântico Expresso
 

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Inês Dias - " O Deserto do Papel ", de Inês Pereira Botelho : Way to Blue



WAY TO BLUE
- Apresentação de O Deserto do Papel, de Inês Pereira Botelho
 (Ponta Delgada, Junho de 2015)


Há pessoas que são como lugares, E, neste caso, famílias que são como lugares: regressar para junto delas traz-nos de volta a um lugar em que há sempre alguém contente por se cruzar connosco num aeroporto (como a Inês e a sua família); um lugar em que não se esquecem as músicas – leia-se, as pessoas – da nossa vida, por mais voltas que esta dê (e estou a falar da Renata Correia Botelho); em que a poesia ensina a unir as pontas do mar (e falo do Emanuel Jorge Botelho), em que o milagre da vida acontece diariamente, como no poema em forma de lapinha que a Lorena Correia Botelho criou para mim.
É precisamente esse o lugar a que os livros da Inês (nascida em 2004) nos trazem, tanto o primeiro – A Cinza Roxa (2011) – como este novo O Deserto do Papel. Os textos são concisos, gerados à volta de imagens que partem do mais ínfimo, de pormenores que, através do seu olhar quase fotográfico, se transformam em metáforas de algo muito maior. Já em A Cinza Roxa a Inês começava por escrever “ O meu mundo é o meu segredo e o meu tesouro” e de facto, os textos agora reunidos possuem uma profunda dimensão humana, atenta aos outros, seja no poema sobre “Aquelas crianças solitárias/com a sombra vazia “ (p.19), seja no terno poema intitulado “ Os hábitos do rapaz solitário” (p.13), ou ainda no texto sobre “ A Guerra” (p.33).

Mas não se pense que esta dimensão ética dos textos da Inês se reduza ao Homem. Pelo contrário, sabem integrar o Homem na Natureza, permitindo-nos assistir à passagem das estações ao longo das páginas ou às flores que nascem e “ganham asas” do poema “ Na Páscoa” (p.9), e fazendo-nos sobretudo acreditar que há mesmo um deus entre as ervas, que não nos deixa esquecer os mais pequenos e desprotegidos. A título de exemplo, não resisto a citar na íntegra o poema “Um gato invulgar”, dedicado a Daniela Gomes:

   “Sempre que passava pelo
    parque natural da rua
             da arte, encontrava um gato
             preto com pintas vermelhas
             a que chamava o gato do relvado.
             Nos dias em que o sono
             o enrolava na noite, as nuvens
             serviam-lhe de companhia e o céu
             de abrigo. Era o que tinha aquele
             gato com frio. Quem por lá passava
             não via o animal!
             Até sozinho passava"

Curiosamente, alguns dos textos do livro foram produzidos em contexto de aula. E tendo contado a minha vida durante muito tempo em anos escolares e não em anos civis, não posso deixar de me sentir verdadeiramente feliz com o facto de a escola funcionar, desta vez - e como deveria funcionar de todas as vezes -, enquanto sítio encorajador de produção e não de repetição, de consciência em vez de indiferença.
Uma outra dimensão muito presente neste livro é a da luz. Há uma constante procura dessa luz que torne a noite menos escura – ou, nas palavras da própria Inês, de “uma vela acesa sobre a escuridão” (p.34). Trata-se de uma luz capaz de redimir o mundo e de revelar uma alegria profundamente íntima mas partilhável em tudo, desde “ O mundo dos sonhos “ (p.11) ao poema “Inverno”, que inicia o livro e que cito:

   “ Por vez o inverno é bom
              o vento assobia baixinho
              e entre a névoa nasce um sol frio.”


No fundo, a maravilhosa capa que a Daniela Gomes fez sintetiza estas duas dimensões: aquele gato é um segredo adormecido sobre si próprio, aguardando, aconchegado e sereno, “ o dia seguinte” (p.13). Que os dias e as palavras da Inês sejam sempre assim, e nos continuem a iluminar.


Inês Dias
Livraria Solmar / Ponta Delgada, 25 de junho de 2015


            Inês Pereira Botelho nasceu a 16 de Março de 2004, em Ponta Delgada, ilha de São Miguel, Açores.
           Os poemas agora publicados foram escritos entre 2012 e 2015. Contando sempre com o total envolvimento da autora, sofreram alterações muito pontuais, que basearam-se sobretudo em pequenos ajustes na parte gramatical.
      Alguns dos textos em prosa, igualmente intervencionados de forma mínima, foram produzidos ao longo do 4º ano de escolaridade (2013/2014), em contexto de aula. Os dois textos finais datam já de 2015.




quarta-feira, 15 de julho de 2015

Encontro com Onésimo Teotónio de Almeida



Onésimo Teotónio de Almeida, escritor, investigador, pensador e filósofo, estará amanhã na Livraria LeYa Solmar pelas 19 horas, para a apresentação dos livros “ ONÉSIMO, ÚNICO E MULTIMODO” e “ IDENTIDADE, VALORES, MODERNIDADE” da autoria de João Maurício Brás, à conversa com Osvaldo Cabral e Vamberto Freitas.
“ONÉSIMO , ÚNICO, MULTÍMODO “, emergiu de um projeto em 2013, que tinha como intuito publicar numa revista um conjunto de textos de vários autores sobre Onésimo Almeida, celebrando, assim, cinquenta anos de vida literária. Todavia, esse projeto cresceu e tornou-se no livro atualmente publicado. Esta obra teve a colaboração de vários escritores, críticos, investigadores e académicos, entre os quais: José Blanco, George Monteiro, João de Melo, Victor Rui Dores, Álamo de Oliveira, Isabel Alarcão, Artur Goulart, Eugénio Lisboa, Teolinda Gersão, Vamberto Freitas e José Cândido de Oliveira Martins.
Ao longo da entrevista dada ao “Diário dos Açores” (15 de julho, 2015) Onésimo Teotónio de Almeida demonstra um carinho e ternura especial pela sua terra natal e acrescenta a evolução e expansão dos Açores ao longo dos anos, afirmando que “os Açores estão cada vez mais nas bocas do mundo.“
Contudo, é necessário preservar a identidade cultural que distingue os Açores do resto do mundo. 

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Urbano Bettencourt - Arquipélago, de Joel Neto: a Ilha longe e perto



Em literatura, é possível fixarmo-nos nos postes da rede telegráfica, não vendo os fios que os ligam e lhes dão sentido e função. A metáfora, vinda do campo das comunicações num tempo muito anterior à internet e ao wireless, é da autoria de Antonio Rodríguez-Moñino e surge num texto de 1935. Retomada mais tarde por Gregorio Torres Nebrera também no contexto da reflexão sobre as literaturas regionais em Espanha, ela reporta-se àquelas situações em que podemos falar de autores isolados, de «manifestações literárias», mas não de literatura em sentido restrito, enquanto «sistema de obras ligadas por denominadores comuns» (Candido, 102006: 25).

Em todo o caso, neste momento, a referência não me interessa por essa vertente do campo literário, em que, aliás, dá pano para muitas mangas de variados feitios e tamanhos. Prefiro trazê-la para o âmbito individual e considerar que também, por vezes, construímos o nosso abrigo de leitores à sombra da(s) grande(s) obra(s), não ligando a outros livros, ou mesmo textos, situados entre os postes e que, afinal, contribuem para a compreensão geral de um autor, do sentido da sua escrita.

Há na obra de Vitorino Nemésio um texto narrativo a que se tem dado pouca importância, talvez devido à sua natureza híbrida, talvez porque ofuscado pela grandeza solar de Mau Tempo no Canal ou pela intensidade da restante matéria insular que transborda da contística e da crónica de viagens. Chama-se «Ante-Manhã» e constitui o texto inicial de Paço do Milhafre (1924), o primeiro livro de contos do autor terceirense: aí, um narrador distanciado, exterior, acompanha a deambulação de uma personagem através da madrugada lisboeta, ao longo de algumas das suas ruas e dos seus espaços emblemáticos. Sem direito a nome próprio, identificada apenas pela profissão (repórter), essa personagem vai-nos revelando «a vida dos noitívagos» (Nemésio, 2002: 39), numa efectiva reportagem que inventaria e descreve aqueles que asseguram o funcionamento da normalidade citadina. Mas o relato acaba por centrar-se na dimensão grotesca dos outros habitantes da noite, os deslocados do seu espaço e da sociedade, os retidos na margem, os degredados, enfim, o «dejecto humano que a capital repudia, feroz e torva na sua bacanal das horas altas.» (idem: 42). A modulação expressionista, demarcando a cores negras a vida social e recortando a rigor o traço das figuras humanas, contribui para uma composição em que sobressai a perspectiva pessimista sobre o espaço urbano, lugar sórdido e propício à degradação pessoal e colectiva.

Ora, este pendor negativo ganha novo sentido quando posto em contraste com o que se passa no segundo momento do texto e na sequência de um inesperado golpe discursivo que recupera a imagem de Lisboa tal como surgia num antigo sonho juvenil: «intérmina de volúpia para os sentidos, onde se gozasse à doida os doidos prazeres inocentes…», (…) um «feminino Eldorado a que um dia o levaria o destino – oh! vem, formosa minha! – num assomo encantado e todo tecido de espanto.» (idem: 45). No confronto com a cidade concreta do presente, quem perde e se dilui é a construção fabulosa da imaginação, uma pura fantasia situada num tempo remoto. E num lugar remoto também: alguns elementos referenciais, associados a uma «personagem migrante» como Genuína (que surge noutras obras nemesianas) permitem concluir que o reporter não é senão uma projecção ficcional do próprio Nemésio, equacionando em termos deceptivos a sua descoberta da capital, a metrópole apenas sumptuosa no plano da fantasia. Ao repórter/Nemésio extraterritorial do presente, resta-lhe a memória de um tempo anterior a que se regressa como derradeiro refúgio que importa salvar; «Ante-Manhã» acaba precisamente do seguinte modo: «Antes desta noite aziaga e torva, houve um dia que vai delido na memória, e não é esta vida senão o resto de outra vida remota, de que nem tudo se perdeu e de que nem tudo se fez lama.» (Nemésio, 2002: 47).

O facto é que o autor salta imediatamente e de modo abrupto para essa «vida remota», numa narrativa intitulada «Brumolândia», uma breve história dos Açores num vago registo entre a lenda e a dimensão alegórica. Se Nemésio vinculará a esse espaço mitificado da Brumolândia a maior parte da sua escrita, a verdade é que a «explicação» para isso está dada (creio eu) no início de Paço de Milhafre, com as duas narrativas iniciais, cuja disposição é ela própria já mensagem, sentido adiantado ao leitor, à maneira de prefácio em jeito ficcional (e repare-se mesmo na afinidade possível entre «ante-manhã» e antelóquio). Na matriz da escrita estará uma frustração[1] resultante da discrepância ou hiato entre o deslumbramento perante o mundo representado pelo imaginário e as pequenas misérias do real concreto e «claramente visto»; mas nisto inscreve-se também uma outra dinâmica, aquela que se estabelece entre o interior e o exterior, entre a ilha e o mundo (para socorrer-me de um título de Pedro da Silveira), em que a partida é frequentemente vista no seu dramatismo (veja-se o início da narração de Gente Feliz com Lágrimas, João de Melo) ou mesmo como uma maldição: em A Fome, de José Martins Garcia, a viagem prolonga uma fatalidade insular sem solução e, além disso, aqueles que partem para leste, rumo à Europa, são amaldiçoados pelos velhos: partir, só para oeste – diziam eles e lá teriam as suas razões.

O significado desta minha «volta do largo» (metáfora colhida na náutica dos descobrimentos e tão ligada aos Açores, afinal) situar-se-á não apenas na própria interpretação da escrita nemesiana, mas também (talvez mesmo, sobretudo) no facto de com ela se estabelecer um quadro de referência que permite uma análise contrastiva da «nova escrita» açoriana, os modos da sua realização e da percepção do mundo, e como nela se poderão observar aproximações ou afastamentos em relação a esse modelo anterior. Isto significa, obviamente, situar a obra de Joel Neto na tradição literária açoriana, coisa que corresponde, aliás, a um posicionamento assumido pelo autor e não anula a possibilidade de outras leituras, antes as enriquece.

Quando Joel Neto se estreou com O Terceiro Servo (2000), quem soube ler o romance pôde aperceber-se de que havia ali um escritor, isto é, alguém capaz de construir uma história, com o seu universo de encontros, desencantos e conflitos, e sobretudo capaz de inventar processos próprios e uma linguagem pessoal para contá-la. Numa curta nota que escrevi dois anos mais tarde, e tendo por referência esse primeiro romance e já também O Citroën que escrevia novelas mexicanas (2002), mas cujo teor podia aplicar-se igualmente a Os Sítios sem Resposta (2012) e a Arquipélago (2015), assinalei em Joel Neto um diálogo descomplexado com a tradição literária (a açoriana, em primeiro lugar), mas exercendo-se em intersecção com outros espaços e discursos; e acrescentava ainda: «a sua escrita reflecte já a experiência de uma geração posterior à guerra colonial e às dramáticas condições insulares dos anos cinquenta a setenta: tanto em O Terceiro Servo como em O Citroën que escrevia novelas mexicanas há uma circulação entre interior e exterior (ou vice-versa) que decorre de forma apaziguada e "natural", sem que a partida e a distância ou a própria condição insular sejam vividas de forma angustiada e traumática.» (Bettencourt, 2003: 60). Entre Lisboa e a Terceira, as personagens de Joel Neto deslocam-se (quase) tranquilamente, sem que a angústia da insularidade as tome de assalto e as paralise no tempo e no espaço ; e mesmo que Miguel Januário Barcelos ou Miguel João Barcelos (personagens de O Terceiro Servo e de Os Sítios sem Resposta, respectivamente) possam experimentar a solidão e os desconchavos de Lisboa, isso ocorre já num quadro que é o da despersonalização e da rotina da vida urbana moderna: como não havia à partida deslumbramento algum em relação à capital, também não se seguem frustrações profundas, daquelas capazes de dar a volta à vida e à escrita de um homem.

Falava eu de circulação, mas convém introduzir alguma precisão nos termos. Na verdade, mais do que a escolha da partida e da viagem como elementos narrativos, aquilo com que nos deparamos é com regressos, o movimento do exterior para o interior, e, pela sua recorrência, é um dado (relativamente) novo num corpus literário tradicionalmente marcado pela preponderância das narrativas da partida e da fuga. De resto, se o afastamento e a distância não foram vividos como uma forma exacerbada de exílio, os regressos traduzir-se-ão apenas numa emotividade contida e bem controlada, sem lugar para aquelas manifestações excessivas de nostalgia e para a dramática tentativa de recuperação de qualquer tempo perdido: as imagens afectivas do passado serão algo a preservar intimamente e envolvidas num leve manto de melancolia, sobretudo quando confrontadas com um tempo açoriano em que as crianças já não jogam à bola na rua e no seio da família as migalhas da Segurança Social asseguram uma sobrevivência precária, ao mesmo tempo que a toxicodependência aí vai abrindo o seu caminho lento de destruição (Os Sítios sem Resposta).

Do ponto de vista narrativo, O Terceiro Servo assenta numa vaga moldura policial, na medida em que o regresso do jornalista Miguel Januário Barcelos à ilha é suscitado pela notícia que constitui a abertura abrupta do romance: «Sargento Herculano brutalmente assassinado». Mas no decurso da acção, essa vertente seguirá em paralelo com um processo de indagação que tanto refaz uma cartografia íntima do protagonista e o percurso de Herculano Cota, como procede a uma configuração do tempo e dos costumes insulares; essa indagação é inseparável do estatuto de Miguel («um jornalistazinho de meia-tigela», dir-lhe-á Teresa), mas o seu resultado é também uma revisitação da ilha, dos seus ritos e jogos sociais, permitindo ainda a observação das transformações colectivas.

Em certa medida essa modulação policial assiste também à organização narrativa de Arquipélago, embora num enquadramento diferente, pois os acontecimentos que a desencadeiam cruzam-se de modo fortuito (mas não aleatório) no quotidiano de José Artur, regressado à ilha por causa de um manuscrito encontrado ocasionalmente, o diário de Gordon Mason, e que lhe pareceu abrir pistas para uma tese de doutoramento (tema absurdo, dirá de Lisboa o Doutor Salvaterra). Esses dois achados, o esqueleto jovem e o texto de Gordon, polarizam as duas linhas de investigação de Arquipélago: o primeiro, surgido no decurso de um processo de reconstrução, reenvia a um tempo próximo, a esse acontecimento balizador que foi o sismo de 1980[2] («para os velhos da sua terra, o tempo continuava a dividir-se entre Antes e Depois do Abalo», p. 147); o segundo abre caminho ao levantamento e ao estudo das pistas que poderão atestar as «presenças humanas prévias [na Terceira] aos gloriosos tempos das caravelas» portuguesas (p.98).

Entre os dois filões, podemos incluir um terceiro espaço discursivo, configurador do presente da personagem, num processo de (re)descoberta da ilha e, simultaneamente, de reconstrução interior de José Artur e da sua relação com o mundo e, em primeiro lugar, com o universo familiar e pessoal.

Sabe-se, pelo menos desde Anatole France (chegado via Nemésio), que todo o romancista é um espião e que a literatura é função de uma actividade de espionagem (Enrique Vila-Matas). Isto deve entender-se, em sentido imediato, como o exercício de um olhar perscrutador e atento sobre o mundo, no registo e na posterior religação e interpretação dos factos colhidos; mas, num outro modo, cada autor exerce espia as suas personagens, decifrando-lhes os movimentos da fala e os sinais que, não raro, as denunciam e traem nos seus jogos de dissimulação e subentendidos, nos claros e escuros da sua humanidade.

Neste contexto, Joel Neto procedeu a um notável e minucioso trabalho de espionagem que lhe permitiu construir um romance de largo espectro como há muito não acontecia no universo literário açoriano. Desenvolvendo as duas linhas da inquirição e articulando-as com o quotidiano de José Artur, Arquipélago configura um universo em que confluem a eventualidade pré-histórica e a realidade mítica (a Atlântida), a factualidade recente, não só a geológica e telúrica, mas também a política (os tempos da FLA, por exemplo) e ainda a social. E tudo isso num processo discursivo e narrativo que faz deste romance uma vasta tapeçaria em que os fios se cruzam (e por vezes se descruzam também), num registo ora realista, ora fantástico ou meramente fantasioso, ora ainda cronístico, alternando os grandes planos e movimentações com a intimidade microscópica do comportamento e dos gestos individuais.

A Terceira merecia isto. E nós, leitores, também.

……………………………

(Ponta Delgada, Livraria Solmar, 2 de Julho de 2015)

REFERÊNCIAS:

BETTENCOURT, Urbano (2003), Ilhas conforme as circunstâncias. Lisboa: Edições Salamandra.

CANDIDO, Antonio (102006), Formação da Literatura Brasileira. Momentos Decisivos. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul.

NEMÉSIO, Vitorino (2002), Paço do Milhafre/O Mistério do Paço do Milhafre, Obras Completas de V. N, vol. VII, introdução e fixação do texto de Urbano Bettencourt. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

NETO, Joel (2015), Arquipélago. Queluz de Baixo: Marcador.

TORRES NEBRERA, Gregorio (1994), « "Los poestes y el tendido": Realidades y propósitos de la cultura literaria en Extremadura», in José María Enguita e José-Carlos Mainer (eds.), Literaturas Regionales en España. Zaragoza: Institución «Fernando El Católico», pp. 141-160.

……………………………………………

[1] Nada de novo, afinal. O próprio Nemésio referiu-se à frustração amorosa que está na base de Mau Tempo no Canal.

[2] Já textualizado, aliás, por Álamo Oliveira em Pátio d’Alfândega meia-noite (1992)

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domingo, 21 de junho de 2015

Joel Neto na Solmar dia 2 de Julho




«O Outono era, para muitos terceirenses, o tempo mais deprimente do ano. Os cagarros tinham partido, as vidas haviam voltado às suas rotinas e, ainda por cima, chovia. Naquele Novembro quase não choveu, e foi pior. O nevoeiro tomou conta da ilha logo no início do mês e, quando o povo levantou os olhos para descortinar ao menos o Natal, não viu mais nada senão aquela massa leitosa que parecia reduzir lugares, gentes e até vozes a uma mesma matéria sem sabor.»

«O narrador faz o que a boa ficção tem de fazer – com descrições e observações precisas imprime na nossa mente toda uma personalidade e vida interior dos seus personagens mais relevantes, em que até o seu cão de estimação se torna inesquecível, Papillon, pois claro, cuja missão principal é ficar ou fugir da prisão na companhia do seu dono, assim como faz, já agora, com o velho e hidráulico Citroen, que desde sempre lhe deram a alcunha de Boca de Sapo, carro herdado do avô..»

Vamberto Freitas sobre "Arquipélago" de Joel Neto