sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Herzog




 «Se estou fora de mim, isso não me importa, pensou Moses Herzog.»

 
Publicado pela primeira vez há exatamente 50 anos e considerado um dos maiores romances de Saul Bellow, Herzog conta a história de Moses Herzog, intelectual de muitos conflitos e de sofrimentos emocionais e filosóficos, mas também homem de grande charme.
A sua existência está a desintegrar-se em todos os domínios. Herzog falhou enquanto escritor, enquanto académico, enquanto pai, enquanto marido e amigo - perdeu a segunda mulher e o melhor amigo, que o traíram um com o outro e agora formam um novo casal.
Apesar de tudo, Herzog vê-se como um sobrevivente e aplica o seu inconformismo e a sua ira na escrita de cartas (que nunca chegará a enviar) para amigos, inimigos, rivais, colegas, pessoas famosas - vivas e mortas -, e em que revela a sua invulgar visão do mundo.
Uma agudíssima observação da vida pública e privada, no mais autobiográfico romance de Saul Bellow.
Herzog, Saul Bellow, Quetzal, 2014.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Os Interessantes



Numa noite de verão de 1974, seis adolescentes planeiam uma amizade para toda a vida.  Jules, Cathy, Jonah, Goodman, Ethan e Ash ensaiam a atitude cool que (esperam) os defina como adultos. Fumam erva, bebem vodka, partilham os seus sonhos. E, juram, serão sempre Os Interessantes. Ao longo da adolescência, o talento artístico destes seis amigos foi sempre satisfeito e encorajado. Mas o tipo de criatividade que é celebrada aos 15 anos nem sempre é suficiente para impulsionar a vida aos 30 – para não falar dos 50. Nem todos vão conseguir manter viva a chama que os distingue na juventude. Décadas mais tarde, a amizade mantém-se embora tudo o resto tenha mudado. Jules, que planeava ser atriz, resignou-se a ser terapeuta. Cathy abandonou a dança. Jonah pôs de lado a guitarra para se dedicar à engenharia mecânica. Goodman desapareceu. Apenas Ethan e Ash se mantiveram fiéis aos seus planos de adolescência. Ethan criou uma série de televisão de sucesso e Ash é uma encenadora aclamada. Não são apenas famosos e bem-sucedidos, têm também dinheiro e influência suficientes para concretizar todos os seus sonhos. Mas qual é o futuro de uma amizade tão profundamente desigual? O que acontece quando uns atingem um extraordinário patamar de sucesso e riqueza, e outros são obrigados a conformar-se com a normalidade?

Entrevista

Uma geração na esquina entre o talento e o dinheiro


No princípio houve a ideia da inveja. A inveja sossegada, silenciosa, de quem amamos. A inveja que é difícil de confessar e, antes disso, de admitir; por oposição à inveja que se grita. Uma inveja sem “qualquer poder autónomo”, “doentia e progressiva”. Colada a essa ideia, surgiu então a ideia de talento e do que se faz com ele. Não num momento, mas ao longo da vida. O que acontece ao talento, “essa coisa fugidia”, que se pode ou não apurar, activar, revelar ou, simplesmente, não ter? “O talento faz-nos suportar a vida”, acredita uma das personagens talentosas. A frase surge agora citada, dita entre aspas pela sua criadora, como se pelo facto de lhe ter atribuído uma autoria, mesmo que ficcional, deixasse de ter propriedade sobre ela. Ri. Haverá de falar dessas vidas fictícias mais à frente na conversa.

Ler Aqui

terça-feira, 9 de setembro de 2014

A Peregrinação do Rapaz sem Cor




“Tudo se precipitou durante as férias de verão, entre o primeiro semestre e o segundo. Foi a partir dai que, à imagem do que acontece nas vertentes escarpadas de uma montanha, cada qual com o seu tipo de vegetação, a vida de Tsukuru conheceu uma transformação radical”

Nos seus dias de adolescente, Tsukuru Tazaki gostava de ir sentar-se nas estações a ver passar os comboios. Agora, com 36 anos feitos, é engenheiro de profissão e projeta estações, mas nunca perdeu o hábito de ver chegar e partir os comboios. Lá está ele na estação central de Shinjuku, ao que dizem «a mais movimentada do mundo», incapaz de despregar os olhos daquele mar selvagem e turbulento «que nenhum profeta, por mais poderoso, seria capaz de dividir em dois». Leva uma existência pacífica, que talvez peque por ser demasiado solitária, para não dizer insípida, a condizer com a ausência de cor que caracteriza o seu nome. A entrada em cena de Sara, com o vestido verde-hortelã e os seus olhos brilhantes de curiosidade, vem mudar muita coisa na vida de Tsukuru. Acima de tudo, traz a lume uma história trágica, que a memória teima em não esquecer. Os quatro amigos de liceu, donos de personalidades diferentes e nomes coloridos, cortaram relações com eles sem lhe dar qualquer explicação. Profundamente ferido nos seus sentimentos, Tsukuru perdeu o gosto pela vida e esteve a um passo da morte. A páginas tantas, lá conseguiu não perder a carruagem. Com "Os Anos de Peregrinação" de Liszt nos ouvidos, regressa à cidade que o viu nascer e atravessa meio mundo, viajando até à Finlândia, em busca da amizade perdida. E de respostas para as perguntas que andam às voltas na sua cabeça e lhe queimam a língua. Será que o rapaz sem cor vai ser capaz de seguir em frente? Arranjará finalmente coragem para declarar de vez o seu amor por Sara? Uma inesquecível viagem pelo universo fascinante deste escritor japonês que chega a milhões de leitores espalhados pelo mundo inteiro. Um romance marcadamente intimista sobre a amizade, o amor e a solidão dos que ainda não encontraram o seu lugar no mundo

A Peregrinação do Rapaz Sem Cor, Haruki Murakami, Casa Das Letras, 30 setembro, 2014.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O Pintassilgo




 
 
 
 
Vencedor do Prémio Pulitzer de Ficção 2014, um dos mais importantes galardões mundiais. "O Pintassilgo" é um livro poderoso sobre amor e perda, sobrevivência e capacidade de nos reinventarmos, uma brilhante odisseia através da América dos nossos dias, onde o suspense e a arte são dois elementos decisivos para agarrar o leitor.  «O Melhor Livro de 2013» segundo a amazon.com«Um dos 10 Melhores Livros de 2013» – The New York Times   Theo Decker, um adolescente de 13 anos, vive em Nova Iorque com a mãe com quem partilha uma relação muito próxima e que é a figura parental única, após a separação dos pais pouco antes do trágico acontecimento que dá início a este romance. Theo sobrevive inexplicavelmente ao acidente em que a mãe morre, no dia em que visitavam o Metropolitan Museum. Abandonado pelo pai, Theo é levado para casa da família de um amigo rico. Mas Theo tem dificuldade em se adaptar à sua nova vida em Park Avenue, e sente a falta da mãe como uma dor intolerável. É neste contexto que uma pequena e misteriosa pintura que ela lhe tinha revelado no dia em que morreu se vai impondo a Theo como uma obsessão. E será essa pintura que finalmente, já adulto, o conduzirá a entrar no submundo do crime. "O Pintassilgo" foi concluído ao fim de 11 anos e pelo seu impacto mundial os produtores de «The Hunger Games» já anunciaram uma adaptação ao cinema. «Uma obra-prima» The Times «Uma obra surpreendente… Se alguém perdeu o gosto pela leitura, irá reencontrá-lo com "O Pintassilgo".» The Guardian «Deslumbrante… Um romance poderoso na linha de Dickens, que reúne os notáveis talentos narrativos de Donna Tartt numa sinfonia arrebatadora, lembrando ao leitor o prazer de ficar acordado durante toda a noite a ler.» The New York Times «O Pintassilgo é um daqueles livros raros que aparecem uma meia dúzia de vezes por década; um magnífico romance literário capaz de tocar tanto o coração como a mente… Donna Tartt criou uma extraordinária obra de ficção.»Stephen King «Um romance de formação, soberbamente escrito, povoado de personagens elegantemente construídas, que segue a estranha ligação de um rapaz a um pequeno quadro famoso. Um livro que estimula a mente e toca o coração.»  
 
Dona Tartt, "O Pintassilgo", Ed.Presença, 2014.


segunda-feira, 1 de setembro de 2014

O GRITO DE MUNCH, revisitação II





O GRITO DE MUNCH, revisitação II
                                                 
                                                       para o Urbano

 
o  problema, meu irmão,
é  que, tanto tempo ido,
continua, entre as mãos, um pano de cicatriz,
esse lugar onde enxugamos a repulsa
antes que o grito seja a pedra da morte.

 
não cabe mais nada na hora do medo
e poucas palavras restam
para  dizer o seu nome.
é  assim que nascem as lágrimas,
é  por isso que a moldura não interessa.



Emanuel Jorge Botelho, Fecho As Cortinas, E Espero, Ed. Averno, 2014.


quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Vinte Degraus


                                                                  Fotografia Lee Miller



“A imaginação abria espaços por dentro da pessoa. E corria-se o risco de cair por eles abaixo, como Alice pela toca. A menina, porém, não tinha medo. Sentia-se tão forte no seu corpo, o seu pesado corpo mineral, que entregava à imaginação sem que ela conseguisse abrir-lhe feridas. Agia como dona, essa menina, mesmo no caso de a vertigem a cercar, querendo empurra-la para o desequilíbrio. A menina, que não parava quieta, que experimentava posições para a lição, tinha o segredo da estabilidade. Não precisava de dois pés para nada. Usava-os só para não os desprezar, para que eles não sofressem o abandono. Eram uns pés minúsculos para os quais nem se achavam sapatos. Se precisasse de sair, teria que de os pedir emprestados às bonecas. (...)”

 
Este livro reúne onze contos de Hélia Correia. Alguns têm referências reconhecíveis. «Seroda» é outra história de Mariana Cruz, de Amor de Perdição, e «Captura», «um outro ponto de vista para "A Imitação da Rosa" de Clarice Lispector». «Uma Noite em Luddenden» evoca Branwell Brontë. «Hélder e Djalme» são nomes retirados de pessoas reais. «A Dama Singular» é dedicado a uma escritora portuguesa.

Vinte Degraus e Outros Contos, Hélia Correia, Relógio D´Água, 2014.
 

Imperatriz



“ Apareciam esplendidamente vestidas, com túnicas formais com desenhos de fénix, sapatos bordados a pérolas e pedrarias e penteado em forma de torre de pórtico. Na sala, sentavam-se lado a lado, por detrás de um biombo de seda amarela, através do qual discutiam as questões com conselheiros supremos. (...) “

Cixi, a imperatriz viúva (1835-1908) é a mulher mais importante da História da China. Governou a China durante décadas e trouxe um império medieval até aos tempos modernos. Durante uma seleção para consortes reais levada a cabo em todo o reino, Cixi foi escolhida com dezasseis anos para ser uma das inúmeras concubinas do imperador. Ascendendo de uma das mais baixas categorias de concubinato, após a morte do imperador, Cixi tomou o trono aos regentes que haviam sido nomeados por ele, chamando a si a governação da China.
Cixi reinou através de tempos historicamente conturbados e de grandes crises internas e externas, e transformou profundamente o país, desenvolvendo todos os setores e infraestruturas necessários a um Estado moderno: indústria, caminhos-de-ferro, eletricidade e comunicações. Mas desempenhou também um papel importante em reformas sociais que aboliram, por exemplo, práticas de extrema crueldade, como a morte através dos mil cortes ou a tradição de ligar os pés das mulheres.

A imperatriz Viúva, Jung Chang, Quetzal 2014

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Nós escrevemos Sós



“A minha obra foi feita na solidão. Foi feita na pobreza. Foi feita sem o menor apoio editorial e quando os editores despertaram para os meus livros, os de Fuentes, os de García Márquez, os de Vargas Llosa, despertaram porque as precárias e difíceis primeiras edições haviam sido bruscamente lidas por uma grande quantidades de pessoas, que as passou de mãos em mãos. E os editores, que não são tontos e que existem para ganhar dinheiro, compreenderam perfeitamente que tinham de editar esses escritores. Eles não nos inventaram. Nós escrevemos sós.”

 Julio Cortázar

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Leituras de Verão


O Chão dos Pardais
Dulce Maria Cardoso

Afonso é um homem muito poderoso. Inatingível. A não ser pelos anos, que passam e o envelhecem quase como a outro qualquer. Há muito que já só encontra a juventude nos corpos das amantes. Como o de Sofia, que o odeia e ama Júlio. Entretanto Alice, a mulher de Afonso, desistiu, nem sabe ela bem de quê. Os filhos cresceram e partiram, sem partir. A filha,Clara, traduz livros inúteis e apaixona-se por Elisaveta. O filho, Manuel, é um cirurgião plástico à espera de ser julgado por negligência e entregue ao amor adiado por uma mulher longínqua com quem se encontra no ecrã do computador. Mas tudo está perfeito na festa dos sessenta anos de Afonso Antes e depois dessa festa, antes e depois da tragédia que a estraga, o romance dá conta das forças que atiram umas personagens contra outras. Seja para se amarem ou para se odiarem. E, vertical, por entre todas as forças, a força da gravidade que estatela no chão os corpos que caem. Mesmo assim, parece simples ser feliz.

 
A Rainha da Neve
Michael Cunningham

O romance luminoso de Michael Cunningham começa com uma visão. Estamos em Novembro de 2004 e Barrett Meeks, tendo perdido um amor uma vez mais, atravessa o Central Park quando se sente impelido a olhar para o céu. Ali, avista uma luz pálida e translúcida que parece olhar para ele de uma forma inequivocamente divina. Barrett não acredita em visões – nem em Deus – mas não pode negar o que viu e sentiu. Ao mesmo tempo, Tyler, o irmão mais velho de Barrett, músico em busca de inspiração, tenta – sem sucesso – escrever uma canção de casamento para Beth, a sua noiva gravemente doente. Tyler está determinado a escrever uma canção que não seja meramente uma balada sentimental, mas uma expressão duradoura de amor. Cunningham segue os irmãos Meek nos seus diferentes percursos em busca da transcendência. Numa prosa subtil e lúcida, demonstra uma profunda empatia pelas personagens torturadas e uma compreensão singular daquilo que constitui o âmago da alma humana. A Rainha da Neve, obra bela e comovente, cómica e trágica, vem de novo provar que Michael Cunningham é um dos grandes romancistas da sua geração.

 
O Tempo Morto é um Bom Lugar
Manuel Jorge Marmelo

Galardoado recentemente com o Prémio Correntes d’ Escritas/Casino da Póvoa 2014, pelo romance "Uma Mentira Mil Vezes Repetida", M.J. Marmelo lança um extraordinário romance em que temas fundamentais do nosso tempo são tratados com a mais apurada mestria literária. Depois de acordar ao lado do cadáver de Soraya – a mestiça belíssima, estrela televisiva, com quem mantinha uma relação íntima a pretexto de lhe escrever a autobiografia –, o jornalista desempregado Herculano Vermelho entrega-se à polícia e é preso. Não tem memória de nada, nem de que possa ter sido ele a matar a jovem mulher, mas a prisão parece-lhe ser o lugar ideal, o espaço de sossego e de liberdade (sem contas para pagar, sem apresentações regulares no centro de emprego, sem pressões de qualquer espécie), para passar a sua vida em revista, a relação com as mulheres, e escrever a autobiografia da rapariga morta.

 
Contos Maravilhosos
Hermann Hesse

Poucos leitores parecem estar cientes de que Hermann Hesse, o autor de romances épicos como "O Lobo das Estepes" ou "Siddharta", também escreveu magníficos textos de prosa poética. Esta coletânea reúne os contos mais emblemáticos da obra do autor, e nela se inclui "Os Dois Irmãos" ("Die Beiden Brüder"), o seu primeiro trabalho em prosa, escrito quando Hesse tinha apenas dez anos, que é exemplo disso: imbuído de alguns dos imaginários e sentimentos típicos dos romances de Hesse, mas escrito com uma clareza e ressonância próprias, um sentimento de saudade para o amor e para a casa, é, simultaneamente, extremamente simples e profundamente poético. São pequenas histórias, em linguagem simples mas plenas de simbolismo e referências filosóficas que remetem para um mundo além da efabulação. A experiência como elemento unificador do homem e do universo, a busca de harmonia e unidade do indivíduo no seu confronto com o mundo são temas que perpassam estes contos onde habitam a fantasia e a visão mágica dos seres e da Natureza num registo poético singular.

 
O Ilustre Colegial
John le Carré 

A toupeira foi eliminada, mas a devastação que deixou na sua esteira depauperou gravemente os serviços secretos britânicos. Investido da chefia do Circus, numa altura em que a organização se encontra altamente comprometida, George Smiley lança-se numa campanha que visa pôr a descoberto aquilo que o Centro de Moscovo mais deseja ocultar, obstinando-se em reunir provas de que Karla prepara uma grande operação no Extremo Oriente. Talvez por aí se pudesse iniciar a reconstrução do Circus. Mas, para isso, são necessários agentes livres de qualquer suspeita, indivíduos que a toupeira não tenha detetado ou conhecido. E Smiley acredita ter encontrado o homem certo: um aristocrata tão digno e frustrado como a própria Grã-Bretanha; um ilustre colegial cuja respeitabilidade poderá ser arruinada por uma contraoperação que se revela pouco ética, como todas as operações de espionagem, mas na qual reside a grande oportunidade de o Circus renascer das cinzas. Brilhantemente urdido e moralmente complexo, "O Ilustre Colegial" não só constitui um fascinante retrato da espionagem pós-colonial como nos revela um mundo dilacerado pela guerra onde as fidelidades – e as vidas – são objeto de compra e venda.

 
A Ilha
Aldous Huxley

O derradeiro romance de Aldous Huxley, e contraponto utópico de "Admirável Mundo Novo", apresenta-nos Pala, uma ilha onde uma sociedade ideal, regida por crenças assentes no budismo e no hinduísmo, floresce há cento e vinte anos, atraindo inevitavelmente a inveja do mundo circundante. Está em curso uma conspiração para invadir Pala, rica em petróleo, e os acontecimentos precipitam-se quando Will Farnaby, inicialmente um agente dos conspiradores, chega à ilha. É provavelmente o livro mais desencantado de Huxley, e inscreve-se nele a firme convicção de que, entre a ganância e a avidez dos homens, comunidades pacíficas como Pala estão condenadas. Publicada em 1962, A Ilha é um espelho que permite ao homem moderno ver tudo o que está podre na sociedade e em si próprio.

 
As Armas Secretas
Julio Cortázar

Os contos que compõem As armas secretas, considerados obras-primas no género, constituem importantes marcos na escrita de Julio Cortázar. Nestes, a realidade labiríntica e obsessiva em que vive o homem contemporâneo é descrita de forma fantástica e, por vezes, alucinante, num estilo único que explora as zonas de fronteira da própria literatura. Volume que inclui, entre outros, os célebres contos As babas do diabo, adaptado ao cinema por Michelangelo Antonioni no filme "Blow-up - História de um Fotografo" e "O Perseguidor", sobre os derradeiros dias do músico de jazz Charlie Parker.

 
Ressurgir
Margaret Atwood

"Ressurgir" é o segundo romance de Margaret Atwood e nele são já visíveis os traços essenciais da sua ficção. Uma jovem mulher viaja até à remota ilha da sua infância, com o companheiro e um casal amigo, para investigar o misterioso desaparecimento do seu pai. Após a chegada à ilha, antigos segredos afloram à superfície do lago que os rodeia, com objetos nele afundados. Imersa nas suas memórias, a narradora compreende que regressar a casa é não apenas voltar a outro lugar, mas também a outro tempo. E depois de descobrir uma caverna submersa com pinturas rupestres, imagina-se em fusão anímica com a natureza. "Ressurgir" é um romance preocupado com as fronteiras da língua, da identidade nacional, da família, do sexo e dos corpos, tendo como pano de fundo um Canadá rural, transformado pelo comércio, a construção, o turismo e a engrenagem dos média.

 
Diários
George Orwell

Os diários de George Orwell (1931-1949) dão a conhecer a vida do escritor que marcou o pensamento político do século XX. Escritos ao longo da sua carreira, os onze diários que sobreviveram – sabe-se que haverá outros dois da sua permanência em Espanha guardados nos arquivos da NKVD em Moscovo – registam as suas viagens de juventude entre os mineiros e os trabalhadores migrantes, a ascensão dos regimes totalitários, o horrível drama da Segunda Guerra Mundial, bem como os acontecimentos que inspiraram as suas obras-primas: " A Quinta dos Animais" e "1984". As entradas de carácter pessoal reportam um dia-a-dia muitas vezes precário, a trágica morte da sua primeira mulher, e o declínio de Orwell, vítima de tuberculose.

 
Histórias de Roma
Enric González

Talvez Roma seja apelidada de Cidade Eterna porque o tempo a atravessa com lentidão. Caótica e simultaneamente melancólica, acumula um cepticismo de séculos, mas mantém a luminosa vivacidade do Mediterrâneo. O catalão Enric González viveu em muitas cidades ao longo da sua vida enquanto correspondente do El País, mas escreveu apenas sobre algumas, e escreveu sempre a uma distância temporal confortável, que lhe permitisse recolher as memórias e experiências que de facto importam. Este livro não é um guia turístico nem uma antologia de lugares – é um percurso pessoal por uma Roma fascinante, às vezes secreta. Nas suas páginas, o leitor encontrará uma sucessão de histórias, personagens, momentos e cenários romanos: gatos, pinturas de Caravaggio, a casa e o túmulo de Keats, a melhor pizaria da cidade, o lugar onde se toma o melhor café do mundo, burocracia, a história de um marquês perverso, voyeur, assassino e suicida, o périplo de um pacote que corre meio mundo e regressa a Roma devido à incompetência dos Correios, papas, Berlusconi, uma igreja onde ninguém se quer casar, os códigos romanos de cortesia, futebol, conspirações maçónicas, barbearias, palácios, virgens, santos e milagres.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Nada Dizer Fechar os Olhos


                                                                                      Franz Kafka
 
No fundo ou em última instância-, para se ver bem uma foto, o melhor é erguer a cabeça ou fechar os olhos. «A condição prévia da imagem é a vista», dizia Janousch a Kafka. E kafka sorria e respondia: «As pessoas fotografam coisas para as afastar do espírito. As minhas histórias são um modo de fechar os olhos.» A fotografia deve ser silenciosa (há fotos tonitruantes, dessas não gosto): não se trata de uma questão de «descrição», mas de música. A subjectividade absoluta só é atingida num estado, um esforço de silêncio (fechar os olhos é fazer falar a imagem no silêncio). A foto toca-me quando a retiro do seu «bla-bla» vulgar: Técnica, Realidade, Reportagem, Arte, etc., nada dizer, fechar os olhos, deixar que o pormenor suba sozinho à consciência afectiva.
 
Roland Barthes, A câmara clara