terça-feira, 19 de agosto de 2014

Os Rostos da Escrita




Quando, aos dezoito anos, retratei pela vez um escritor, Jorge Luís Borges, não podia sequer imaginar a aventura que se abria no meu caminho de fotógrafo. Fui o primeiro a surpreender-me ao descobrir, muitos anos depois, que a magia dessa fotografia dependia do halo de luz que parecia voltear em torno de uma mão anónima. Mais tarde teria tempo de confirmar que cada foto é um salto para o desconhecido, em que factores imprevisíveis modelam e matizam uma identidade.
Ao sair da Argentina, partilhei viagens e atribulações com amigos escritores e percebi, entre outras coisas, que também o seu trabalho oscila entre o que queriam dizer e o que as palavras lhes permitem.
O meu encontro com Luis Sepúlveda (e depois dele com tantos escritores) confirmou a intuição de que a minha vida teria a ver com duas margens do Atlântico. Além disso, Sepúlveda, com o seu talento para fazer de cada pessoa e de cada história uma experiência fundamental e irrepetível, deixou-me perceber que era isso também que eu pretendia: que cada foto fosse um momento único e que nesse momento coubesse, por inteiro, o próprio rosto da escrita.

Daniel Mordzinski, Os Rostos da Escrita                                                 



segunda-feira, 18 de agosto de 2014

O Tempo Morto É Um Bom Lugar




«O Tempo Morto é um Bom Lugar – título paradoxal – , último romance de Manuel Jorge Marmelo, escritor distinguido com o Prémio Literário Correntes d’Escritas 2013, que, de certo modo, consagrou a sua obra como uma das mais importantes do universo romanesco português dos últimos vinte anos. […]
À componente realista, os últimos romances de Manuel Jorge Marmelo acrescentam a vertente de crítica e denúncia sociais, um pouco ao modo de Rui Zink. Neste sentido, atacando os atuais padrões culturais e políticos da sociedade portuguesa, os seus romances não são eticamente neutros nem culturalmente asséticos. Pelo contrário, não se tornando uma arma política, intentam, por via da sátira, da ironia, despertar a consciência crítica do leitor face à existência de uma sociedade profundamente desigual e injusta. Destinam-se, portanto, a contaminar a consciência do leitor do sentimento de revolta e, se possível, de sedição.»
 Miguel Real, Jornal de Letras
 
 
Galardoado recentemente com o Prémio Correntes d’ Escritas/Casino da Póvoa 2014, pelo romance Uma Mentira Mil Vezes Repetida, M.J. Marmelo lança um extraordinário romance em que temas fundamentais do nosso tempo são tratados com a mais apurada mestria literária.
Depois de acordar ao lado do cadáver de Soraya - a mestiça belíssima, estrela televisiva, com quem mantinha uma relação íntima a pretexto de lhe escrever a autobiografia -, o jornalista desempregado Herculano Vermelho entrega-se à polícia e é preso. Não tem memória de nada, nem de que possa ter sido ele a matar a jovem mulher, mas a prisão parece-lhe ser o lugar ideal, o espaço de sossego e de liberdade (sem contas para pagar, sem apresentações regulares no centro de emprego, sem pressões de qualquer espécie), para passar a sua vida em revista, a relação com as mulheres, e escrever a autobiografia da rapariga morta.
 
O Tempo Morto É Um Bom Lugar, Manuel Jorge Marmelo, Quetzal, 2014.
 

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

de pé

 
Fotografia Bruce Davidson
 
 
"Não haver alternativa senão ficar de pé."

 Samuel Beckett


quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Lá Fora




"Lá fora", o guia para descobrir a natureza, editado pelo Planeta Tangerina:

 lá fora: nuvens e estrelas, árvores e flores, rochas e praias, aves, répteis ou mamíferos.
Se estivermos atentos, a natureza pode estar bem próxima, pronta a espantar-nos com a sua beleza e com todas as perguntas que nos leva a fazer.
O que esperamos então?
Saltemos do sofá e iniciemos a exploração!

 
Criado com a colaboração de uma equipa de especialistas portugueses, este livro pretende despertar a curiosidade sobre a fauna, a flora e outros aspetos do mundo natural que podem ser observados em Portugal. Inclui também propostas de atividades e muitas ilustrações, para ajudar toda a família a ganhar balanço, sair de casa e descobrir – ou simplesmente contemplar – todo o mundo incrível que existe "Lá fora".

 

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Porquê ir?




Verdadeiro thriller político, com a medina de Fez em pano do fundo e os tempos explosivos do movimento nacionalista marroquino. Embora todos os romances de Paul Bowles espelhem o encontro e o conflito entre civilizações, neste, muito menos subjetivo, a aguda clivagem entre a cultura árabe e a do colonizador francês é profundamente explorada, com grande detalhe e intensidade. A forte tenção política e social que enquadra a intriga - protagonizada por um americano comunista, um rapazinho analfabeto e uma atraente mulher ocidental -, o ambiente de conspiração nacionalista e a infinidade de matizes, que restituem a milenar cidade de Fez à sua complexidade e vida, tornam A Casa da Aranha num marco na obra de Paul Bowles.
A Casa da Aranha, Paul Bowles, Quetzal, 2014.

«Porquê ir? A resposta é que num quando um homem já lá esteve e sofreu o batismo da solidão não consegue evitá-lo. Caso alguma vez tenha estado sob o feitiço do vasto, luminoso e silencioso território, nenhum outro lugar é suficientemente forte para ele, nenhumas outras cercanias conseguem propiciar a supremamente satisfatória sensação de existir no meio de algo que é absoluto. Ele voltará lá, sejam quais forem os custos em conforto e em dinheiro, porque o absoluto não tem preço.»

Entre a imensa e majestosa solidão do Saara e a tranquilidade doméstica da sua ilha tropical no Ceilão - propriedade extravagante e selvagem que manteve durante alguns anos na costa de Weligama -, Paul Bowles percorreu incessantemente os caminhos do globo terrestre. Uma curiosidade inesgotável por todas as paisagens humanas e a atração por dois tipos antitéticos de paisagem geográfica, o deserto e a floresta tropical, alimentaram um fluxo constante de viagens, em que Bowles alternou a deslocação com a permanência em todos esses lugares que quis conhecer e onde escolheu viver por períodos maiores ou menores. Paul Bowles é um dos grandes viajantes eruditos do século XX e o seu legado - musical e literário - sedimenta, em toda a sua originalidade, sofisticação e versatilidade, o património cultural universal.
Viagem, livro inédito e o primeiro de uma série que a Quetzal dedica a Paul Bowles, reúne relatos das suas aventurosas deambulações pela Europa, África, América Central e Ásia.
Viagens, Paul Bowles, Quetzal, 2013.


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

A Rainha da Neve




“Escolhi de facto abrir o romance mesmo antes de o povo americano (por uma pequena e duvidosa maioria, mas ainda assim) reeleger o homem que, durante o seu primeiro mandato, destruíra a economia e declarara guerra ao país errado, e depois pus o livro a acabar quatro anos mais tarde, quando o povo americano elegeu um afro-americano de óbvia inteligência e força moral na verdade, o oposto absoluto de G.W. Bush. Suspeito que as personagens teriam sentimentos contraditórios quando aos seis anos de Obama na presidência. Ele fez coisas inequivocamente boas. Contribuiu para avanços essenciais nos direitos dos homossexuais, das mulheres, das populações negras. Ele avançou (mesmo se com resultados ainda não muito sólidos) co um programa nacional de cuidados de saúde. Por outro lado, a prisão de Guantánamo continua a funcionar. Há dornes a aniquilar festas de casamento no Paquistão. A National Security Administration foi apanhada a espiar cidadãos americanos. Mas também é verdade que ele encontrou obstáculos absurdos por parte do Senado, muitas vezes sem outra razão que não seja a de desgastar, por pura maldade, a fé dos americanos em Obama. Ou seja, ser Presidente dos EUA acaba por ser um trabalho extremamente difícil. O que as personagens do meu livro compreenderiam, como eu compreendo.”

Michael Cunningham, entrevista a José Mário Silva, Atual, Expresso

O romance luminoso de Michael Cunningham começa com uma visão. Estamos em Novembro de 2004 e Barrett Meeks, tendo perdido um amor uma vez mais, atravessa o Central Park quando se sente impelido a olhar para o céu. Ali, avista uma luz pálida e translúcida que parece olhar para ele de uma forma inequivocamente divina. Barrett não acredita em visões – nem em Deus – mas não pode negar o que viu e sentiu.

Ao mesmo tempo, Tyler, o irmão mais velho de Barrett, músico em busca de inspiração, tenta – sem sucesso – escrever uma canção de casamento para Beth, a sua noiva gravemente doente. Tyler está determinado a escrever uma canção que não seja meramente uma balada sentimental, mas uma expressão duradoura de amor.

Cunningham segue os irmãos Meek nos seus diferentes percursos em busca da transcendência. Numa prosa subtil e lúcida, demonstra uma profunda empatia pelas personagens torturadas e uma compreensão singular daquilo que constitui o âmago da alma humana.

A Rainha da Neve, obra bela e comovente, cómica e trágica, vem de novo provar que Michael Cunningham é um dos grandes romancistas da sua geração

A Rainha da Neve, Michael Cunningham, Gradiva, 2014

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Chet Baker Pensa Na Sua Arte




É meia-noite, em fundo toca Bela Lugosi’s Dead, do grupo Nouvelle Vague, e nem sequer a música me impede de pensar nessa realidade «bárbara, brutal, muda, sem significado, das coisas» de que falava Ortega. Olho pela janela e vejo a vida inerte, e parece-me que esse tipo de realidade bárbara e muda é especialmente percebida hoje por quem - como já Musil pensava - acha que no mundo não existe já a simplicidade inerente à ordem narrativa, essa ordem simples que consiste em poder dizer às vezes: «Depois de aquilo ter acontecido aconteceu isto, e depois aconteceu outra coisa, etecetera».
Tranquiliza-nos a simples sequência, a ilusória sucessão de factos.

Chet Baker Pensa Na Sua Arte, Enrique Vila-Matas, Teodolito 2013.


As Armas Secretas - 2014 - centenário do nascimento de Julio Cortázar


"Entre as muitas formas de combater o nada, uma das melhores é tirar fotografias, actividade que devia ser ensinada, desde cedo, às crianças, pois exige disciplina, educação estética, bom olho e dedos firmes."

Os contos que compõem As armas secretas, considerados obras-primas no género, constituem importantes marcos na escrita de Julio Cortázar. Nestes, a realidade labiríntica e obsessiva em que vive o homem contemporâneo é descrita de forma fantástica e, por vezes, alucinante, num estilo único que explora as zonas de fronteira da própria literatura.

Volume que inclui, entre outros, os célebres contos As babas do diabo, adaptado ao cinema por Michelangelo Antonioni no filme Blow-up - história de um fotografo e O perseguidor, sobre os derradeiros dias do músico de jazz Charlie Parker


As Armas Secretas, Julio Cortázar, Cavalo de Ferro 2014

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

O Homem Mais Procurado


O Homem Mais Procurado" adapta ao grande ecrã a aclamada obra de John le Carré que, por sua vez, se inspira na história verídica de Murat Kurnaz. Cidadão turco e residente legal na Alemanha, foi capturado pelas autoridades norte-americanas – com conhecimento do Governo germânico – e levado para a base militar de Kandahar, no Afeganistão, seguindo posteriormente para a prisão de Guantánamo (na base naval norte-americana em Cuba). Durante o processo, ficou provado que Kurnaz esteve preso durante cinco anos sob nenhuma acusação legal. A sua libertação, em Agosto de 2006, aconteceu depois de um escândalo internacional. Aqui

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

George Smiley, o vintage de Le Carré


 
 
Eu e o público sabemos
O que na escola toda a criança aprende:
Aqueles a quem se faz mal
Fazendo o mal retribuem
 W.H. ADEN
 
 
A toupeira foi eliminada, mas a devastação que deixou na sua esteira depauperou gravemente os serviços secretos britânicos. Investido da chefia do Circus, numa altura em que a organização se encontra altamente comprometida, George Smiley lança-se numa campanha que visa pôr a descoberto aquilo que o Centro de Moscovo mais deseja ocultar, obstinando-se em reunir provas de que Karla prepara uma grande operação no Extremo Oriente. Talvez por aí se pudesse iniciar a reconstrução do Circus. Mas, para isso, são necessários agentes livres de qualquer suspeita, indivíduos que a toupeira não tenha detetado ou conhecido. E Smiley acredita ter encontrado o homem certo: um aristocrata tão digno e frustrado como a própria Grã- Bretanha; um ilustre colegial cuja respeitabilidade poderá ser arruinada por uma contraoperação que se revela pouco ética, como todas as operações de espionagem, mas na qual reside a grande oportunidade de o Circus renascer das cinzas.

Brilhantemente urdido e moralmente complexo, O Ilustre Colegial não só constitui um fascinante retrato da espionagem pós-colonial como nos revela um mundo dilacerado pela guerra onde as fidelidades - e as vidas - são objeto de compra e venda.
 
 O Ilustre Colegial, John Le Carré, Dom. Quixote, 2014.