quarta-feira, 30 de julho de 2014
Olhos Azuis Cabelos Preto
«É a história de um amor, o maior e mais terrível sobre que me foi dado escrever. Eu sei-o. Qualquer um pode ficar a sabê-lo por si.
Trata-se de um amor que não é nomeado nos romances e que também não é nomeado por aqueles que o vivem. De um sentimento que de certo modo não tem ainda o seu vocabulário, os seus hábitos e rituais. Trata-se de um amor perdido. Perdido como perdição.
Leiam o livro, leiam-no mesmo que de início o detestem. Já nada temos a perder, nem eu dos leitores, nem os leitores de mim. Leiam tudo. Leiam todas as distâncias que vos são indicadas, as dos corredores que rodeiam a história e a acalmam e nos concedem o tempo de os percorrer. Continuem a ler e de súbito terão atravessado a história, os seus risos, a sua agonia, os seus desertos.
Sinceramente vossa.
Duras»
Olhos Azuis Cabelos Pretos, Marguerite Duras, Relógio D'Água, 2014.
segunda-feira, 28 de julho de 2014
George Orwell Diários
A 28.7.39
Assuntos SociaisPelos vistos, o governo está a considerar subir a pensão de velhice, sem dúvida a pensar nas eleições gerais.
George Orwell, Diários, D. Quixote, 2014.
Os diários de George Orwell (1931-1949) dão a conhecer a
vida do escritor que marcou o pensamento político do século XX.
Escritos ao longo da sua carreira, os onze diários que sobreviveram - sabe-se que haverá outros dois da sua permanência em Espanha guardados nos arquivos da NKVD em Moscovo - registam as suas viagens de juventude entre os mineiros e os trabalhadores migrantes, a ascensão dos regimes totalitários, o horrível drama da Segunda Guerra Mundial, bem como os acontecimentos que inspiraram as suas obras-primas: O Triunfo dos Porcos / A Quinta dos Animais e 1984.
As entradas de carácter pessoal reportam um dia-a-dia muitas vezes precário, a trágica morte da sua primeira mulher, e o declínio de Orwell, vítima de tuberculose.
Escritos ao longo da sua carreira, os onze diários que sobreviveram - sabe-se que haverá outros dois da sua permanência em Espanha guardados nos arquivos da NKVD em Moscovo - registam as suas viagens de juventude entre os mineiros e os trabalhadores migrantes, a ascensão dos regimes totalitários, o horrível drama da Segunda Guerra Mundial, bem como os acontecimentos que inspiraram as suas obras-primas: O Triunfo dos Porcos / A Quinta dos Animais e 1984.
As entradas de carácter pessoal reportam um dia-a-dia muitas vezes precário, a trágica morte da sua primeira mulher, e o declínio de Orwell, vítima de tuberculose.
terça-feira, 10 de junho de 2014
A Morte Sem Mestre
«A Morte sem Mestre» é o mais recente livro de poesia de Herberto Helder. Escrito em 2013 e integralmente inédito, «Tudo quanto neste livro possa parecer acidental é de facto intencional» - «[...] peço por isso que um qualquer erro de ortografia ou sentido / seja um grão de sal aberto na boca do bom leitor impuro.», escreve-nos o autor.
Herberto Helder tem por hábito encadernar os seus livros com papel de embrulho castanho, escrevendo por fora com caneta de feltro vermelha o título e o nome do autor. A sobrecapa da presente edição evoca esse hábito, reproduzindo a sua caligrafia. É ainda incluído um CD, com cinco poemas lidos por Herberto.
A Morte sem Mestre de Herberto Helder, Porto Editora, 2014.
segunda-feira, 28 de abril de 2014
Desigualdades no Sistema Educativo
Lançamento na Livraria Solmar no próximo dia 2 Maio, pelas 18h00, " Desigualdades no Sistema Educativo", organizado por Ana Matias Diogo e Fernando Diogo.
O livro será apresentado pela Doutora Gilberta Rocha e Dra. Carmo Rodeia.
Nas últimas décadas o sistema educativo português foi palco
de uma extraordinária evolução quantitativa, abrindo-se sucessivamente a novos
grupos sociais e a faixas etárias mais alargadas. Esta evolução não se
traduziu, contudo, numa redução significativa das diferentes formas de
desigualdades sociais face à escola. Persistem elevados índices de insucesso e
de abandono, particularmente concentrados em determinados momentos do percurso
escolar, grupos sociais, regiões e escolas, registando-se, por outro lado, uma
multiplicidade de trajetórias que condensam escolhas muito desiguais, no quadro
de uma oferta de ensino crescentemente complexa.
Desigualdades no Sistema Educativo, Ana Matias Diogo e Fernando Diogo, Editora Mundos Sociais.
domingo, 27 de abril de 2014
lamento para a língua portuguesa
Vasco Graça Moura 1942 - 2014
não és mais do que as outras, mas és nossa,
e crescemos em ti. nem se imagina
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, mera aspirina,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vida nova e repentina.
mas é o teu país que te destroça,
o teu próprio país quer-te esquecer
e a sua condição te contamina
e no seu dia-a-dia te assassina.
mostras por ti o que lhe vais fazer:
vai-se por cá mingando e desistindo,
e desde ti nos deitas a perder
e fazes com que fuja o teu poder
enquanto o mundo vai de nós fugindo:
ruiu a casa que és do nosso ser
e este anda por isso desavindo
connosco, no sentir e no entender,
mas sem que a desavença nos importe
nós já falamos nem sequer fingindo
que só ruínas vamos repetindo.
talvez seja o processo ou o desnorte
que mostra como é realidade
a relação da língua com a morte,
o nó que faz com ela e que entrecorte
a corrente da vida na cidade.
mais valia que fossem de outra sorte
em cada um a força da vontade
e tão filosofais melancolias
nessa escusada busca da verdade,
e que a ti nos prendesse melhor grade.
bem que ao longo do tempo ensurdecias,
nublando-se entre nós os teus cristais,
e entre gentes remotas descobrias
o que não eram notas tropicais
mas coisas tuas que não tinhas mais,
perdidas no enredar das nossas vias
por desvairados, lúgubres sinais,
mísera sorte, estranha condição,
mas cá e lá do que eras tu te esvais,
por ser combate de armas desiguais.
matam-te a casa, a escola, a profissão,
a técnica, a ciência, a propaganda,
o discurso político, a paixão
de estranhas novidades, a ciranda
de violência alvar que não abranda
entre rádios, jornais, televisão.
e toda a gente o diz, mesmo essa que anda
por tal degradação tão mais feliz
que o repete por luxo e não comanda,
com o bafo de hienas dos covis,
mais que uma vela vã nos ventos panda
cheia do podre cheiro a que tresanda.
foste memória, música e matriz
de um áspero combate: apreender
e dominar o mundo e as mais subtis
equações em que é igual a xis
qualquer das dimensões do conhecer,
dizer de amor e morte, e a quem quis
e soube utilizar-te, do viver,
do mais simples viver quotidiano,
de ilusões e silêncios, desengano,
sombras e luz, risadas e prazer
e dor e sofrimento, e de ano a ano,
passarem aves, ceifas, estações,
o trabalho, o sossego, o tempo insano
do sobressalto a vir a todo o pano,
e bonanças também e tais razões
que no mundo costumam suceder
e deslumbram na só variedade
de seu modo, lugar e qualidade,
e coisas certas, inexactidões,
venturas, infortúnios, cativeiros,
e paisagens e luas e monções,
e os caminhos da terra a percorrer,
e arados, atrelagens e veleiros,
pedacinhos de conchas, verde jade,
doces luminescências e luzeiros,
que podias dizer e desdizer
no teu corpo de tempo e liberdade.
agora que és refugo e cicatriz
esperança nenhuma hás-de manter:
o teu próprio domínio foi proscrito,
laje de lousa gasta em que algum giz
se esborratou informe em borrões vis.
de assim acontecer, ficou-te o mito
de haver milhões que te uivam triunfantes
na raiva e na oração, no amor, no grito
de desespero, mas foi noutro atrito
que tu partiste até as próprias jantes
nos estradões da história: estava escrito
que iam desconjuntar-te os teus falantes
na terra em que nasceste, eu acredito
que te fizeram avaria grossa.
não rodarás nas rotas como dantes,
quer murmures, escrevas, fales, cantes,
mas apesar de tudo ainda és nossa,
e crescemos em ti. nem imaginas
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, vãs aspirinas,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vidas novas repentinas.
enredada em vilezas, ódios, troça,
no teu próprio país te contaminas
e é dele essa miséria que te roça.
mas com o que te resta me iluminas.
Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"
e crescemos em ti. nem se imagina
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, mera aspirina,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vida nova e repentina.
mas é o teu país que te destroça,
o teu próprio país quer-te esquecer
e a sua condição te contamina
e no seu dia-a-dia te assassina.
mostras por ti o que lhe vais fazer:
vai-se por cá mingando e desistindo,
e desde ti nos deitas a perder
e fazes com que fuja o teu poder
enquanto o mundo vai de nós fugindo:
ruiu a casa que és do nosso ser
e este anda por isso desavindo
connosco, no sentir e no entender,
mas sem que a desavença nos importe
nós já falamos nem sequer fingindo
que só ruínas vamos repetindo.
talvez seja o processo ou o desnorte
que mostra como é realidade
a relação da língua com a morte,
o nó que faz com ela e que entrecorte
a corrente da vida na cidade.
mais valia que fossem de outra sorte
em cada um a força da vontade
e tão filosofais melancolias
nessa escusada busca da verdade,
e que a ti nos prendesse melhor grade.
bem que ao longo do tempo ensurdecias,
nublando-se entre nós os teus cristais,
e entre gentes remotas descobrias
o que não eram notas tropicais
mas coisas tuas que não tinhas mais,
perdidas no enredar das nossas vias
por desvairados, lúgubres sinais,
mísera sorte, estranha condição,
mas cá e lá do que eras tu te esvais,
por ser combate de armas desiguais.
matam-te a casa, a escola, a profissão,
a técnica, a ciência, a propaganda,
o discurso político, a paixão
de estranhas novidades, a ciranda
de violência alvar que não abranda
entre rádios, jornais, televisão.
e toda a gente o diz, mesmo essa que anda
por tal degradação tão mais feliz
que o repete por luxo e não comanda,
com o bafo de hienas dos covis,
mais que uma vela vã nos ventos panda
cheia do podre cheiro a que tresanda.
foste memória, música e matriz
de um áspero combate: apreender
e dominar o mundo e as mais subtis
equações em que é igual a xis
qualquer das dimensões do conhecer,
dizer de amor e morte, e a quem quis
e soube utilizar-te, do viver,
do mais simples viver quotidiano,
de ilusões e silêncios, desengano,
sombras e luz, risadas e prazer
e dor e sofrimento, e de ano a ano,
passarem aves, ceifas, estações,
o trabalho, o sossego, o tempo insano
do sobressalto a vir a todo o pano,
e bonanças também e tais razões
que no mundo costumam suceder
e deslumbram na só variedade
de seu modo, lugar e qualidade,
e coisas certas, inexactidões,
venturas, infortúnios, cativeiros,
e paisagens e luas e monções,
e os caminhos da terra a percorrer,
e arados, atrelagens e veleiros,
pedacinhos de conchas, verde jade,
doces luminescências e luzeiros,
que podias dizer e desdizer
no teu corpo de tempo e liberdade.
agora que és refugo e cicatriz
esperança nenhuma hás-de manter:
o teu próprio domínio foi proscrito,
laje de lousa gasta em que algum giz
se esborratou informe em borrões vis.
de assim acontecer, ficou-te o mito
de haver milhões que te uivam triunfantes
na raiva e na oração, no amor, no grito
de desespero, mas foi noutro atrito
que tu partiste até as próprias jantes
nos estradões da história: estava escrito
que iam desconjuntar-te os teus falantes
na terra em que nasceste, eu acredito
que te fizeram avaria grossa.
não rodarás nas rotas como dantes,
quer murmures, escrevas, fales, cantes,
mas apesar de tudo ainda és nossa,
e crescemos em ti. nem imaginas
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, vãs aspirinas,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vidas novas repentinas.
enredada em vilezas, ódios, troça,
no teu próprio país te contaminas
e é dele essa miséria que te roça.
mas com o que te resta me iluminas.
Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"
quinta-feira, 24 de abril de 2014
João de Melo Capitão Salgueiro Maia
Preciso de o dizer e o repetir baixinho, de lentamente o repetir dentro de mim, baixinho e em presença dos meus sentidos, a fim de que tudo deixe de ser apenas um sonho e se transforme pouco a pouco em realidade. Sei que devo entrar de madrugada na cidade adormecida, contornar rotundas e passar os cruzamentos que me levam para o centro, e pensar que tudo o que está a acontecer-me vai a caminho da verdade, sob o imperativo de quem ordena e exige que chegue a hora de o tempo e o sonho serem só isso - tempo e sonho de um país que se perdeu de si e da sua vontade.
Os homens sob meu comando não são mais que sombras de si mesmos; a arma que empunham, um engenho fora de combate; os carros, uns modestos inventos nossos, brinquedos que todos, um dia, sonhámos - na memória daquelas guerras em que também eu fui um homem anterior, em tudo diferente de mim. O que sou agora é um exercício, uma parte experiente, um resumo do que outrora fui: o guerreiro tímido e assustado que no corpo traz o medo-sonho da missão noturna que os queridos companheiros me confiaram e que comigo discutiram e planearam com o secreto e devido pormenor. Tendo-me perguntado se queria livremente embarcar na noite temerária do golpe militar, eu de pronto lhes disse que sim, contassem comigo; para trabalhos, perigos e segredos em que nem eu neles acreditasse ou deles viesse a ter memória.
Eles assim fizeram. Vim à cidade para tomar a cidade. Visito ruas e casas para vigiar o sono, o silêncio, a tranquilidade das ruas e das casas. Ocuparei posições nos bairros antigos de Lisboa, cercando as ruas baixas que vão do Rossio ao movimento secreto dos barcos no rio; pelos vultos das sentinelas e pelos passos dos agentes duplos, irei até ao fundo da Grande Noite portuguesa que dura - disseram-me os mais velhos- há 48 anos soturnos, ao longo dos quais todos fomos sendo postos de parte, fora da vontade, da raiz, da moral e da história.
E mais me disseram os queridos companheiros que devia dispersar por ali os homens certos e os comandos por mim escolhidos, a cortar o trânsito das ruas e a vigiar os barcos que na altura vogassem no rio - com o que se poria a cidade suspensa, enchendo-se de boatos e vozes dos próprios remorsos, a um tempo tranquila e em estado de angústia. Mandarei apontar ao Tejo os dois formidáveis canhões da guarnição; guardarem as esquinas os meus soldados mais afoitos e experientes; e emboscarem-se, na sombra dos muros, os rostos lívidos e determinados. Os demais, por mim chamados e escolhidos, subirão comigo às zonas do perigo, onde se cumprirá uma única de todas as vontades em confronto.
É muito simples a minha ideia: cercar o quartel de guarda nacional, dar-lhe um ultimato para que se renda e me entregue as suas armas, e depois ficar ali a encher-me de paciência, fome, desconforto, sono e frio, atento ao que der e vier. Quando me meti nos trabalhos desta missão, jurei que nela iria até ao fim. Empenhei nisso a palavra e a vida. Sabia-me sujeito tanto a perder-me como a salvar-me - sendo-me claramente dito que podia tratar-se de uma viagem longa, louca e sem regresso, feita daquele alvoroço que antecede o definitivo e fatal esquecimento. O qual só dá passagem para onde a morte é escura e irreversível. Por isso me despedi da mulher e das filhas. Disposto a morrer por elas, eis-me contra isto, para melhor ser por isto. Faz sentido a gente morrer por algo que ame; eu fui sempre, do primeiro dia da infância até esta madrugada de 25 de Abril de 1974, preparado tanto para o amor como para a morte. "Se preciso for" - sublinharam os queridos companheiros - ,"alinhas os carros de combate no Largo do Carmo, apontas os canhões aos portados e à fachada da fortificação, dás ordem de fogo aos teus, e que haja choro e ranger de dentes lá dentro - e gritos e braços erguidos, cá fora, nos vivas à liberdade; e vozes saídas da clandestinidade para berrarem bem alto que o povo unido jamais será vencido."
Pode ser que eu morra varrido por uma rajada de metralhadora ou pela bala do atirador solitário que ficará para contar a história. Ainda assim, morrerei a meio do maior de todos os gestos da minha vida. Mas pode acontecer o contrário de tudo isso: vir um mar de povo, erguerem-se as vozes, encherem-se de flores os canos das espingardas e não ser preciso matar nem morrer, nem tomar de assalto a corte, nem dar voz de prisão ao rei e aos seus vassalos. Dizem que em missões como esta vem sempre alguém dizer que o rei vai nu e que o reino velho, se lhe dão os ventos da agonia, logo de seus fios e cerzidos se desprende.
Preveniram-me os queridos e honestos companheiros contra a loucura e o desespero da polícia política, sangrentos cães beligerantes do ditador. Eu sei que, para eles, defender o reino não é só uma questão de brio, mas uma ideia de grandeza proporcional à crueldade e à estupidez do todo-poderoso. Vim, na condição de oficial e cavalheiro, para dar voz de prisão aos ditadores, não para os julgar ou abater. Oficial e cavalheiro que sou, entrarei nos largos portões do Carmo, e a ninguém saudarei pelo caminho até estar certo de o fazer com a dignidade que passa do vencedor ao vencido. Quando chegar à presença do todo-poderoso, acederei a fazer-lhe uma pequena mesura, uma discreta vénia de cabeça, como se ainda pudesse confortá-lo com o olhar, antes de lhe exigir que se renda e se confie aos meus cuidados. Não que goste dele ou tenha pena da sua velhice, ou me mova qualquer piedade sobre as injustiças e os danos que ao povo causou - mas tratá-lo-ei sempre por Vossa Majestade ou por Vossa Excelência.
Se me perguntar de onde venho e a quem devo obediência, qual a minha condição e como me chamo, responderei a Sua Excelência que venho de Santarém, às ordens do Movimento das Forças Armadas, tenho o posto de capitão e o meu nome é Salgueiro Maia.
Os homens sob meu comando não são mais que sombras de si mesmos; a arma que empunham, um engenho fora de combate; os carros, uns modestos inventos nossos, brinquedos que todos, um dia, sonhámos - na memória daquelas guerras em que também eu fui um homem anterior, em tudo diferente de mim. O que sou agora é um exercício, uma parte experiente, um resumo do que outrora fui: o guerreiro tímido e assustado que no corpo traz o medo-sonho da missão noturna que os queridos companheiros me confiaram e que comigo discutiram e planearam com o secreto e devido pormenor. Tendo-me perguntado se queria livremente embarcar na noite temerária do golpe militar, eu de pronto lhes disse que sim, contassem comigo; para trabalhos, perigos e segredos em que nem eu neles acreditasse ou deles viesse a ter memória.
Eles assim fizeram. Vim à cidade para tomar a cidade. Visito ruas e casas para vigiar o sono, o silêncio, a tranquilidade das ruas e das casas. Ocuparei posições nos bairros antigos de Lisboa, cercando as ruas baixas que vão do Rossio ao movimento secreto dos barcos no rio; pelos vultos das sentinelas e pelos passos dos agentes duplos, irei até ao fundo da Grande Noite portuguesa que dura - disseram-me os mais velhos- há 48 anos soturnos, ao longo dos quais todos fomos sendo postos de parte, fora da vontade, da raiz, da moral e da história.
E mais me disseram os queridos companheiros que devia dispersar por ali os homens certos e os comandos por mim escolhidos, a cortar o trânsito das ruas e a vigiar os barcos que na altura vogassem no rio - com o que se poria a cidade suspensa, enchendo-se de boatos e vozes dos próprios remorsos, a um tempo tranquila e em estado de angústia. Mandarei apontar ao Tejo os dois formidáveis canhões da guarnição; guardarem as esquinas os meus soldados mais afoitos e experientes; e emboscarem-se, na sombra dos muros, os rostos lívidos e determinados. Os demais, por mim chamados e escolhidos, subirão comigo às zonas do perigo, onde se cumprirá uma única de todas as vontades em confronto.
É muito simples a minha ideia: cercar o quartel de guarda nacional, dar-lhe um ultimato para que se renda e me entregue as suas armas, e depois ficar ali a encher-me de paciência, fome, desconforto, sono e frio, atento ao que der e vier. Quando me meti nos trabalhos desta missão, jurei que nela iria até ao fim. Empenhei nisso a palavra e a vida. Sabia-me sujeito tanto a perder-me como a salvar-me - sendo-me claramente dito que podia tratar-se de uma viagem longa, louca e sem regresso, feita daquele alvoroço que antecede o definitivo e fatal esquecimento. O qual só dá passagem para onde a morte é escura e irreversível. Por isso me despedi da mulher e das filhas. Disposto a morrer por elas, eis-me contra isto, para melhor ser por isto. Faz sentido a gente morrer por algo que ame; eu fui sempre, do primeiro dia da infância até esta madrugada de 25 de Abril de 1974, preparado tanto para o amor como para a morte. "Se preciso for" - sublinharam os queridos companheiros - ,"alinhas os carros de combate no Largo do Carmo, apontas os canhões aos portados e à fachada da fortificação, dás ordem de fogo aos teus, e que haja choro e ranger de dentes lá dentro - e gritos e braços erguidos, cá fora, nos vivas à liberdade; e vozes saídas da clandestinidade para berrarem bem alto que o povo unido jamais será vencido."
Pode ser que eu morra varrido por uma rajada de metralhadora ou pela bala do atirador solitário que ficará para contar a história. Ainda assim, morrerei a meio do maior de todos os gestos da minha vida. Mas pode acontecer o contrário de tudo isso: vir um mar de povo, erguerem-se as vozes, encherem-se de flores os canos das espingardas e não ser preciso matar nem morrer, nem tomar de assalto a corte, nem dar voz de prisão ao rei e aos seus vassalos. Dizem que em missões como esta vem sempre alguém dizer que o rei vai nu e que o reino velho, se lhe dão os ventos da agonia, logo de seus fios e cerzidos se desprende.
Preveniram-me os queridos e honestos companheiros contra a loucura e o desespero da polícia política, sangrentos cães beligerantes do ditador. Eu sei que, para eles, defender o reino não é só uma questão de brio, mas uma ideia de grandeza proporcional à crueldade e à estupidez do todo-poderoso. Vim, na condição de oficial e cavalheiro, para dar voz de prisão aos ditadores, não para os julgar ou abater. Oficial e cavalheiro que sou, entrarei nos largos portões do Carmo, e a ninguém saudarei pelo caminho até estar certo de o fazer com a dignidade que passa do vencedor ao vencido. Quando chegar à presença do todo-poderoso, acederei a fazer-lhe uma pequena mesura, uma discreta vénia de cabeça, como se ainda pudesse confortá-lo com o olhar, antes de lhe exigir que se renda e se confie aos meus cuidados. Não que goste dele ou tenha pena da sua velhice, ou me mova qualquer piedade sobre as injustiças e os danos que ao povo causou - mas tratá-lo-ei sempre por Vossa Majestade ou por Vossa Excelência.
Se me perguntar de onde venho e a quem devo obediência, qual a minha condição e como me chamo, responderei a Sua Excelência que venho de Santarém, às ordens do Movimento das Forças Armadas, tenho o posto de capitão e o meu nome é Salgueiro Maia.
João de Melo http://visao.sapo.pt/gen.pl?sid=vs.sections/25193
quinta-feira, 17 de abril de 2014
Gabriel García Márquez 1927-2014
"Então deu outro salto para antecipar às prediçoes e ver a data e as circunstâncias da sua morte. No entanto, antes de chegar ao verso final, já tinha percebido que não sairia nunca desse quarto, pois estava previsto que a cidade dos espelhos (ou das miragens) seria arrasada pelo vento e desterrada da memória dos homens no momento em que Aureliano Babilonia acabasse de decifrar os pergaminhos, e que tudo o que neles estava escrito era irrepetível desde sempre e para sempre, porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportinidade sobre a Terra."
FIM
terça-feira, 8 de abril de 2014
Políticas para a Empregabilidade de Rui Bettencourt
Num momento em que o desemprego atrai enormes atenções e fortes preocupações, levando a que a procura de respostas públicas a este problema seja um desígnio central de qualquer projeto de sociedade ou discurso político, as políticas para o emprego necessitariam passar por um claro alargamento dos seus perímetros de atuação, visar uma recentragem nas pessoas e introduzir uma abordagem prospetiva bem como uma operacionalização regional.
Assim, as políticas ativas para a empregabilidade mudam a natureza da intervenção das políticas públicas: da intervenção do Estado para manter um posto de trabalho, desliza-se para a intervenção do Estado para dotar um cidadão de empregabilidade, ou seja, de competências pertinentes para a competitividade.
O autor procura e analisa, através de uma abordagem sistémica, políticas para a empregabilidade, considerando-as como uma terceira geração de políticas de emprego, na sequência da evolução do pensamento económico que visa privilegiar o investimento na educação e que culmina com as teorias de desenvolvimento endógeno de economistas modernos como Philippe Aghion. As políticas aqui descritas caracterizam-se por agir junto das pessoas quer em antecipação do mercado de trabalho – introduzindo a prospetiva estratégica – quer em retificação das necessidades da economia através da educação ao longo da vida.
Defendendo que a empregabilidade deve situar-se muito para além das clássicas políticas de emprego, o autor propõe uma arquitetura de intervenção num perímetro de atuação alargado, pois incidindo sobre os estudantes, os jovens sem educação, formação ou emprego, os NEET – para os quais a resposta é o grande desafio para as metas da Europa 2020 -, os trabalhadores, os inativos e os desempregados.
Políticas para a Empregabilidade, Rui Bettencourt, Actual 2014.
sábado, 29 de março de 2014
O último adeus ao império
O último adeus ao
império
...Olhou para o mar e jurou, nunca mais ninguém me
expulsa de lado nenhum, esta vai ter de ser a minha terra.
Dulce Maria Cardoso, O Retorno
Vamberto Freitas
Vamos celebrar em poucos dias os 40 anos do 25 de
Abril – a libertação de uns e a dor de outros. Não haverá nada de mais cruel na
reestruturação revolucionária de uma sociedade do que esquecer algumas das suas
vidas que mais sofreram com tais vendavais. Repito aqui uma confissão muito
pessoal: para mim, que vivia um oceano e um continente imenso à distância de
Lisboa, foi, sem que eu me apercebesse imediatamente de tal turbilhão pessoal,
um dia que mudou todo o meu destino, tanto dentro da América como depois no meu
regresso definitivo à nossa terra. Digo isto para dizer de seguida: celebro
sempre a grande transformação da sociedade portuguesa como um acontecimento que
me trouxe tudo o que sonhara naqueles anos de faculdade e politização à
esquerda, como convinha à maioria da minha geração do Vietname (de onde me
livrei, ao contrário de muitos com a minha idade à época), e que me abriria as
portas para que eu pudesse voltar a viver com dignidade no meu país de
nascença. Essa é outra história, a minha e a de milhares de conterrâneos meus,e
não cabe por enquanto neste espaço. Enquanto eu me incluía entre os cidadãos em
euforia e liberdade reconquistada, outros seriam em poucos meses rotulados de
“retornados”, mal olhados e discriminados como se de um grupo marginal e de
todo inconveniente se tratasse, alojados em hotéis, pensões ou em casas de
familiares, os seus contentores amontoados em Alcântara com o que lhes restava
de uma vida, por vezes de gerações, ao serviço de pátria nas terras distantes.
Não tinham nada a agradecer ao golpe militar em Lisboa, foram as suas vítimas
inesperadas; não eram “colonialistas”, eram na sua grande maioria famílias que
haviam deixado a miséria portuguesa para reconstruir as suas vidas “no país dos
outros”, como diria o grande poeta moçambicano Rui Knopfli noutro contexto e
forma, tinham lançado novas raízes, e tinham, uma vez mais, na sua vasta
maioria, reconstruido satisfatoriamente vidas remediadas nos trópicos sem nunca
pensarem que seriam convidados a abandonar tudo ou a morrer mesmo às mãos de
novos poderes sem imaginação naquele momento escaldante de interesses próprios.
Que esses mesmos trópicos aceitam hoje novas ondas de emigração lusa
exactamente para retomarem projectos de interesse nacional é de uma ironia mais
do que cruel para nós – é vergonhoso, degradante e injusto num país que “pertence”
novamente a um suposto grande bloco de nações, também ironicamente intitulado
de União Europeia. Que união, que prosperidade, e que futuro nos esperava, não
descontando obviamente o que de bom também nos veio da nova aventura no
continente a que, pelo menos geograficamente, pertence Portugal.
O breve introito aqui tem a ver com um romance que li
tardiamente, mas agradeço a quem mo trouxe à minha atenção, ficando eu a saber
que vinha directamente ao encontro das minhas temáticas ficcionais preferidas,
ou seja a peregrinação do nosso povo nas mais variadas circunstâncias e
geografias durante todo o século passado: O Retorno, de Dulce Maria
Cardoso, publicado originalmente em 2011 e depois numa terceira edição o ano
passado, e que também acaba de ser lançado na França por razões, suponho, muito
parecidas com as nossas, a Argélia dificilmente sairá da sua memória – o
regresso após a aventura colonialista em África de centenas de milhares de
cidadãos a uma terra que haviam há muito deixado e os seus filhos que de cá só
a conheciam, como aliás se refere mais do que uma vez neste magnífico romance,
dos mapas da escola ou das histórias de pais e avós. Estamos, no tempo real e
diegético destas páginas, em Luanda e Lisboa, em 1975, cujos dias, esses, quase
todos conhecem ou lembram com fervor ideológico, ou então o sofrimento da
incerteza quando todo um mundo se desmorona à nossa volta. Genialmente – uso a
palavra sem quaisquer reticências neste caso – a autora opta por um jovem
narrador de 15 anos de idade, de nome Rui, que nos conta toda história enquanto
“reside” no Hotel do Estoril, não pelo luxo mas simplesmente porque tinha sido
também escolhido pelas autoridades como albergue parcial dos recém-chagados a
Lisboa com pouquíssimos escudos na algibeira. Pela sua idade e pelo seu espanto
do que lhe acabava de acontecer na vida na companhia de sua mãe e irmã enquanto
esperam ansiosamente pelo pai que havia sido preso pelas novas forças de
segurança angolana, Rui é um imparável turbilhão de palavras e conflitos interiores,
a raiva que sente só temperada pelos afazeres diários de um adolescente com
outros na mesma condição, e pela sua lenta descoberta do país que para ele
havia sido só uma abastração longínqua. Creio ter havido mais uma razão para
que a voz desta fulgurante narrativa seja a de Rui, é um modo de eliminar a
“ideologia” da raiva, que se tornaria, por certo, uma vociferação violenta de
qualquer adulto com a vida desfeita – essa inevitável gaveta do romance vem-nos
de modo bem mais ameno quando nos é relatado a fala que ele ouve e transmite
dos adultos à sua volta. É tempo de todas as memórias, de tudo o que haviam
vivido numa casa mais ou menos humilde em África, dos amigos de paradoiro agora
desconhecido, das alegrias e tristezas de vidas por entre a aventura constante
e, assim mesmo a saudade da metrópole à distância, a referência sempre presente
nos dias em que ainda não adivinhavam a sua sorte decidida por acontecimentos e
personalidades históricas desconhecidas até à inevitabilidade do fim do
império. Sim, os personagens reais são referidos aqui, e o leitor não se
surpreende dos termos utilizados para os descrever, muitos deles ainda vivos e
no activo entre nós. De resto, é o humor imparável, que também aproxima o
leitor alheio à experiência real vivida e sofrida por todos estes personagens.
“Mas a minha irmã – diz Rui ao
chegar ao fim da sua aventura de desalojado, a narrativa estando prestes a
encerrar – ainda não vai para universidade, inventaram uma coisa que se chama
serviço cívico e é o que a minha irmã vai fazer este ano, a minha irmã e o
namorado, o besugo da metrópole que ainda nem está na universidade e já parece
um doutor. A minha irmã deve pensar que se namorar com um besugo de cá deixa de
ser retornada, só mesmo uma rapariga para pensar numa coisas dessas... O Gegé e
o Lee também não vão acreditar que aqui na metrópole as famílias vão à matinée
ver filmes como a Emmanuelle, aposto que nem no Brasil nem na África do Sul
acontece isso, deve ser uma das poucas coisas que a metrópole tem melhor...”
Autora/narrador, texto, contexto. Suponho que Dulce
Maria Cardoso fala de si neste romance, transfigurada numa voz masculina, pois
devia ter a mesma idade do Rui aquando do seu regresso à “metrópole”. Portugal
nunca entendeu, ou se importou, com a dor dos seus emigrados “voluntários”,
muito menos com a dor destes “retornados”, mais de meio milhão de seres humanos
a braços naquele dramático momento histórico com todos os seus mundos caídos, e
em dias revolucionários que lhes manifestavam só desconfiança e acusações
injustas de toda ordem, esquecendo-se os alguns militares protagonistas do 25
de Abril que foram eles os primeiros colaboradores de um Estado senil e sem uma
consciência empática do que tinha feito à sua gente, dentro e fora do pequeno
território nacional. Num outro texto citei a autora quando numa entrevista
literária diria ao seu interlocutor que só em 2010 começou a admitir certo
sentimento de pertença a Portugal, mas ainda não estava totalmente certa disso.
Grande e generosa escritora – se fosse eu, a rejeição seria para sempre após a
recepção que um país em delírio raivoso me tinha dispensado.
A menção de dois países aparece continuamente nestas
páginas: América e Brasil, que um jovem narrador já imaginava como sendo a
salvação e regeneração dos seus, e como comprova a nossa história. É para aí
que vamos quando mais nada é possível ou viável portas adentro. Acabam eles por
ficar, e a sua razão é também implacável – fariam finalmente de Portugal a sua
incerta e nova ou ancestral pátria, fariam dela o seu último poiso. O sucesso
da sua reintegração não se deve a quem os recebeu, deve-se à sua coragem,
força, inteligência e iniciativa.
Antes do presente volume, Dulce Maria Cardoso já
tinha publicado Até Nós, O Chão dos Pardais, Os Meus
Sentimentos e Campo de Sangue. Acaba de publicar este ano os contos
de tudo são histórias de amor. O Retorno, pelo que li a este
respeito também, é ainda hoje mais reconhecido no estrangeiro do que entre nós.
Entendo isso, infelizmente.
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Dulce
Maria Cardoso, O Retorno (3ª edição), Lisboa, Tinta-Da-China, 2013.
segunda-feira, 24 de março de 2014
Os Livros que nos chamam
Há um tipo peculiar de livros que nos chamam nas livrarias. É esse um dos grandes argumentos a favor das livrarias.Sem elas seria impossível ouvir essa voz que nos faz comprar livros que nunca contávamos encontrar, nem procurar, e muito menos comprar. Se "entrar" numa livraria electrónica, como a Amazon, eu sei o que procuro e através dos mecanismos de busca encontro livros que são próximos dos que procuro, mas não tenho aí verdadeiras surpresas. Posso comprar com contentamento, mas não descubro.
Nas livrarias descubro, embora infelizmente cada vez menos nas livrarias portuguesas, quase todas iguais, cheias de papel pintado com o mesmo grafismo, o mesmo estilo de capas e com os livros razoáveis e bons afogados por centenas de títulos que não duram uma semana de exposição, e que são, por regra, pouco mais que modas. Por outro lado, a proximidade com a edição portuguesa, o conhecimento do que vai sair, retira muito o factor surpresa e por isso, os livros de que vou falar são em inglês e na sua maioria comprados em livrarias estrangeiras.
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