terça-feira, 8 de abril de 2014
Políticas para a Empregabilidade de Rui Bettencourt
Num momento em que o desemprego atrai enormes atenções e fortes preocupações, levando a que a procura de respostas públicas a este problema seja um desígnio central de qualquer projeto de sociedade ou discurso político, as políticas para o emprego necessitariam passar por um claro alargamento dos seus perímetros de atuação, visar uma recentragem nas pessoas e introduzir uma abordagem prospetiva bem como uma operacionalização regional.
Assim, as políticas ativas para a empregabilidade mudam a natureza da intervenção das políticas públicas: da intervenção do Estado para manter um posto de trabalho, desliza-se para a intervenção do Estado para dotar um cidadão de empregabilidade, ou seja, de competências pertinentes para a competitividade.
O autor procura e analisa, através de uma abordagem sistémica, políticas para a empregabilidade, considerando-as como uma terceira geração de políticas de emprego, na sequência da evolução do pensamento económico que visa privilegiar o investimento na educação e que culmina com as teorias de desenvolvimento endógeno de economistas modernos como Philippe Aghion. As políticas aqui descritas caracterizam-se por agir junto das pessoas quer em antecipação do mercado de trabalho – introduzindo a prospetiva estratégica – quer em retificação das necessidades da economia através da educação ao longo da vida.
Defendendo que a empregabilidade deve situar-se muito para além das clássicas políticas de emprego, o autor propõe uma arquitetura de intervenção num perímetro de atuação alargado, pois incidindo sobre os estudantes, os jovens sem educação, formação ou emprego, os NEET – para os quais a resposta é o grande desafio para as metas da Europa 2020 -, os trabalhadores, os inativos e os desempregados.
Políticas para a Empregabilidade, Rui Bettencourt, Actual 2014.
sábado, 29 de março de 2014
O último adeus ao império
O último adeus ao
império
...Olhou para o mar e jurou, nunca mais ninguém me
expulsa de lado nenhum, esta vai ter de ser a minha terra.
Dulce Maria Cardoso, O Retorno
Vamberto Freitas
Vamos celebrar em poucos dias os 40 anos do 25 de
Abril – a libertação de uns e a dor de outros. Não haverá nada de mais cruel na
reestruturação revolucionária de uma sociedade do que esquecer algumas das suas
vidas que mais sofreram com tais vendavais. Repito aqui uma confissão muito
pessoal: para mim, que vivia um oceano e um continente imenso à distância de
Lisboa, foi, sem que eu me apercebesse imediatamente de tal turbilhão pessoal,
um dia que mudou todo o meu destino, tanto dentro da América como depois no meu
regresso definitivo à nossa terra. Digo isto para dizer de seguida: celebro
sempre a grande transformação da sociedade portuguesa como um acontecimento que
me trouxe tudo o que sonhara naqueles anos de faculdade e politização à
esquerda, como convinha à maioria da minha geração do Vietname (de onde me
livrei, ao contrário de muitos com a minha idade à época), e que me abriria as
portas para que eu pudesse voltar a viver com dignidade no meu país de
nascença. Essa é outra história, a minha e a de milhares de conterrâneos meus,e
não cabe por enquanto neste espaço. Enquanto eu me incluía entre os cidadãos em
euforia e liberdade reconquistada, outros seriam em poucos meses rotulados de
“retornados”, mal olhados e discriminados como se de um grupo marginal e de
todo inconveniente se tratasse, alojados em hotéis, pensões ou em casas de
familiares, os seus contentores amontoados em Alcântara com o que lhes restava
de uma vida, por vezes de gerações, ao serviço de pátria nas terras distantes.
Não tinham nada a agradecer ao golpe militar em Lisboa, foram as suas vítimas
inesperadas; não eram “colonialistas”, eram na sua grande maioria famílias que
haviam deixado a miséria portuguesa para reconstruir as suas vidas “no país dos
outros”, como diria o grande poeta moçambicano Rui Knopfli noutro contexto e
forma, tinham lançado novas raízes, e tinham, uma vez mais, na sua vasta
maioria, reconstruido satisfatoriamente vidas remediadas nos trópicos sem nunca
pensarem que seriam convidados a abandonar tudo ou a morrer mesmo às mãos de
novos poderes sem imaginação naquele momento escaldante de interesses próprios.
Que esses mesmos trópicos aceitam hoje novas ondas de emigração lusa
exactamente para retomarem projectos de interesse nacional é de uma ironia mais
do que cruel para nós – é vergonhoso, degradante e injusto num país que “pertence”
novamente a um suposto grande bloco de nações, também ironicamente intitulado
de União Europeia. Que união, que prosperidade, e que futuro nos esperava, não
descontando obviamente o que de bom também nos veio da nova aventura no
continente a que, pelo menos geograficamente, pertence Portugal.
O breve introito aqui tem a ver com um romance que li
tardiamente, mas agradeço a quem mo trouxe à minha atenção, ficando eu a saber
que vinha directamente ao encontro das minhas temáticas ficcionais preferidas,
ou seja a peregrinação do nosso povo nas mais variadas circunstâncias e
geografias durante todo o século passado: O Retorno, de Dulce Maria
Cardoso, publicado originalmente em 2011 e depois numa terceira edição o ano
passado, e que também acaba de ser lançado na França por razões, suponho, muito
parecidas com as nossas, a Argélia dificilmente sairá da sua memória – o
regresso após a aventura colonialista em África de centenas de milhares de
cidadãos a uma terra que haviam há muito deixado e os seus filhos que de cá só
a conheciam, como aliás se refere mais do que uma vez neste magnífico romance,
dos mapas da escola ou das histórias de pais e avós. Estamos, no tempo real e
diegético destas páginas, em Luanda e Lisboa, em 1975, cujos dias, esses, quase
todos conhecem ou lembram com fervor ideológico, ou então o sofrimento da
incerteza quando todo um mundo se desmorona à nossa volta. Genialmente – uso a
palavra sem quaisquer reticências neste caso – a autora opta por um jovem
narrador de 15 anos de idade, de nome Rui, que nos conta toda história enquanto
“reside” no Hotel do Estoril, não pelo luxo mas simplesmente porque tinha sido
também escolhido pelas autoridades como albergue parcial dos recém-chagados a
Lisboa com pouquíssimos escudos na algibeira. Pela sua idade e pelo seu espanto
do que lhe acabava de acontecer na vida na companhia de sua mãe e irmã enquanto
esperam ansiosamente pelo pai que havia sido preso pelas novas forças de
segurança angolana, Rui é um imparável turbilhão de palavras e conflitos interiores,
a raiva que sente só temperada pelos afazeres diários de um adolescente com
outros na mesma condição, e pela sua lenta descoberta do país que para ele
havia sido só uma abastração longínqua. Creio ter havido mais uma razão para
que a voz desta fulgurante narrativa seja a de Rui, é um modo de eliminar a
“ideologia” da raiva, que se tornaria, por certo, uma vociferação violenta de
qualquer adulto com a vida desfeita – essa inevitável gaveta do romance vem-nos
de modo bem mais ameno quando nos é relatado a fala que ele ouve e transmite
dos adultos à sua volta. É tempo de todas as memórias, de tudo o que haviam
vivido numa casa mais ou menos humilde em África, dos amigos de paradoiro agora
desconhecido, das alegrias e tristezas de vidas por entre a aventura constante
e, assim mesmo a saudade da metrópole à distância, a referência sempre presente
nos dias em que ainda não adivinhavam a sua sorte decidida por acontecimentos e
personalidades históricas desconhecidas até à inevitabilidade do fim do
império. Sim, os personagens reais são referidos aqui, e o leitor não se
surpreende dos termos utilizados para os descrever, muitos deles ainda vivos e
no activo entre nós. De resto, é o humor imparável, que também aproxima o
leitor alheio à experiência real vivida e sofrida por todos estes personagens.
“Mas a minha irmã – diz Rui ao
chegar ao fim da sua aventura de desalojado, a narrativa estando prestes a
encerrar – ainda não vai para universidade, inventaram uma coisa que se chama
serviço cívico e é o que a minha irmã vai fazer este ano, a minha irmã e o
namorado, o besugo da metrópole que ainda nem está na universidade e já parece
um doutor. A minha irmã deve pensar que se namorar com um besugo de cá deixa de
ser retornada, só mesmo uma rapariga para pensar numa coisas dessas... O Gegé e
o Lee também não vão acreditar que aqui na metrópole as famílias vão à matinée
ver filmes como a Emmanuelle, aposto que nem no Brasil nem na África do Sul
acontece isso, deve ser uma das poucas coisas que a metrópole tem melhor...”
Autora/narrador, texto, contexto. Suponho que Dulce
Maria Cardoso fala de si neste romance, transfigurada numa voz masculina, pois
devia ter a mesma idade do Rui aquando do seu regresso à “metrópole”. Portugal
nunca entendeu, ou se importou, com a dor dos seus emigrados “voluntários”,
muito menos com a dor destes “retornados”, mais de meio milhão de seres humanos
a braços naquele dramático momento histórico com todos os seus mundos caídos, e
em dias revolucionários que lhes manifestavam só desconfiança e acusações
injustas de toda ordem, esquecendo-se os alguns militares protagonistas do 25
de Abril que foram eles os primeiros colaboradores de um Estado senil e sem uma
consciência empática do que tinha feito à sua gente, dentro e fora do pequeno
território nacional. Num outro texto citei a autora quando numa entrevista
literária diria ao seu interlocutor que só em 2010 começou a admitir certo
sentimento de pertença a Portugal, mas ainda não estava totalmente certa disso.
Grande e generosa escritora – se fosse eu, a rejeição seria para sempre após a
recepção que um país em delírio raivoso me tinha dispensado.
A menção de dois países aparece continuamente nestas
páginas: América e Brasil, que um jovem narrador já imaginava como sendo a
salvação e regeneração dos seus, e como comprova a nossa história. É para aí
que vamos quando mais nada é possível ou viável portas adentro. Acabam eles por
ficar, e a sua razão é também implacável – fariam finalmente de Portugal a sua
incerta e nova ou ancestral pátria, fariam dela o seu último poiso. O sucesso
da sua reintegração não se deve a quem os recebeu, deve-se à sua coragem,
força, inteligência e iniciativa.
Antes do presente volume, Dulce Maria Cardoso já
tinha publicado Até Nós, O Chão dos Pardais, Os Meus
Sentimentos e Campo de Sangue. Acaba de publicar este ano os contos
de tudo são histórias de amor. O Retorno, pelo que li a este
respeito também, é ainda hoje mais reconhecido no estrangeiro do que entre nós.
Entendo isso, infelizmente.
________
Dulce
Maria Cardoso, O Retorno (3ª edição), Lisboa, Tinta-Da-China, 2013.
segunda-feira, 24 de março de 2014
Os Livros que nos chamam
Há um tipo peculiar de livros que nos chamam nas livrarias. É esse um dos grandes argumentos a favor das livrarias.Sem elas seria impossível ouvir essa voz que nos faz comprar livros que nunca contávamos encontrar, nem procurar, e muito menos comprar. Se "entrar" numa livraria electrónica, como a Amazon, eu sei o que procuro e através dos mecanismos de busca encontro livros que são próximos dos que procuro, mas não tenho aí verdadeiras surpresas. Posso comprar com contentamento, mas não descubro.
Nas livrarias descubro, embora infelizmente cada vez menos nas livrarias portuguesas, quase todas iguais, cheias de papel pintado com o mesmo grafismo, o mesmo estilo de capas e com os livros razoáveis e bons afogados por centenas de títulos que não duram uma semana de exposição, e que são, por regra, pouco mais que modas. Por outro lado, a proximidade com a edição portuguesa, o conhecimento do que vai sair, retira muito o factor surpresa e por isso, os livros de que vou falar são em inglês e na sua maioria comprados em livrarias estrangeiras.
continuar a ler aqui aqui.
sexta-feira, 21 de março de 2014
24 Anos da SolMar
Hoje, no dia Mundial da Poesia, a Livraria SolMar, comemora
24 Anos, dos quais nos orgulhamos muito, pela terra que amamos, continuando
teimosamente a semear artes e letras.
O nosso muito
obrigado aos nossos amigos e leitores.
terça-feira, 18 de março de 2014
José Medeiros Ferreia 1942-2014
Fotografia de Fernando Resendes
Perdemos hoje, um Grande Homem e um Grande Amigo. O nosso muito obrigado por tudo o que nos deu.
As nossas condolências à sua família e amigos.
José Medeiros Ferreira 1942-2014.
segunda-feira, 10 de março de 2014
Álamo Oliveira sobre borderCrossings: leituras transatlânticas 2
VAMBERTO FREITAS
– o leitor atento da nossa escrita
Álamo Oliveira
BorderCrossings/ leituras transatlânticas – 2 reune 80 textos recenseativos e ensaísticos,
que dão continuidade aos incluídos em BorderCrossings – 1. Os textos estão
agrupados por quatro espaços geográficos, cada um com título próprio, assim
designados: «Literatura e açorianidade», «Diáspora e literatura», «Imaginários
americanos» e «Brasil próximo e distante». Nestes subtítulos, cabe um conjunto
significativo de leituras que, de uma maneira ou de outra, motivaram Vamberto
Freitas para comentários críticos e opinativos que, por sua vez, exercem a
função de originarem um outro e alargado número de leitores.
A aproximação analítica aos livros dos outros faz com que
Vamberto Freitas seja, de forma indiscutível, o nosso crítico mais atento, mais
ecléctico, melhor informado e também o que melhor domina as ferramentas que
permitem a dissecação do texto, para proporcionar melhor leitura e melhor
entendimento, sem que o seu ponto de vista fique maculado por qualquer tipo de
pragmatismo. Aliás, acrescente-se que ele é um crítico generoso, exercendo o
seu direito de opinião sob uma perspectiva pedagógica otimizada. Não fosse a
sua generosidade e o seu gosto pela leitura e muito pouco se saberia, a nível
regional e nacional, sobre a actividade editorial açoriana.
Como se sabe, Vamberto Freitas é a voz autorizada dos livros
de autores portugueses, com predominância para os dos Açores e também dos
livros de autores que escrevem na língua dos seus países de adoção e que têm
procurado conquistar visibilidade nas designadas literaturas étnicas dos
espaços da emigração portuguesa.
São já muitos os livros que Vamberto Freitas tem publicados,
nos quais vem a reunir um trabalho persistente no âmbito da recensão crítica.
Sabem disto quantos têm acompanhado o que faz publicar em jornais, revistas e,
sobretudo, em suplementos literários, muitos dos quais coordenados por ele.
Todos têm a noção de que se está perante um contributo inestimável para a
revelação e apreço do que tem sido a nossa escrita criativa.
E veja-se o conteúdo de Border Crossings – 2:
«Literatura e açorianidade» é o capítulo que acolhe as
recensões sobre os livros de autor açoriano. São diversos os nomes, alguns já
desaparecidos do nosso convívio (Natália Correia, Fernando Aires), e outros tão
novos ainda como Joel Neto e João Pedro Porto. O capítulo dedicado à
«Literatura da diáspora» está aberto a diversas aproximações críticas sobre
livros de autores lusodescendentes, mas também europeus e até islâmicos. Em
«Imaginários americanos» cabem muitas abordagens a autores e livros que ajudam
a reflectir sobre aqueles «imaginários» específicos. O quarto capítulo
apresenta alguns escritores brasileiros que Vamberto Freitas vem a ler (Assis
Brasil e George Monteiro, entre muitos) e que partilha com os outros.
Ao folhear este livro, cada leitor se apercebe facilmente
que um dos aspectos importantes é o da sua estruturação, arrimada a uma
arrumação lógica e cuidada, tornando-o de fácil consulta e fazendo com que os
textos, para além da sua virtualidade pedagógica, possam reanimar o gosto pela
leitura.
Já alguém disse que,
se não fosse a persistência crítica e de registo de Vamberto Freitas, seria
muito difícil falar-se da literatura açoriana com sabor a História,
cronologicamente exposta e devidamente rodeada pela escrita nacional e
internacional. Na verdade, ele contextualiza, sem ser sua intenção obedecer a
tal propósito, a produção literária açoriana, relevando-a pelo que ela vale e
pelo contributo indelével que vem a dar ao corpus da literatura de Língua
portuguesa.
Posto isto, pretendo deixar expresso que o que devemos a
Vamberto Freitas não se paga com agradecimentos de circunstância. Claro que
temos outros nomes que têm prestado também um grande contributo na divulgação
da escrita açoriana, como José Martins Garcia, António Machado Pires, Urbano
Bettencourt e outros. Neste momento, cabe-me fazer emergir a generosidade de
Vamberto Freitas, a qual não é passível de qualquer suborno sentimental, mesmo
quando bem intencionado. Fico com BorderCrossings/ leituras transatlânticas – 2
para ler grata e atentamente.
quarta-feira, 5 de março de 2014
boderCrossings: leituras tansatlânticas II de Vamberto Freitas
Este segundo volume de borderCrossings:
leituras transatlânticas foi (me) imaginado desde o início quando iniciei a
coluna do Açoriano Oriental (Ponta
Delgada) em 2010, e quando me foi então proposto assinalar todas as semanas o
que, do muito que dentro e fora dos Açores, se ia publicando e que mereceria a
atenção dos leitores. Este “muito” refere-se à literatura açoriana de várias
gerações, assim como à literatura da nossa imigração, incluindo a que desde há
alguns anos a esta parte começou a brotar de vários sectores académicos e
intelectuais entre os luso-descendentes, particularmente nos EUA. Não escrevo
para satisfazer a curiosidade, por parte de alguns, do que acaba de sair no
mercado livreiro português, nem sequer ante os nomes mais novos e sonantes da
literatura portuguesa contemporânea. Interessa-me aqui, em primeiro lugar, a
escrita contemporânea que tem como referencial a experiência e/imigrante lusa
lado a lado com a memória ancestral dos seus descendentes, ou então as ideias
que, entre nós, enformam as sociedades em que nos encontramos e com as quais
nos identificamos, desde qualquer recanto no mundo lusófono ao continente
norte-americano. Nem por um segundo insinuo que o que se encontra comentado e
contextualizado entre estas páginas se aproxima de qualquer “cânone” completo
da literatura das nossas peregrinações. São escolhas minhas, ou então que se
impõem pelos próprios autores que já conquistaram para si um espaço literário
nesta ou nas suas sociedades natais, como no caso dos escritores, poetas e
ensaístas de primeira ou mais gerações nos Estados Unidos. Para mim, tem sido
gratificante ver nascer uma nova geração de escritores que fazem questão de se
identificarem ante o seu público anglo-americano como “Portuguese-American
writers/escritores luso-americanos”. Em nada se “reduzem” com essa designação,
simplesmente reclamam para si todo um passado vivido e/ou transmitido pelas
gerações anteriores, as que lhes deram vida, lhes moldaram o destino.
Aí está, creio, o meu e o trabalho
dos meus colegas em toda a parte – sim, a literatura luso-americana existe, e
promete um dia, a melhor dela, fazer parte de duas grandes Tradições: a
portuguesa e a americana. Não é pouco. É a integração intelectual e artística
nas nossas pátrias sem fronteiras, nem sequer já têm língua oficial – somos
daqui como somos de toda a parte, para agora redizer, ao contrário, o grande
poeta da modernidade lusa transfronteiriça.
Vamberto Freitas
Ponta Delgada
Fevereiro de 2014
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
Urbano Bettencourt - Inquietação insular e figuração satírica em José Martins Garcia
« (...) Fazendo um breve exercício de memória, creio que a escolha da obra de José Martins Garcia, particularmente na sua vertente satírica, começou há quarenta anos, quando, em finais de 1974, Manuel Pereira de Medeiros, o Livreiro açoriano de Setúbal, me chamou a atenção para um livro que trazia um título esquisito, «Katafaraum é uma nação«, e me deixou ainda outras informações de natureza extraliterária, que, aliás, nunca interferiram no meu relacionamento com a obra. Nesse livro chamou-me a atenção o «tom» da narrativa inicial sobre a docência que se esgota no método e na análise da metodologia do método, num jogo de espelhos verbais que se desdobram até ao infinito, esterilmente; mas detive-me em especial na segunda parte do livro, em parte pelos conteúdos narrativos (a guerra em África, entre outros), em parte pelo jogo irónico com alguma nomenclatura gramatical conhecida.
Depois, no ano letivo de 1975-76, o acaso fez-me aluno de José Martins Garcia numa cadeira de Linguística e pude, então, voltar a «Katafaraum» já com outra competência de leitura e descodificar aquilo que me escapara inicialmente: o tratamento irónico a que também aí eram sujeitos nomes e conceitos como Chomsky, competência, «performance».
Eu, afinal, tinha chegado à Linguística por portas travessas, e entre o discurso sério das aulas e o discurso irónico da ficção devo ter balançado bastante. O discurso da ficção acabou por prevalecer…»
Excerto do texto de apresentação da tese de Urbano Bettencourt, ontem na Universidade dos Açores, "Inquietação insular e figuração satírica em José Martins Garcia", esta defendida com Distinção e Louvor por unanimidade do júri.
sábado, 22 de fevereiro de 2014
Joseph Cardozo um Corsário Açoriano Em Argel
No Outono de 1675, o navio português Nossa Senhora da Palma
e São Raphael, que havia largado do Maranhão com destino a Lisboa, foi
capturado ao largo do Cabo de São Vicente por um corsário de Argel e forçado a
seguir para este porto, situado na região do Norte de África então designada
por “Berbéria”. Uma operação que passara a fazer parte da vida quotidiana do
Atlântico Norte, desde que, a partir do início do século XVII, os corsários de
Tunis e Argel, em consonância com os seus confrades de Salé, alargaram a sua
actividade, ao “Grande Oceano”.
Entre os tripulantes daquele navio encontrava-se um grumete de 19 anos, natural da Ribeira dos Flamengos, na ilha do Faial, de seu nome Joseph Cardozo. Estava perto de terminar a sua primeira viagem de longo-curso, mas, contrariamente às suas expectativas, esta acabou no mercado de escravos de Argel onde, a par dos outros elementos da tripulação e dos passageiros, foi vendido a quem por ele ofereceu mais dinheiro.
Por decisão do seu proprietário, Joseph Cardozo embarcou, passado pouco tempo, num navio de corso, cuja tripulação era constituída por soldados turcos, por cativos como ele próprio e por europeus que, por terem renegado a fé de Cristo, viviam em plena liberdade, dando mostras de alguma prosperidade. Uma situação que contrastava claramente com sua, obrigado que estava no fim de cada viagem, a entregar ao seu “senhor” o quinhão que lhe fora atribuído, depois de feita a divisão das presas efectuadas pelo seu navio.
A exemplo do que aconteceu com alguns dos muitos milhares de cativos que caíram nas mãos dos corsários da Berbéria, em particular com aqueles que integravam as tripulações dos navios de corso, Joseph Cardozo converteu-se ao Islamismo e continuou a exercer a sua nova profissão de corsário, mas agora como “homem livre”. E, ao que tudo indica, com grande competência, não só pela sua ascensão na hierarquia do corso, onde atingiu o posto de imediato, mas, sobretudo, porque passou a ser conhecido em Argel como um corsário de fama.
Entre os tripulantes daquele navio encontrava-se um grumete de 19 anos, natural da Ribeira dos Flamengos, na ilha do Faial, de seu nome Joseph Cardozo. Estava perto de terminar a sua primeira viagem de longo-curso, mas, contrariamente às suas expectativas, esta acabou no mercado de escravos de Argel onde, a par dos outros elementos da tripulação e dos passageiros, foi vendido a quem por ele ofereceu mais dinheiro.
Por decisão do seu proprietário, Joseph Cardozo embarcou, passado pouco tempo, num navio de corso, cuja tripulação era constituída por soldados turcos, por cativos como ele próprio e por europeus que, por terem renegado a fé de Cristo, viviam em plena liberdade, dando mostras de alguma prosperidade. Uma situação que contrastava claramente com sua, obrigado que estava no fim de cada viagem, a entregar ao seu “senhor” o quinhão que lhe fora atribuído, depois de feita a divisão das presas efectuadas pelo seu navio.
A exemplo do que aconteceu com alguns dos muitos milhares de cativos que caíram nas mãos dos corsários da Berbéria, em particular com aqueles que integravam as tripulações dos navios de corso, Joseph Cardozo converteu-se ao Islamismo e continuou a exercer a sua nova profissão de corsário, mas agora como “homem livre”. E, ao que tudo indica, com grande competência, não só pela sua ascensão na hierarquia do corso, onde atingiu o posto de imediato, mas, sobretudo, porque passou a ser conhecido em Argel como um corsário de fama.
Joseph Cardozo Corsário Em Argel (1675-1694), Mário Fernandes, Chiado Editora.
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
"Uns Mais Outros Menos" por José Maria França Machado
UNS MAIS E OUTROS MENOS
Eu pretendia começar dizendo que o desenho é a fronteira
entre o nada e o ser. Isto no sentido de que cada coisa tem uma essência que
lhe é própria e que se esgota em si mesma. Uma cadeira é uma cadeira e nada que
exista fora dela interfere na sua essência de cadeira. Mesmo quem nela se senta
não pode interferir na sua natureza. Para essa peça de mobiliário é como se
nada existisse fora dela. Porquê? Porque a cadeira não é um ser consciente.
Claro que os seres vivos podem ter alguma consciência de si e interagir com o
mundo exterior. Mas em termos de forma eles existem enquanto tais e, se não
existissem, no seu lugar estaria o nada. Mas o desenho é apenas uma
característica da forma, logo esta é que é a fronteira entre o ser e o nada. É
um conceito que serve apenas para consciencializarmos a existência do ser. Em
boa verdade o nada não existe. Mas ao designar o nada estou a contar com ele.
Então eu diria que a essência do nada é a não existência. O que quer dizer que
a não existência existe. Bom, vamos ficar por aqui e nem vamos tentar falar em
transcendência, imanência, ser e não ser, e tudo o mais sobre o que se debruçam
os filósofos, na tentativa de explicar esta coisa magnífica que é existir. O
mundo físico é suficientemente rico para baralhar a nossa pobre inteligência.
Basta pensar na electricidade, no magnetismo e na gravidade para vermos como existem coisas, que lá terão
a sua forma, nem que seja em equações matemáticas, de que conhecemos os efeitos
mas desconhecemos a substância. E o ser, se aceitarmos a Metafísica, pode ser
informal. Portanto o que eu posso afirmar, com algum bom senso, é que a forma é
o aspecto exterior das coisas.
Reconheço, no entanto, a insuficiência desta afirmação. Sobre o assunto do ser
e do nada Sartre escreveu um livro de mais de quatrocentas páginas e outros,
antes dele, fizeram coisas semelhantes o que nos dá uma ideia de quão vasto é o
problema. Se um artista tivesse que estudar esses livros para realizar obras de
arte os museus estavam vazios. Peço desculpa aos filósofos por esta pequena
brincadeira. Sei que o assunto é sério e se o menciono é porque eu próprio, na
minha ignorância, sinto necessidade de equacionar o problema da forma do modo
menos empírico que me é possível.
Todo objecto físico tem forma, desde o infinitamente grande
ao infinitamente pequeno. Mas parece-me evidente que ao usar a palavra
infinitamente grande ou pequeno estamos a afirmar a nossa incapacidade de
apreender o cosmos. O infinito é, por definição, inapreensível, ou seja,
incognoscível. O Universo será, porventura, finito. Há boas razões para pensar
que o é. Mas é tão incomensuravelmente grande que, quer na direcção das
estrelas quer na das partículas, há um horizonte em que o perdemos de vista.
Quanto aos objectos físicos de forma indefinida, como os
fluidos, também têm forma. Os seus átomos e moléculas têm padrões de movimento
que podem ser exemplificados em desenho. Actualmente há cientistas que
pretendem descobrir a fórmula matemática que define essas formas, utilizando a
extraordinária capacidade de cálculo dos computadores. Já Leonardo D’ Avinci se
interessou pelo movimento dos fluidos e tem desenhos que ilustram as suas
observações.
Temos, portanto, que o desenho é o registo de uma ideia.
Nesse sentido é um conceito abstracto que se manifesta numa visibilidade
concreta. A verdade é que o conhecimento é o conjunto de ideias que temos no
cérebro e que necessitam de veículos concretos para serem trocadas entre as
pessoas. Esses veículos podem ser de vária natureza entre os quais, a palavra e
o desenho serão os mais significativos.
Não sei se é possível dizer o que apareceu primeiro, se a
palavra se a imagem. Palavra dita ou imagem desenhada. É possível que os
primitivos hominídeos tenham mimado os animais que queriam caçar antes de lhes
darem um nome.
Sabe-se quando tiveram a capacidade de articular a
linguagem. A antropologia diz-nos isso com alguma exactidão. Se o fizeram
mesmo, nesse momento, não sabemos. O que sabemos é que em determinada altura os
homens fizeram as gravuras rupestres, numa feérica demonstração de que a sua
humanização estava completa. Esses homens eram iguais a nós, agiam da mesma
maneira, pensavam do mesmo modo.
O significado dessas gravuras não sabemos. Poderemos pensar
que tinham um significado mágico ou religioso. Que o facto de terem sido
desenhados no interior de cavernas, de difícil acesso, é prova do seu carácter
religioso mas, as gravuras de Foz Côa foram feitas ao ar livre, à luz
inclemente do Sol.
Também podemos pensar num tempo pré-mágico e pré-religioso
onde o homem tinha necessidade de capturar a imagem para se identificar com a
realidade tal como o fazem as crianças. Qualquer criança desenha até descobrir
que os seus desenhos já não se adequam à imagem que tem da realidade. Volta a
desenhar quando é capaz de fazer essa adequação. É nessa altura que o talento
começa a despontar.
O que é possível ver é que, os homens pré-históricos que
fizeram essas gravuras, dominavam perfeitamente o desenho e tinham soluções
formais que nos enchem de espanto.
Também podemos deduzir que, tal como agora, essas obras eram
destinadas ao grupo social e fundamentais na sua coesão. Veremos como o Tomás,
nesse aspecto, é um primitivo.
Dissemos que o desenho era o modo que tínhamos de nos
apropriarmos de uma ideia. Ou, de representarmos uma ideia. O que, no nosso
cérebro, corresponde a um objecto é um campo electroquímico cuja composição
resulta da imagem que se produz na retina, por sua vez, uma representação do
objecto. Quanto ao objecto em si, e quem diz o objecto pode dizer o cosmos, é
apenas um quantum de espaço onde alguns átomos se aproximam numa estrutura
particular. Mas essa aproximação é muito relativa porque os átomos mantêm uma
enorme distância entre si. Para os neutrinos, que nos atravessam o corpo a todo
o momento, aos milhões por centímetro quadrado, é como se não existíssemos e a
matéria é constituída pelas raríssimas partículas que eles, esporadicamente,
encontram. O resto é vazio. Nós somos, essencialmente, vazio.
Na arte paleolítica o desenho é figurativo. O que é que isto
quer dizer? Obviamente conforme o original. Mas o que estaria subjacente a essa
representação não seria algo muito para além da representação pura e simples do
objecto? Não seria muito mais importante
a relação entre o pensamento humano e a imagem, veículo de um problema
existencial, porventura de sobrevivência? Jamais o saberemos, mas, quando no
Neolítico, aparecem figurações abstractas, ou tão estilizadas que se afastam
definitivamente do original, podemos julgar que a relação entre a forma
desenhada e a ideia era muito mais complexa do que, à primeira vista,
poderíamos supor. E porque será que em ambos os casos falamos de figuras?
Figuras abstractas? Sim, figuras, porque a figuração, no desenho, é,
precisamente, a tentativa de concretizar o que se tem na cabeça por mais
abstracta que a coisa seja.
Esta viagem ao passado é importante para vermos como o homem
pré histórico já era um dos nossos. E como, desde então, a Humanidade tem
seguido determinados padrões. As formas artísticas têm acompanhado o
desenvolvimento cultural, tecnológico, filosófico, sociológico e tudo o que
caracteriza uma civilização. Por vezes com estagnações e avanços, jamais com
recuos. Muitas vezes aquilo que parece um retrocesso é apenas outra coisa.
Quando comecei a conhecer a arte da Idade Média fiquei muito
surpreendido. Aquilo parecia muito mal desenhado. Autêntica inabilidade. Com o
aprofundamento do estudo verifiquei que havia uma genuína coerência formal
nessa arte. Portanto, se eles desenhavam assim era porque queriam. Depois
descobri o pensamento que estava na origem desse modo de desenhar. A queda do
Império Romano do Ocidente e o advento do cristianismo tinham deslocado o ponto
de vista dos homens. O mundo passou a ser um lugar de preparação para a
verdadeira vida e o corpo um receptáculo, pouco importante, para a alma. Não
era inabilidade, era a representação física de formulações intelectuais. Na
origem da representação medieval está a arte paleocristã que, por sua vez,
nasce da representação greco-romana, num evolução que acompanha a progressiva
mudança do pensamento.
No séc VIII existiu em Liébana um grande iluminista. É
designado por Beato de Liébana. Porque o trago à colação? Porque dois grandes
pintores do séc.XX, Picasso e Matisse, têm soluções formais extremamente
semelhantes às do iluminista referido.
Não digo que o copiaram. Nem sei se conheciam a sua obra.
Mas o facto é que as semelhanças são flagrantes. Mas mais do que saber se houve
influências é saber se, o que aconteceu, não foi a desvalorização da figura
humana, como ícone de uma época que punha em causa o orgulho renascentista do
homem em si próprio. Sei que é uma questão polémica. Deixo apenas a interrogação.
As formas artísticas existem para o presente de cada uma
delas e para o futuro da Humanidade. Uma vez descobertas podem reaparecer
embora o novo contexto nunca seja igual ao primeiro. Uma obra prima do passado
continua a ser uma obra prima no presente. A sua cópia será uma coisa sem
sentido. Sempre que se tenta reavivar o passado o que se consegue é sempre uma
coisa nova.
Mas, afinal, desenhar o que é?
Aristóteles dizia que o valor de um retrato, para um
observador, era a sua adequação ao original. Assim, esse observador, tirava
prazer ao descobrir essa adequação. Mas o próprio Aristóteles percebeu as
limitações desse raciocínio. Porque, se o observador não conhecer o retratado,
a obra continua a ter o mesmo intrínseco valor. Então o prazer do observador
deve-se à qualidade artística do desenho. Isto que se diz de um retrato
aplica-se a qualquer representação. O que quer dizer que é necessária alguma
aprendizagem para se poder apreciar uma obra de arte. Sobre este assunto digo
apenas que essa aprendizagem deve começar na escola.
Para responder à pergunta, desenhar o que é?, vou contar uma
história pessoal.
Um dia, na escola do Porto, um professor, que nem era
professor de desenho, disse numa aula: — Querem ver o que se pode fazer com um
carvão? — e sentou-se frente a um cavalete com uma folha de desenho. Toda a
turma o rodeou. Ele pegou no carvão e começou a traçar uma linha. Ao mesmo
tempo ia falando. E dizia: — Reparem como esta linha é luminosa, vibrátil. Se
eu a interromper e continuar um pouco mais à frente aquela interrupção funciona
como um ponto de luz. Agora continuo e carrego mais no carvão. A textura do
papel resiste à sua progressão. Eu forço essa resistência e o traço alarga-se,
torna-se mais dramático. Pode fazer alguns desvios que não comprometem a
direcção que lhe dou. Passa a haver um contraste com a parte anterior do traço.
De um lado tenho luz, do outro tenho sombra. Se agora traçar outro traço ele
vai encontrar o primeiro. Os dois confrontam-se. Tenho que ser eu decidir qual
deles sai vencedor. Seja qual for o resultado o confronto deixou marcas no
papel. Em todo este percurso desenrola-se um drama, entre o meu pensamento, as
minhas emoções, a minha mão e os materiais que utilizo. Quer represente alguma
coisa concreta ou apenas um estado de alma, para além do que o que desenho
queira significar, fica na folha de papel o registo desse drama. Desenhar é
isto.
Esta cena não terá durado mais do que cinco minutos no fim
dos quais eu disse para mim próprio: — Finalmente sei o que é desenhar.
Aquela demonstração ligou o meu pensamento ao meu instinto
unindo as pontas que o estudo teórico não tinha sido capaz de ligar.
E desenhar é isto mesmo. Para além da mensagem, daquilo que
representa, há uma qualidade intrínseca ao próprio traço que resulta do seu
aparecimento como objecto de pleno direito.
Nem todos os artistas desenham no sentido em que acabei de
enunciar. Canto da Maya não fazia desenhos. Mas
dizia que, no fundo, não fazia outra coisa. — Dar forma é desenhar. —
Disse-me uma vez. E, de facto, quando um escultor cria um objecto que tem três
dimensões está a considerar uma infinidade de perfis, uma infinidade de
desenhos. Mas é outro tipo de desenho. Quando o escultor modela, ou constrói, o
significado de perfil é diferente do sentido comum. O perfil não é uma coisa
que se vê de lado. É uma interiorização em todas as direcções que faz parte
integrante de conceitos como massa, volume, plano, cheio e vazio, estrutura,
etc. Por vezes tenta ultrapassar tudo isso e adicionar à sua representação a noção
de tempo. Raposo de França tem uma peça, na Assembleia Regional, muito
significativa nesse aspecto. Trata-se de uma figura que se desloca no espaço e fixa o movimento numa sequência
de momentos. Outros preocupam-se com o tempo e o espaço, o lugar onde a
realidade existe. É o que faz o pintor Eduardo Teixeira com a fragmentação da
realidade numa sobreposição de momentos distintos. E o próprio Tomaz Vieira com
os seus planos articulados entre si que nos dão uma representação simultânea de
vários aspectos da realidade que, muitas vezes, são ancorados com um único
objecto.
O Tomaz não tem problemas com o acto de desenhar. Tem desenhos que parecem uma actividade lúdica. Tem outros por onde perpassa o lirismo, outros ainda de forte expressão dramática. Em alguns consegue-se ver a origem de pinturas posteriores como se fossem a resolução de um problema formal. Outros ainda são nitidamente a recolha de elementos para grandes composições.
Evidentemente o Tomaz é, essencialmente, um pintor. Toda a
sua pintura, principalmente depois que se fixou nos Açores, é uma reflexão
sobre o povo que habita estas ilhas. Não à procura das consequências da
insularidade mas
na pesquisa ou interpretação do que mais fundo lhe vai na
alma. A obra do Tomaz ultrapassa os limites da religiosidade e do folclore, da
própria condição social, para nos dar o retrato mais íntimo, quase espectral,
do homem e da mulher perante o extraordinário e inexplicável acto de
existir. E existir nestas ilhas não é o mesmo que existir noutro lado
qualquer. Não é melhor nem pior, é apenas diferente. Essa diferença pode nem
ser importante para outros artistas mas foi nela que o Tomaz apostou.
Mas sendo pintor, o Tomaz não menoriza o desenho. Até o
utiliza como campo de experimentação. E são vários os desenhos que revelam essa
vontade.
Falemos então do livro, que é a razão de estarmos aqui, e a
primeira questão é saber porquê este tipo de livro. É que o Tomaz já teve
outros livros, muitos catálogos, uns mais luxuosos outros mais simples. E este
livro nem sequer tem um formato especial, é quase um livro de bolso. Ora para o
Tomaz Vieira nunca menos do que, pelo menos, o formato A4, capa dura, uma longa
introdução e, claro, papel couché. Pois é, só que as cartas de amor não se
escrevem em papel couché e este livro é uma carta de amor. Por isso é simples
como o amor que não precisa de muita literatura para se mostrar. E pode-se amar
assim a Arte e, no caso presente, o Desenho. O livro é resultado de algumas
cumplicidades. O Tomaz deixou Vanessa Branco pesquisar o seu acervo dando-lhe
completa liberdade. Vanessa Branco usou essa liberdade, fez as suas escolhas e
compôs uma narrativa emotiva que passa pelas pessoas, pelos lugares, pelo
pensamento. Escreveu a introdução de uma página, quase querendo não dar nas vistas,
procurando valorizar o autor dos desenhos. A matéria prima é do pintor mas o
percurso é da autora do livro. Nestes desenhos está toda uma vida, desde os
verdes anos do artista até à sua maturidade. Sem seguir uma lógica cronológica
como é próprio dos historiadores, a autora deixou-se guiar pela emoção
procurando descobrir em cada desenho o momento existencial da sua origem. Teve
que, de certo modo, experimentar a empatia filosófica do conhecimento e sentir
como seus os momentos que o pintor viveu. Daí a fluidez da sequência das
imagens, a simplicidade dos títulos que, no fundo, são verdadeiros comentários.
Até o tipo de letra é de uma eficácia que surpreende.
O livro está dividido em capítulos. Cada capítulo tem um
nome. Em lugar de palavras que contam uma história, cada capítulo contem
desenhos que mostram momentos que contam histórias. E regressamos à questão de
saber o que apareceu primeiro, a imagem ou a palavra. E perguntamos o que é
mais importante. Neste livro o verbo é equivalente à imagem. Porque escrever DO
MAR, O PRINCÍPIO E O FIM ou PARA ALÉM DAS ESTAÇÕES DO ANO ou ainda DA
MELANCOLIA é evocar a transcendência dos momentos, o vibrar das emoções e o
desenrolar da vida. O que Vanessa Branco fez foi escrever um livro onde as
palavras são desenhos do Tomaz. Imaginam esse discurso em papel couché? Seria
um desastre. Estragaria a beleza da simplicidade que envolve a feitura deste
livro.
Por seu lado o editor ao dar cobertura a este tipo de livro
também participa na sua magia e acentua
a ideia de que o Tomaz é um primitivo. Porque percebe-se que existe uma forte
ligação à sua tribo, neste caso o povo da ilha. De certo modo ele é um
exorcista porque penetra bem fundo na alma açoriana e expõe à luz do dia os
seus fantasmas. E as pessoas compreendem-no e compreendendo-o conhecem-se
melhor a si próprias.
No fim do livro existe uma página com um pequeno texto do
Tomaz. Nesse texto, em seis parágrafos, alguns de apenas uma linha, ele diz
tudo sobre o desenho. No último diz: “Liberto-me daquilo que desenho”. O que
Vanessa Branco fez foi pegar nessas libertações, incorporá-las no seu ser
sensível e distribuí-las pelas páginas do livro de modo a criar uma história
coerente. História que não obedece à racionalidade do tempo, mas à eficácia da
emoção.
José Maria França Machado.
Texto de apresentação do livro Uns Mais Outros Menos de Vanessa Branco e seleção de desenhos de Tomaz Borba Vieira.











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