sábado, 29 de março de 2014

O último adeus ao império





O último adeus ao império

...Olhou para o mar e jurou, nunca mais ninguém me expulsa de lado nenhum, esta vai ter de ser a minha terra.

Dulce Maria Cardoso, O Retorno

Vamberto Freitas

Vamos celebrar em poucos dias os 40 anos do 25 de Abril – a libertação de uns e a dor de outros. Não haverá nada de mais cruel na reestruturação revolucionária de uma sociedade do que esquecer algumas das suas vidas que mais sofreram com tais vendavais. Repito aqui uma confissão muito pessoal: para mim, que vivia um oceano e um continente imenso à distância de Lisboa, foi, sem que eu me apercebesse imediatamente de tal turbilhão pessoal, um dia que mudou todo o meu destino, tanto dentro da América como depois no meu regresso definitivo à nossa terra. Digo isto para dizer de seguida: celebro sempre a grande transformação da sociedade portuguesa como um acontecimento que me trouxe tudo o que sonhara naqueles anos de faculdade e politização à esquerda, como convinha à maioria da minha geração do Vietname (de onde me livrei, ao contrário de muitos com a minha idade à época), e que me abriria as portas para que eu pudesse voltar a viver com dignidade no meu país de nascença. Essa é outra história, a minha e a de milhares de conterrâneos meus,e não cabe por enquanto neste espaço. Enquanto eu me incluía entre os cidadãos em euforia e liberdade reconquistada, outros seriam em poucos meses rotulados de “retornados”, mal olhados e discriminados como se de um grupo marginal e de todo inconveniente se tratasse, alojados em hotéis, pensões ou em casas de familiares, os seus contentores amontoados em Alcântara com o que lhes restava de uma vida, por vezes de gerações, ao serviço de pátria nas terras distantes. Não tinham nada a agradecer ao golpe militar em Lisboa, foram as suas vítimas inesperadas; não eram “colonialistas”, eram na sua grande maioria famílias que haviam deixado a miséria portuguesa para reconstruir as suas vidas “no país dos outros”, como diria o grande poeta moçambicano Rui Knopfli noutro contexto e forma, tinham lançado novas raízes, e tinham, uma vez mais, na sua vasta maioria, reconstruido satisfatoriamente vidas remediadas nos trópicos sem nunca pensarem que seriam convidados a abandonar tudo ou a morrer mesmo às mãos de novos poderes sem imaginação naquele momento escaldante de interesses próprios. Que esses mesmos trópicos aceitam hoje novas ondas de emigração lusa exactamente para retomarem projectos de interesse nacional é de uma ironia mais do que cruel para nós – é vergonhoso, degradante e injusto num país que “pertence” novamente a um suposto grande bloco de nações, também ironicamente intitulado de União Europeia. Que união, que prosperidade, e que futuro nos esperava, não descontando obviamente o que de bom também nos veio da nova aventura no continente a que, pelo menos geograficamente, pertence Portugal.

O breve introito aqui tem a ver com um romance que li tardiamente, mas agradeço a quem mo trouxe à minha atenção, ficando eu a saber que vinha directamente ao encontro das minhas temáticas ficcionais preferidas, ou seja a peregrinação do nosso povo nas mais variadas circunstâncias e geografias durante todo o século passado: O Retorno, de Dulce Maria Cardoso, publicado originalmente em 2011 e depois numa terceira edição o ano passado, e que também acaba de ser lançado na França por razões, suponho, muito parecidas com as nossas, a Argélia dificilmente sairá da sua memória – o regresso após a aventura colonialista em África de centenas de milhares de cidadãos a uma terra que haviam há muito deixado e os seus filhos que de cá só a conheciam, como aliás se refere mais do que uma vez neste magnífico romance, dos mapas da escola ou das histórias de pais e avós. Estamos, no tempo real e diegético destas páginas, em Luanda e Lisboa, em 1975, cujos dias, esses, quase todos conhecem ou lembram com fervor ideológico, ou então o sofrimento da incerteza quando todo um mundo se desmorona à nossa volta. Genialmente – uso a palavra sem quaisquer reticências neste caso – a autora opta por um jovem narrador de 15 anos de idade, de nome Rui, que nos conta toda história enquanto “reside” no Hotel do Estoril, não pelo luxo mas simplesmente porque tinha sido também escolhido pelas autoridades como albergue parcial dos recém-chagados a Lisboa com pouquíssimos escudos na algibeira. Pela sua idade e pelo seu espanto do que lhe acabava de acontecer na vida na companhia de sua mãe e irmã enquanto esperam ansiosamente pelo pai que havia sido preso pelas novas forças de segurança angolana, Rui é um imparável turbilhão de palavras e conflitos interiores, a raiva que sente só temperada pelos afazeres diários de um adolescente com outros na mesma condição, e pela sua lenta descoberta do país que para ele havia sido só uma abastração longínqua. Creio ter havido mais uma razão para que a voz desta fulgurante narrativa seja a de Rui, é um modo de eliminar a “ideologia” da raiva, que se tornaria, por certo, uma vociferação violenta de qualquer adulto com a vida desfeita – essa inevitável gaveta do romance vem-nos de modo bem mais ameno quando nos é relatado a fala que ele ouve e transmite dos adultos à sua volta. É tempo de todas as memórias, de tudo o que haviam vivido numa casa mais ou menos humilde em África, dos amigos de paradoiro agora desconhecido, das alegrias e tristezas de vidas por entre a aventura constante e, assim mesmo a saudade da metrópole à distância, a referência sempre presente nos dias em que ainda não adivinhavam a sua sorte decidida por acontecimentos e personalidades históricas desconhecidas até à inevitabilidade do fim do império. Sim, os personagens reais são referidos aqui, e o leitor não se surpreende dos termos utilizados para os descrever, muitos deles ainda vivos e no activo entre nós. De resto, é o humor imparável, que também aproxima o leitor alheio à experiência real vivida e sofrida por todos estes personagens.

Mas a minha irmã – diz Rui ao chegar ao fim da sua aventura de desalojado, a narrativa estando prestes a encerrar – ainda não vai para universidade, inventaram uma coisa que se chama serviço cívico e é o que a minha irmã vai fazer este ano, a minha irmã e o namorado, o besugo da metrópole que ainda nem está na universidade e já parece um doutor. A minha irmã deve pensar que se namorar com um besugo de cá deixa de ser retornada, só mesmo uma rapariga para pensar numa coisas dessas... O Gegé e o Lee também não vão acreditar que aqui na metrópole as famílias vão à matinée ver filmes como a Emmanuelle, aposto que nem no Brasil nem na África do Sul acontece isso, deve ser uma das poucas coisas que a metrópole tem melhor...”

Autora/narrador, texto, contexto. Suponho que Dulce Maria Cardoso fala de si neste romance, transfigurada numa voz masculina, pois devia ter a mesma idade do Rui aquando do seu regresso à “metrópole”. Portugal nunca entendeu, ou se importou, com a dor dos seus emigrados “voluntários”, muito menos com a dor destes “retornados”, mais de meio milhão de seres humanos a braços naquele dramático momento histórico com todos os seus mundos caídos, e em dias revolucionários que lhes manifestavam só desconfiança e acusações injustas de toda ordem, esquecendo-se os alguns militares protagonistas do 25 de Abril que foram eles os primeiros colaboradores de um Estado senil e sem uma consciência empática do que tinha feito à sua gente, dentro e fora do pequeno território nacional. Num outro texto citei a autora quando numa entrevista literária diria ao seu interlocutor que só em 2010 começou a admitir certo sentimento de pertença a Portugal, mas ainda não estava totalmente certa disso. Grande e generosa escritora – se fosse eu, a rejeição seria para sempre após a recepção que um país em delírio raivoso me tinha dispensado.

A menção de dois países aparece continuamente nestas páginas: América e Brasil, que um jovem narrador já imaginava como sendo a salvação e regeneração dos seus, e como comprova a nossa história. É para aí que vamos quando mais nada é possível ou viável portas adentro. Acabam eles por ficar, e a sua razão é também implacável – fariam finalmente de Portugal a sua incerta e nova ou ancestral pátria, fariam dela o seu último poiso. O sucesso da sua reintegração não se deve a quem os recebeu, deve-se à sua coragem, força, inteligência e iniciativa.

Antes do presente volume, Dulce Maria Cardoso já tinha publicado Até Nós, O Chão dos Pardais, Os Meus Sentimentos e Campo de Sangue. Acaba de publicar este ano os contos de tudo são histórias de amor. O Retorno, pelo que li a este respeito também, é ainda hoje mais reconhecido no estrangeiro do que entre nós. Entendo isso, infelizmente.

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Dulce Maria Cardoso, O Retorno (3ª edição), Lisboa, Tinta-Da-China, 2013.

 

segunda-feira, 24 de março de 2014

Os Livros que nos chamam

 
 
 

Há um tipo peculiar de livros que nos chamam nas livrarias. É esse um dos grandes argumentos a favor das livrarias.

Sem elas seria impossível ouvir essa voz que nos faz comprar livros que nunca contávamos encontrar, nem procurar, e muito menos comprar. Se "entrar" numa livraria electrónica, como a Amazon, eu sei o que procuro e através dos mecanismos de busca encontro livros que são próximos dos que procuro, mas não tenho aí verdadeiras surpresas. Posso comprar com contentamento, mas não descubro.

Nas livrarias descubro, embora infelizmente cada vez menos nas livrarias portuguesas, quase todas iguais, cheias de papel pintado com o mesmo grafismo, o mesmo estilo de capas e com os livros razoáveis e bons afogados por centenas de títulos que não duram uma semana de exposição, e que são, por regra, pouco mais que modas. Por outro lado, a proximidade com a edição portuguesa, o conhecimento do que vai sair, retira muito o factor surpresa e por isso, os livros de que vou falar são em inglês e na sua maioria comprados em livrarias estrangeiras.

continuar a ler aqui aqui.



sexta-feira, 21 de março de 2014

24 Anos da SolMar

 
 
Hoje, no dia Mundial da Poesia, a Livraria SolMar, comemora 24 Anos, dos quais nos orgulhamos muito, pela terra que amamos, continuando teimosamente a semear artes e letras.
O nosso muito obrigado aos nossos amigos e leitores.


terça-feira, 18 de março de 2014

José Medeiros Ferreia 1942-2014


                                                   Fotografia de Fernando Resendes


Perdemos hoje, um Grande Homem e um Grande Amigo. O nosso muito obrigado por tudo o que nos deu.
As nossas condolências à sua família e amigos.
José Medeiros Ferreira 1942-2014.


segunda-feira, 10 de março de 2014

Álamo Oliveira sobre borderCrossings: leituras transatlânticas 2





VAMBERTO FREITAS
– o leitor atento da nossa escrita
Álamo Oliveira

BorderCrossings/ leituras transatlânticas – 2  reune 80 textos recenseativos e ensaísticos, que dão continuidade aos incluídos em BorderCrossings – 1. Os textos estão agrupados por quatro espaços geográficos, cada um com título próprio, assim designados: «Literatura e açorianidade», «Diáspora e literatura», «Imaginários americanos» e «Brasil próximo e distante». Nestes subtítulos, cabe um conjunto significativo de leituras que, de uma maneira ou de outra, motivaram Vamberto Freitas para comentários críticos e opinativos que, por sua vez, exercem a função de originarem um outro e alargado número de leitores.

A aproximação analítica aos livros dos outros faz com que Vamberto Freitas seja, de forma indiscutível, o nosso crítico mais atento, mais ecléctico, melhor informado e também o que melhor domina as ferramentas que permitem a dissecação do texto, para proporcionar melhor leitura e melhor entendimento, sem que o seu ponto de vista fique maculado por qualquer tipo de pragmatismo. Aliás, acrescente-se que ele é um crítico generoso, exercendo o seu direito de opinião sob uma perspectiva pedagógica otimizada. Não fosse a sua generosidade e o seu gosto pela leitura e muito pouco se saberia, a nível regional e nacional, sobre a actividade editorial açoriana.

Como se sabe, Vamberto Freitas é a voz autorizada dos livros de autores portugueses, com predominância para os dos Açores e também dos livros de autores que escrevem na língua dos seus países de adoção e que têm procurado conquistar visibilidade nas designadas literaturas étnicas dos espaços da emigração portuguesa.

São já muitos os livros que Vamberto Freitas tem publicados, nos quais vem a reunir um trabalho persistente no âmbito da recensão crítica. Sabem disto quantos têm acompanhado o que faz publicar em jornais, revistas e, sobretudo, em suplementos literários, muitos dos quais coordenados por ele. Todos têm a noção de que se está perante um contributo inestimável para a revelação e apreço do que tem sido a nossa escrita criativa.

E veja-se o conteúdo de Border Crossings – 2:

«Literatura e açorianidade» é o capítulo que acolhe as recensões sobre os livros de autor açoriano. São diversos os nomes, alguns já desaparecidos do nosso convívio (Natália Correia, Fernando Aires), e outros tão novos ainda como Joel Neto e João Pedro Porto. O capítulo dedicado à «Literatura da diáspora» está aberto a diversas aproximações críticas sobre livros de autores lusodescendentes, mas também europeus e até islâmicos. Em «Imaginários americanos» cabem muitas abordagens a autores e livros que ajudam a reflectir sobre aqueles «imaginários» específicos. O quarto capítulo apresenta alguns escritores brasileiros que Vamberto Freitas vem a ler (Assis Brasil e George Monteiro, entre muitos) e que partilha com os outros.

Ao folhear este livro, cada leitor se apercebe facilmente que um dos aspectos importantes é o da sua estruturação, arrimada a uma arrumação lógica e cuidada, tornando-o de fácil consulta e fazendo com que os textos, para além da sua virtualidade pedagógica, possam reanimar o gosto pela leitura.

Já alguém disse que, se não fosse a persistência crítica e de registo de Vamberto Freitas, seria muito difícil falar-se da literatura açoriana com sabor a História, cronologicamente exposta e devidamente rodeada pela escrita nacional e internacional. Na verdade, ele contextualiza, sem ser sua intenção obedecer a tal propósito, a produção literária açoriana, relevando-a pelo que ela vale e pelo contributo indelével que vem a dar ao corpus da literatura de Língua portuguesa.

Posto isto, pretendo deixar expresso que o que devemos a Vamberto Freitas não se paga com agradecimentos de circunstância. Claro que temos outros nomes que têm prestado também um grande contributo na divulgação da escrita açoriana, como José Martins Garcia, António Machado Pires, Urbano Bettencourt e outros. Neste momento, cabe-me fazer emergir a generosidade de Vamberto Freitas, a qual não é passível de qualquer suborno sentimental, mesmo quando bem intencionado. Fico com BorderCrossings/ leituras transatlânticas – 2 para ler grata e atentamente.

 



quarta-feira, 5 de março de 2014

boderCrossings: leituras tansatlânticas II de Vamberto Freitas





 
Prefácio a boderCrossings: leituras transatlânticas II

 

Este segundo volume de borderCrossings: leituras transatlânticas foi (me) imaginado desde o início quando iniciei a coluna do Açoriano Oriental (Ponta Delgada) em 2010, e quando me foi então proposto assinalar todas as semanas o que, do muito que dentro e fora dos Açores, se ia publicando e que mereceria a atenção dos leitores. Este “muito” refere-se à literatura açoriana de várias gerações, assim como à literatura da nossa imigração, incluindo a que desde há alguns anos a esta parte começou a brotar de vários sectores académicos e intelectuais entre os luso-descendentes, particularmente nos EUA. Não escrevo para satisfazer a curiosidade, por parte de alguns, do que acaba de sair no mercado livreiro português, nem sequer ante os nomes mais novos e sonantes da literatura portuguesa contemporânea. Interessa-me aqui, em primeiro lugar, a escrita contemporânea que tem como referencial a experiência e/imigrante lusa lado a lado com a memória ancestral dos seus descendentes, ou então as ideias que, entre nós, enformam as sociedades em que nos encontramos e com as quais nos identificamos, desde qualquer recanto no mundo lusófono ao continente norte-americano. Nem por um segundo insinuo que o que se encontra comentado e contextualizado entre estas páginas se aproxima de qualquer “cânone” completo da literatura das nossas peregrinações. São escolhas minhas, ou então que se impõem pelos próprios autores que já conquistaram para si um espaço literário nesta ou nas suas sociedades natais, como no caso dos escritores, poetas e ensaístas de primeira ou mais gerações nos Estados Unidos. Para mim, tem sido gratificante ver nascer uma nova geração de escritores que fazem questão de se identificarem ante o seu público anglo-americano como “Portuguese-American writers/escritores luso-americanos”. Em nada se “reduzem” com essa designação, simplesmente reclamam para si todo um passado vivido e/ou transmitido pelas gerações anteriores, as que lhes deram vida, lhes moldaram o destino.

 Aí está, creio, o meu e o trabalho dos meus colegas em toda a parte – sim, a literatura luso-americana existe, e promete um dia, a melhor dela, fazer parte de duas grandes Tradições: a portuguesa e a americana. Não é pouco. É a integração intelectual e artística nas nossas pátrias sem fronteiras, nem sequer já têm língua oficial – somos daqui como somos de toda a parte, para agora redizer, ao contrário, o grande poeta da modernidade lusa transfronteiriça.

Vamberto Freitas

Ponta Delgada

Fevereiro de 2014

 

 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Urbano Bettencourt - Inquietação insular e figuração satírica em José Martins Garcia



« (...) Fazendo um breve exercício de memória, creio que a escolha da obra de José Martins Garcia, particularmente na sua vertente satírica, começou há quarenta anos, quando, em finais de 1974, Manuel Pereira de Medeiros, o Livreiro açoriano de Setúbal, me chamou a atenção para um livro que trazia um título esquisito, «Katafaraum é uma nação«, e me deixou ainda outras informações de natureza extraliterária, que, aliás, nunca interferiram no meu relacionamento com a obra. Nesse livro chamou-me a atenção o «tom» da narrativa inicial sobre a docência que se esgota no método e na análise da metodologia do método, num jogo de espelhos verbais que se desdobram até ao infinito, esterilmente; mas detive-me em especial na segunda parte do livro, em parte pelos conteúdos narrativos (a guerra em África, entre outros), em parte pelo jogo irónico com alguma nomenclatura gramatical conhecida.
Depois, no ano letivo de 1975-76, o acaso fez-me aluno de José Martins Garcia numa cadeira de Linguística e pude, então, voltar a «Katafaraum» já com outra competência de leitura e descodificar aquilo que me escapara inicialmente: o tratamento irónico a que também aí eram sujeitos nomes e conceitos como Chomsky, competência, «performance».
Eu, afinal, tinha chegado à Linguística por portas travessas, e entre o discurso sério das aulas e o discurso irónico da ficção devo ter balançado bastante. O discurso da ficção acabou por prevalecer…»


Excerto do texto de apresentação da tese de Urbano Bettencourt, ontem na Universidade dos Açores,  "Inquietação insular e figuração satírica em José Martins Garcia",  esta defendida com Distinção e Louvor por unanimidade do júri.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Joseph Cardozo um Corsário Açoriano Em Argel




No Outono de 1675, o navio português Nossa Senhora da Palma e São Raphael, que havia largado do Maranhão com destino a Lisboa, foi capturado ao largo do Cabo de São Vicente por um corsário de Argel e forçado a seguir para este porto, situado na região do Norte de África então designada por “Berbéria”. Uma operação que passara a fazer parte da vida quotidiana do Atlântico Norte, desde que, a partir do início do século XVII, os corsários de Tunis e Argel, em consonância com os seus confrades de Salé, alargaram a sua actividade, ao “Grande Oceano”.

Entre os tripulantes daquele navio encontrava-se um grumete de 19 anos, natural da Ribeira dos Flamengos, na ilha do Faial, de seu nome Joseph Cardozo. Estava perto de terminar a sua primeira viagem de longo-curso, mas, contrariamente às suas expectativas, esta acabou no mercado de escravos de Argel onde, a par dos outros elementos da tripulação e dos passageiros, foi vendido a quem por ele ofereceu mais dinheiro.

Por decisão do seu proprietário, Joseph Cardozo embarcou, passado pouco tempo, num navio de corso, cuja tripulação era constituída por soldados turcos, por cativos como ele próprio e por europeus que, por terem renegado a fé de Cristo, viviam em plena liberdade, dando mostras de alguma prosperidade. Uma situação que contrastava claramente com sua, obrigado que estava no fim de cada viagem, a entregar ao seu “senhor” o quinhão que lhe fora atribuído, depois de feita a divisão das presas efectuadas pelo seu navio.

A exemplo do que aconteceu com alguns dos muitos milhares de cativos que caíram nas mãos dos corsários da Berbéria, em particular com aqueles que integravam as tripulações dos navios de corso, Joseph Cardozo converteu-se ao Islamismo e continuou a exercer a sua nova profissão de corsário, mas agora como “homem livre”. E, ao que tudo indica, com grande competência, não só pela sua ascensão na hierarquia do corso, onde atingiu o posto de imediato, mas, sobretudo, porque passou a ser conhecido em Argel como um corsário de fama.
Joseph Cardozo Corsário Em Argel (1675-1694), Mário Fernandes, Chiado Editora.


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

"Uns Mais Outros Menos" por José Maria França Machado




UNS MAIS E OUTROS MENOS

 

Eu pretendia começar dizendo que o desenho é a fronteira entre o nada e o ser. Isto no sentido de que cada coisa tem uma essência que lhe é própria e que se esgota em si mesma. Uma cadeira é uma cadeira e nada que exista fora dela interfere na sua essência de cadeira. Mesmo quem nela se senta não pode interferir na sua natureza. Para essa peça de mobiliário é como se nada existisse fora dela. Porquê? Porque a cadeira não é um ser consciente. Claro que os seres vivos podem ter alguma consciência de si e interagir com o mundo exterior. Mas em termos de forma eles existem enquanto tais e, se não existissem, no seu lugar estaria o nada. Mas o desenho é apenas uma característica da forma, logo esta é que é a fronteira entre o ser e o nada. É um conceito que serve apenas para consciencializarmos a existência do ser. Em boa verdade o nada não existe. Mas ao designar o nada estou a contar com ele. Então eu diria que a essência do nada é a não existência. O que quer dizer que a não existência existe. Bom, vamos ficar por aqui e nem vamos tentar falar em transcendência, imanência, ser e não ser, e tudo o mais sobre o que se debruçam os filósofos, na tentativa de explicar esta coisa magnífica que é existir. O mundo físico é suficientemente rico para baralhar a nossa pobre inteligência. Basta pensar na electricidade, no magnetismo e na gravidade  para vermos como existem coisas, que lá terão a sua forma, nem que seja em equações matemáticas, de que conhecemos os efeitos mas desconhecemos a substância. E o ser, se aceitarmos a Metafísica, pode ser informal. Portanto o que eu posso afirmar, com algum bom senso, é que a forma é o aspecto  exterior das coisas. Reconheço, no entanto, a insuficiência desta afirmação. Sobre o assunto do ser e do nada Sartre escreveu um livro de mais de quatrocentas páginas e outros, antes dele, fizeram coisas semelhantes o que nos dá uma ideia de quão vasto é o problema. Se um artista tivesse que estudar esses livros para realizar obras de arte os museus estavam vazios. Peço desculpa aos filósofos por esta pequena brincadeira. Sei que o assunto é sério e se o menciono é porque eu próprio, na minha ignorância, sinto necessidade de equacionar o problema da forma do modo menos empírico que me é possível.

 
Quando referimos o desenho de uma forma, ou da forma de um objecto, estamos a fazer uma redução abusiva dessa forma. Porque o objecto tem volume, massa, densidade, textura e uma infinidade de perfis. Logo, reduzir tudo isso a um único desenho é a maneira de nos apropriarmos de uma ideia, a ideia que temos dessa forma.

Todo objecto físico tem forma, desde o infinitamente grande ao infinitamente pequeno. Mas parece-me evidente que ao usar a palavra infinitamente grande ou pequeno estamos a afirmar a nossa incapacidade de apreender o cosmos. O infinito é, por definição, inapreensível, ou seja, incognoscível. O Universo será, porventura, finito. Há boas razões para pensar que o é. Mas é tão incomensuravelmente grande que, quer na direcção das estrelas quer na das partículas, há um horizonte em que o perdemos de vista.

Quanto aos objectos físicos de forma indefinida, como os fluidos, também têm forma. Os seus átomos e moléculas têm padrões de movimento que podem ser exemplificados em desenho. Actualmente há cientistas que pretendem descobrir a fórmula matemática que define essas formas, utilizando a extraordinária capacidade de cálculo dos computadores. Já Leonardo D’ Avinci se interessou pelo movimento dos fluidos e tem desenhos que ilustram as suas observações.

Temos, portanto, que o desenho é o registo de uma ideia. Nesse sentido é um conceito abstracto que se manifesta numa visibilidade concreta. A verdade é que o conhecimento é o conjunto de ideias que temos no cérebro e que necessitam de veículos concretos para serem trocadas entre as pessoas. Esses veículos podem ser de vária natureza entre os quais, a palavra e o desenho serão os mais significativos.

Não sei se é possível dizer o que apareceu primeiro, se a palavra se a imagem. Palavra dita ou imagem desenhada. É possível que os primitivos hominídeos tenham mimado os animais que queriam caçar antes de lhes darem um nome.

Sabe-se quando tiveram a capacidade de articular a linguagem. A antropologia diz-nos isso com alguma exactidão. Se o fizeram mesmo, nesse momento, não sabemos. O que sabemos é que em determinada altura os homens fizeram as gravuras rupestres, numa feérica demonstração de que a sua humanização estava completa. Esses homens eram iguais a nós, agiam da mesma maneira, pensavam do mesmo modo.

O significado dessas gravuras não sabemos. Poderemos pensar que tinham um significado mágico ou religioso. Que o facto de terem sido desenhados no interior de cavernas, de difícil acesso, é prova do seu carácter religioso mas, as gravuras de Foz Côa foram feitas ao ar livre, à luz inclemente do Sol.

Também podemos pensar num tempo pré-mágico e pré-religioso onde o homem tinha necessidade de capturar a imagem para se identificar com a realidade tal como o fazem as crianças. Qualquer criança desenha até descobrir que os seus desenhos já não se adequam à imagem que tem da realidade. Volta a desenhar quando é capaz de fazer essa adequação. É nessa altura que o talento começa a despontar.

O que é possível ver é que, os homens pré-históricos que fizeram essas gravuras, dominavam perfeitamente o desenho e tinham soluções formais que nos enchem de espanto.

Também podemos deduzir que, tal como agora, essas obras eram destinadas ao grupo social e fundamentais na sua coesão. Veremos como o Tomás, nesse aspecto, é um primitivo.

Dissemos que o desenho era o modo que tínhamos de nos apropriarmos de uma ideia. Ou, de representarmos uma ideia. O que, no nosso cérebro, corresponde a um objecto é um campo electroquímico cuja composição resulta da imagem que se produz na retina, por sua vez, uma representação do objecto. Quanto ao objecto em si, e quem diz o objecto pode dizer o cosmos, é apenas um quantum de espaço onde alguns átomos se aproximam numa estrutura particular. Mas essa aproximação é muito relativa porque os átomos mantêm uma enorme distância entre si. Para os neutrinos, que nos atravessam o corpo a todo o momento, aos milhões por centímetro quadrado, é como se não existíssemos e a matéria é constituída pelas raríssimas partículas que eles, esporadicamente, encontram. O resto é vazio. Nós somos, essencialmente, vazio.

Na arte paleolítica o desenho é figurativo. O que é que isto quer dizer? Obviamente conforme o original. Mas o que estaria subjacente a essa representação não seria algo muito para além da representação pura e simples do objecto?  Não seria muito mais importante a relação entre o pensamento humano e a imagem, veículo de um problema existencial, porventura de sobrevivência? Jamais o saberemos, mas, quando no Neolítico, aparecem figurações abstractas, ou tão estilizadas que se afastam definitivamente do original, podemos julgar que a relação entre a forma desenhada e a ideia era muito mais complexa do que, à primeira vista, poderíamos supor. E porque será que em ambos os casos falamos de figuras? Figuras abstractas? Sim, figuras, porque a figuração, no desenho, é, precisamente, a tentativa de concretizar o que se tem na cabeça por mais abstracta que a coisa seja.

Esta viagem ao passado é importante para vermos como o homem pré histórico já era um dos nossos. E como, desde então, a Humanidade tem seguido determinados padrões. As formas artísticas têm acompanhado o desenvolvimento cultural, tecnológico, filosófico, sociológico e tudo o que caracteriza uma civilização. Por vezes com estagnações e avanços, jamais com recuos. Muitas vezes aquilo que parece um retrocesso é apenas outra coisa.

Quando comecei a conhecer a arte da Idade Média fiquei muito surpreendido. Aquilo parecia muito mal desenhado. Autêntica inabilidade. Com o aprofundamento do estudo verifiquei que havia uma genuína coerência formal nessa arte. Portanto, se eles desenhavam assim era porque queriam. Depois descobri o pensamento que estava na origem desse modo de desenhar. A queda do Império Romano do Ocidente e o advento do cristianismo tinham deslocado o ponto de vista dos homens. O mundo passou a ser um lugar de preparação para a verdadeira vida e o corpo um receptáculo, pouco importante, para a alma. Não era inabilidade, era a representação física de formulações intelectuais. Na origem da representação medieval está a arte paleocristã que, por sua vez, nasce da representação greco-romana, num evolução que acompanha a progressiva mudança do pensamento.                                               

No séc VIII existiu em Liébana um grande iluminista. É designado por Beato de Liébana. Porque o trago à colação? Porque dois grandes pintores do séc.XX, Picasso e Matisse, têm soluções formais extremamente semelhantes às do iluminista referido.

Não digo que o copiaram. Nem sei se conheciam a sua obra. Mas o facto é que as semelhanças são flagrantes. Mas mais do que saber se houve influências é saber se, o que aconteceu, não foi a desvalorização da figura humana, como ícone de uma época que punha em causa o orgulho renascentista do homem em si próprio. Sei que é uma questão polémica. Deixo apenas a interrogação.

As formas artísticas existem para o presente de cada uma delas e para o futuro da Humanidade. Uma vez descobertas podem reaparecer embora o novo contexto nunca seja igual ao primeiro. Uma obra prima do passado continua a ser uma obra prima no presente. A sua cópia será uma coisa sem sentido. Sempre que se tenta reavivar o passado o que se consegue é sempre uma coisa nova.

Mas, afinal, desenhar o que é?

Aristóteles dizia que o valor de um retrato, para um observador, era a sua adequação ao original. Assim, esse observador, tirava prazer ao descobrir essa adequação. Mas o próprio Aristóteles percebeu as limitações desse raciocínio. Porque, se o observador não conhecer o retratado, a obra continua a ter o mesmo intrínseco valor. Então o prazer do observador deve-se à qualidade artística do desenho. Isto que se diz de um retrato aplica-se a qualquer representação. O que quer dizer que é necessária alguma aprendizagem para se poder apreciar uma obra de arte. Sobre este assunto digo apenas que essa aprendizagem deve começar na escola.

Para responder à pergunta, desenhar o que é?, vou contar uma história pessoal.

Um dia, na escola do Porto, um professor, que nem era professor de desenho, disse numa aula: — Querem ver o que se pode fazer com um carvão? — e sentou-se frente a um cavalete com uma folha de desenho. Toda a turma o rodeou. Ele pegou no carvão e começou a traçar uma linha. Ao mesmo tempo ia falando. E dizia: — Reparem como esta linha é luminosa, vibrátil. Se eu a interromper e continuar um pouco mais à frente aquela interrupção funciona como um ponto de luz. Agora continuo e carrego mais no carvão. A textura do papel resiste à sua progressão. Eu forço essa resistência e o traço alarga-se, torna-se mais dramático. Pode fazer alguns desvios que não comprometem a direcção que lhe dou. Passa a haver um contraste com a parte anterior do traço. De um lado tenho luz, do outro tenho sombra. Se agora traçar outro traço ele vai encontrar o primeiro. Os dois confrontam-se. Tenho que ser eu decidir qual deles sai vencedor. Seja qual for o resultado o confronto deixou marcas no papel. Em todo este percurso desenrola-se um drama, entre o meu pensamento, as minhas emoções, a minha mão e os materiais que utilizo. Quer represente alguma coisa concreta ou apenas um estado de alma, para além do que o que desenho queira significar, fica na folha de papel o registo desse drama. Desenhar é isto.

Esta cena não terá durado mais do que cinco minutos no fim dos quais eu disse para mim próprio: — Finalmente sei o que é desenhar.

Aquela demonstração ligou o meu pensamento ao meu instinto unindo as pontas que o estudo teórico não tinha sido capaz de ligar.

E desenhar é isto mesmo. Para além da mensagem, daquilo que representa, há uma qualidade intrínseca ao próprio traço que resulta do seu aparecimento como objecto de pleno direito.

Nem todos os artistas desenham no sentido em que acabei de enunciar. Canto da Maya não fazia desenhos. Mas  dizia que, no fundo, não fazia outra coisa. — Dar forma é desenhar. — Disse-me uma vez. E, de facto, quando um escultor cria um objecto que tem três dimensões está a considerar uma infinidade de perfis, uma infinidade de desenhos. Mas é outro tipo de desenho. Quando o escultor modela, ou constrói, o significado de perfil é diferente do sentido comum. O perfil não é uma coisa que se vê de lado. É uma interiorização em todas as direcções que faz parte integrante de conceitos como massa, volume, plano, cheio e vazio, estrutura, etc. Por vezes tenta ultrapassar tudo isso e adicionar à sua representação a noção de tempo. Raposo de França tem uma peça, na Assembleia Regional, muito significativa nesse aspecto. Trata-se de uma figura que se desloca  no espaço e fixa o movimento numa sequência de momentos. Outros preocupam-se com o tempo e o espaço, o lugar onde a realidade existe. É o que faz o pintor Eduardo Teixeira com a fragmentação da realidade numa sobreposição de momentos distintos. E o próprio Tomaz Vieira com os seus planos articulados entre si que nos dão uma representação simultânea de vários aspectos da realidade que, muitas vezes, são ancorados com um único objecto.

O Tomaz não tem problemas com o acto de desenhar. Tem desenhos que parecem uma actividade lúdica. Tem outros por onde perpassa o lirismo, outros ainda de forte expressão dramática. Em alguns consegue-se ver a origem de pinturas posteriores como se fossem a resolução de um problema formal. Outros ainda são nitidamente a recolha de elementos para grandes composições.

Evidentemente o Tomaz é, essencialmente, um pintor. Toda a sua pintura, principalmente depois que se fixou nos Açores, é uma reflexão sobre o povo que habita estas ilhas. Não à procura das consequências da insularidade mas

na pesquisa ou interpretação do que mais fundo lhe vai na alma. A obra do Tomaz ultrapassa os limites da religiosidade e do folclore, da própria condição social, para nos dar o retrato mais íntimo, quase espectral, do homem e da mulher perante o extraordinário e inexplicável acto de existir.  E existir nestas  ilhas não é o mesmo que existir noutro lado qualquer. Não é melhor nem pior, é apenas diferente. Essa diferença pode nem ser importante para outros artistas mas foi nela que o Tomaz apostou.

Mas sendo pintor, o Tomaz não menoriza o desenho. Até o utiliza como campo de experimentação. E são vários os desenhos que revelam essa vontade.

Falemos então do livro, que é a razão de estarmos aqui, e a primeira questão é saber porquê este tipo de livro. É que o Tomaz já teve outros livros, muitos catálogos, uns mais luxuosos outros mais simples. E este livro nem sequer tem um formato especial, é quase um livro de bolso. Ora para o Tomaz Vieira nunca menos do que, pelo menos, o formato A4, capa dura, uma longa introdução e, claro, papel couché. Pois é, só que as cartas de amor não se escrevem em papel couché e este livro é uma carta de amor. Por isso é simples como o amor que não precisa de muita literatura para se mostrar. E pode-se amar assim a Arte e, no caso presente, o Desenho. O livro é resultado de algumas cumplicidades. O Tomaz deixou Vanessa Branco pesquisar o seu acervo dando-lhe completa liberdade. Vanessa Branco usou essa liberdade, fez as suas escolhas e compôs uma narrativa emotiva que passa pelas pessoas, pelos lugares, pelo pensamento. Escreveu a introdução de uma página, quase querendo não dar nas vistas, procurando valorizar o autor dos desenhos. A matéria prima é do pintor mas o percurso é da autora do livro. Nestes desenhos está toda uma vida, desde os verdes anos do artista até à sua maturidade. Sem seguir uma lógica cronológica como é próprio dos historiadores, a autora deixou-se guiar pela emoção procurando descobrir em cada desenho o momento existencial da sua origem. Teve que, de certo modo, experimentar a empatia filosófica do conhecimento e sentir como seus os momentos que o pintor viveu. Daí a fluidez da sequência das imagens, a simplicidade dos títulos que, no fundo, são verdadeiros comentários. Até o tipo de letra é de uma eficácia que surpreende.

O livro está dividido em capítulos. Cada capítulo tem um nome. Em lugar de palavras que contam uma história, cada capítulo contem desenhos que mostram momentos que contam histórias. E regressamos à questão de saber o que apareceu primeiro, a imagem ou a palavra. E perguntamos o que é mais importante. Neste livro o verbo é equivalente à imagem. Porque escrever DO MAR, O PRINCÍPIO E O FIM ou PARA ALÉM DAS ESTAÇÕES DO ANO ou ainda DA MELANCOLIA é evocar a transcendência dos momentos, o vibrar das emoções e o desenrolar da vida. O que Vanessa Branco fez foi escrever um livro onde as palavras são desenhos do Tomaz. Imaginam esse discurso em papel couché? Seria um desastre. Estragaria a beleza da simplicidade que envolve a feitura deste livro.

Por seu lado o editor ao dar cobertura a este tipo de livro também participa na sua magia e  acentua a ideia de que o Tomaz é um primitivo. Porque percebe-se que existe uma forte ligação à sua tribo, neste caso o povo da ilha. De certo modo ele é um exorcista porque penetra bem fundo na alma açoriana e expõe à luz do dia os seus fantasmas. E as pessoas compreendem-no e compreendendo-o conhecem-se melhor a si próprias.

No fim do livro existe uma página com um pequeno texto do Tomaz. Nesse texto, em seis parágrafos, alguns de apenas uma linha, ele diz tudo sobre o desenho. No último diz: “Liberto-me daquilo que desenho”. O que Vanessa Branco fez foi pegar nessas libertações, incorporá-las no seu ser sensível e distribuí-las pelas páginas do livro de modo a criar uma história coerente. História que não obedece à racionalidade do tempo, mas à eficácia da emoção.
 
 
José Maria França Machado.
 
Texto de apresentação do livro Uns Mais Outros Menos de Vanessa Branco e seleção de desenhos de Tomaz Borba Vieira.


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Austeridade Cura? A Austeridade Mata?



Os Açores, e o país no seu conjunto, têm vivido os efeitos de uma política de austeridade imposta pela União Europeia e pelo Fundo Monetário Internacional, que visava ultrapassar a crise financeira de Portugal e permitir a recuperação económica.
Prestes a terminar o período previsto para a execução do programa da troika e quando é muito visível a divergência entre os resultados previstos e os registados, é essencial organizar um debate que nos aponte caminhos de futuro.

Com este objectivo, Eduardo Paz Ferreira, Professor Catedrático da Faculdade de Direito de Lisboa e Presidente dos Institutos de Direito Económico, Financeiro e Fiscal e de Direito Europeu, reuniu os depoimentos de cerca de cem personalidades da vida portuguesa num livro intitulado: A Austeridade Cura? A Austeridade Mata?, que será apresentado ao público, no Teatro Micaelense, no próximo dia 18 de Fevereiro, pelas 18h 30m.

 A este propósito, Carlos César presidirá a um debate que reunirá Álvaro Borralho, Duarte Melo, Gualter Furtado e Mário Fortuna.
É com o maior prazer que o autor, a Lisbon, Law School Editors, a Livraria Solmar e o Teatro Micaelense, convidam V.Ex.ª para uma sessão da maior importância no nosso panorama cultural e cívico.