segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Uns Mais E Outros Menos


                                                         "Sereia" - Tomaz Vieira 2013



LIBERTAR….

Entre a sensação provocada pela visão de qualquer forma, e a mão do desenhador, processa-se a perceção que comanda o acto de desenhar.
 
A representação gráfica de uma perceção, transposta da mente para o papel, passa a ser o registo de uma libertação. Cada vez que se representa uma forma, pelo desenho, processa-se
uma libertação.

Desenhamos para nos libertarmos através da convenção que permite inventar a linha de contorno.

A linha, em si própria, é uma abstração que surge como método de apresentar, em código, formas sentidas.

 Os desenhos resultam apenas de não serem necessários.

 Liberto-me daquilo que desenho.

 
Tomaz Borba Vieira
novembro 2013"

Vanessa Branco Uns Mais Outros Menos seleção de desenhos de Tomaz Borba Vieira, Letras Lavadas Edições, 2013.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Um Momento Memorável

 
 

                                                   Fotografia de Fernando Resendes


A apresentação de "Não Há Mapa Cor-De-Rosa: A História (Mal)Dita Da Integração Europeia" do Professor Doutor José Medeiros Ferreira, ex-Ministro dos Negócios Estrangeiros, Deputado da Assembleia da República, Grande Historiador, um Grande Senhor, e quem assinou a entrada de Portugal na União Europeia em 1986.
A obra foi apresentada por Pilar Damião, Roberto Amaral e Vamberto Freitas.

Este evento foi uma parceria Teatro Micaelense - Livraria SolMar.


 

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Entrevista a Medeiros Ferreira por Anabela Mota Ribeiro



José Medeiros Ferreira

José Medeiros Ferreira é historiador e político. Considera-se, ou gostaria de ser, um daqueles “seres erráticos”, que percorrem o mundo, de que fala Teixeira de Pascoaes no livro sobre S. Paulo. O livro O Longo Curso reúne uma série de estudos em sua homenagem.

Medeiros Ferreira crê que ficará para a história como o ministro dos negócios estrangeiros que laborou no processo de adesão de Portugal à Comunidade Europeia. Estudou Filosofia em Lisboa, licenciou-se em Ciências Sociais em Genebra, doutorou-se em História na Universidade Nova. Foi dirigente associativo e opositor de Salazar. Esteve exilado na Suíça entre 1968 e 1974. Teve uma intensa carreira política. É um açoriano de quem sempre se esperou tudo. Nasceu em 1942.
A entrevista decorreu na casa onde vive com Maria Emília Brederote Santos, sua companheira de sempre. Olhemos em volta: livros a comer o espaço, xícaras elegantes sobre a mesa, um amarelo intenso no pátio do fundo, onde brincam os netos. E dois sofás, onde nos sentámos. No final, bebeu-se um Porto, assinou o livro que lhe é dedicado e outro sobre Os Açores na Política Internacional.
Pensa que o país o aproveitou pouco.


Continua a sonhar que perde os sapatos?
Agora menos. Sobretudo desde que vi The Big Fish [de Tim Burton]. No filme, as pessoas estavam presas numa aldeia porque os sapatos estavam [dependurados] numa espécie de corda da roupa. Nunca consultei um especialista para decantar o que poderia significar este sonho. Pode ter a ver com o exílio.

Pode ter que ver com a sua natureza insular, que é marcante?
Também. A nota mais saliente é que foi uma coisa repetitiva, durante uns anos.

Comecemos pelo exílio, por Genebra, pela pessoa que era então.
Exilei-me depois de me ter dado uma moratória para continuar em Portugal. Fui expulso de todas as universidades portuguesas em 1965. A expulsão foi bastante grave para o meu futuro. Percebi logo que tinha as pernas cortadas. Tinha 23 anos, tudo era possível. Sou muito formalista e recorri da pena através do Salgado Zenha, do Jorge Sampaio, do Jorge Santos e do Vasconcelos Abreu (tudo advogados meus amigos, graciosos). O meu curso era o de Filosofia, que escolhi no liceu de Ponta Delgada.

Era Antero que o inspirava?
Sempre tive uma tendência para a abstracção e especulação. O exemplo máximo e próximo do Antero de Quental pode ter ajudado. Em 1965 houve um movimento de solidariedade europeu de estudantes expulsos e presos. Tive oportunidade de ter bolsas de estudo, uma delas para Inglaterra. Lembro-me de ter dito: “Ainda não quero sair de Portugal”. Resisti, de certa maneira.

É um pouco paradoxal.
Seria lógico ter saído em 1965, mas os outros aspectos da vida não me corriam mal e fui-me deixando ficar. Ainda passei duas longas temporadas nos Açores, muito férteis em termos de leituras e de reflexão sobre a vida futura. Entre 1965 e 1968 arquitecto um plano para Portugal, que depois foi aperfeiçoado nos seis anos em que estive na Suíça. O exílio é uma decisão muito dilemática.

Sentia-se proscrito? Com essa sentença: “expulso”.
Proscrito, sem dúvida. E certamente acossado. Em Genebra, fui o primeiro a pedir o estatuto de refugiado político. O Eurico Figueiredo, o António Barreto, o Carlos Almeida, a Ana Benavente, as pessoas que estiveram nessas primeiras noitadas: todos ficaram espantados com a minha decisão de apresentar o pedido. Achavam que as autoridades políticas tinham relações diplomáticas com Portugal ao nível da EFTA, que não estariam viradas para aí.

Foi por ser um formalista que pediu o estatuto?
Foi por ser um formalista, quando um formalismo é politicamente relevante. Com o estatuto de refugiado político quis demonstrar que um país como a Suíça reconhecia que em Portugal havia uma ditadura que perseguia fisicamente os seus opositores.

Tinha esperança que o pedido fosse aceite? Deveras?
Deveras. Eu tinha sido dirigente estudantil, preso pela PIDE, tinha sido candidato a deputado à Oposição Democrática, em 1965. Tinha manifestado o meu repúdio à guerra colonial. Se a Suíça não me desse o estatuto de refugiado político, não daria a mais nenhum português. O estatuto foi-me concedido três meses depois. Isto são paradigmas de qualidade democrática e de qualidade de uma terra de refúgio, como era a Suíça. Matriculei-me na universidade de Genève, pretendia recomeçar os meus estudos.

Não tinha completado cá a licenciatura?
Não, embora tivesse praticamente o 4º ano de Filosofia. Preferi fazer a licenciatura em História, moderna e contemporânea. Recebi um convite para me apresentar no office d’entrée da universidade de Genève, do Jean François Bergier, que se tornou mundialmente famoso. Fez aquilo que Mário Soares fez em Portugal por causa do ouro nazi. Foi meu professor de Economia Social. “Estivemos a consultar o seu dossiê, se quiser pode pedir uma bolsa de estudo”. Não foram as autoridades governamentais suíças que me atribuíram uma bolsa de estudo, foram as autoridades universitárias. Considero isto de extrema delicadeza.

Como é que faria se não fosse a bolsa de estudo?
O que os outros portugueses fizeram. O António Barreto, que tinha chegado em 1963, fez trabalhos vários. Quando cheguei já era funcionário das Nações Unidas. Eu não sabia o que me ia acontecer, nem sabia qual era o meu destino.

A Suíça: foi porque tinha interesses e contactos lá?
O meu primeiro ponto de apoio foi Paris, onde fiquei alguns dias. Claro que isso não pôde ficar na minha guia de marcha, porque a Suíça só me daria o estatuto de refugiado político no caso de ter ido directamente para a Suíça. O Eurico Figueiredo mandou-me um telegrama dizendo: “Vem para Genève, estamos à tua espera, tens cama”.

A Maria Emília já existia na sua vida nessa altura?
Já. Foi ter comigo à Suíça logo no ano seguinte. Conseguiu ser professora de português numa escola de tradução, muito reputada, que tinha sido criada pelos antigos intérpretes e tradutores do processo de Nuremberga.

O fim da guerra tinha sido há 20 anos, tudo era fresco.
Mas tínhamos a noção de que a guerra tinha acabado há séculos. A partir de 1969 ficámos juntos em Genève. Até hoje.

O exílio, na nossa conversa, chegou por via do sonho dos sapatos, da angústia de os perder.
Só começo a sonhar com os sapatos com 50 anos. Expulsarem-me de todas as universidades foi tirarem-me os sapatos – para voltar à imagem. Um indivíduo fica sem sapatos três anos e depois, se calhar, já não os sabe calçar. Tinha achado a expulsão muito mais violenta do que a prisão pela PIDE, embora esta também tivesse sido violenta.

Porque é que foi tão violenta a expulsão, mais do que a prisão?
Não sei dizer. A desproporção é enorme. As acusações são porque falei numa reunião, não autorizada, de estudantes, e usei um tom jocoso. Tudo isto cifrado em três anos de expulsão de todas as universidades do país. As autoridades académicas nunca fizeram qualquer gesto de reparação, o que também dá a ideia da fragilidade intelectual das elites que se perpetuaram depois do 25 de Abril.

Essa palavra que, imagino, tenha ouvido repetidamente dentro de si: “jocoso”.
É uma acusação que vem no processo. Já não sei quem é que a fez. Há uma fotografia – “pela expressão facial percebe-se bem o tom jocoso”.

Como é que era a fotografia?
Estou a rir-me. Sempre tive uma certa alegria de viver, mesmo a falar de coisas sérias mantenho um certo humor. Nunca mais pensei muito nisto, para dizer a verdade. De vez em quando posso ler o processo.

Quando regressou a Portugal, era assistente de duas faculdades em Genève.
Quando cheguei a Portugal, 1974/75, fui convidado para três ou quatro faculdades, e para várias cadeiras e licenciaturas, embora o programa que me apresentaram fosse sempre o mesmo – a história da luta de classes. Disse a todas que não. Se tivesse dito que sim tinha feito uma carreira universitária fulgurante. Mas vinha com a ideia de dar prioridade à actividade política, e foi isso que fiz até 1980. Em Genève tinha um doutoramento em curso, o nosso filho tinha acabado de nascer. Mas aquilo que me tinha feito ir obrigava-me moralmente a regressar ao país.

Estávamos a falar das razões por que a expulsão o marcou tanto. Acusaram-no de ser PC. Era verdade?
Não. Nem mentira [riso]. Nunca tive reuniões de célula, nunca paguei quotas, nunca fui membro do Partido Comunista, mas tinha contactos clandestinos. Quando fui preso praticamente não os tinha. Prenderam-me porque tinha sido eleito secretário-geral das reuniões entre associações no ano a seguir à crise, quando sucedi a Jorge Sampaio nessa função. Não conseguiram provar nada contra mim do ponto de vista político.

Quanto tempo esteve preso?
De Novembro a Janeiro. Saí em Janeiro porque em fins de Dezembro de 1962 há uma remodelação governamental e a pasta de educação muda de mãos. Inocêncio Galvão Teles terá colocado como condição ao Dr. Salazar, para assumir a pasta, que os estudantes presos fossem libertados. Gostava de começar o seu ministério da estaca zero, do ponto de vista da repressão. Percebi que devia ter havido qualquer coisa. Fui interrogado durante três dias e três noites e depois fui lançado para o Aljube, de onde nunca mais me chamaram. Estive no isolamento um mês, e depois numa cela fantástica.

O que é uma cela fantástica?
É pelas pessoas que lá estavam. O pintor Nikias Skapinakis, o padre Joaquim Pinto de Andrade. Imagine o que significa colocar um jovem anti-salazarista na mesma cela que o padre acusado de nacionalismo angolano, e de ser um dos responsáveis pela sublevação em Luanda...

Conspiravam noite e dia?
Conspirávamos neste aspecto: entretínhamo-nos muito do ponto de vista cultural, cada um contava um filme, um romance, havia pessoas mais ligadas ao Partido Comunista. Umas seis no total, na cela. Era no 4º andar do Aljube, que dava para o lado da Sé. Quando estive no isolamento, dava para um beco.

Como se entretém a cabeça um mês numa cela, sem falar com ninguém?
E não havia aquelas comodidades de ter rádio ou televisão. Às sete e meia da manhã já estava de pé. Não deixavam entrar praticamente nada. Não podia ler jornais. Mas podia receber cigarros. Fazia um horário para fumar o meu cigarro; fumava às nove, às dez, às 11, ao meio-dia, e fazia uma interrupção para o almoço; de tarde, às duas e meia, três e meia, quatro e meia. Mudava o horário: começava às nove e meia, dez e meia. Durou um mês.
A primeira pessoa que me telefona, em português, com o 25 de Abril, é o Joaquim Pinto de Andrade. Muito comovente. Está a ver os laços que isto cria.

Os cigarros eram um recurso, como outro qualquer, para se entreter.
E a música. Não se pode tirar a música da cabeça de ninguém. Ouvia uma menina que cantava ali no pátio, umas coisinhas populares; também me servia de entretenimento.

Como é que as pessoas não quebram na cadeia? Estar um mês numa situação de isolamento é duro.
Não é uma questão de bravura, é uma questão de raciocínio. Fazemos um cálculo: “Sou um estudante conhecido, a violência sobre mim terá que ter um limite porque quando for solto posso denunciá-la”. Ameaçaram-me. Se não falasse, atiravam-me de um avião, deitavam-me ao mar no Golfo da Guiné

Animava-o também a ideia de que aqueles que estavam cá fora, e por que era um aluno conhecido, esperavam de si um comportamento heróico?
Não diria heróico. Senti-me sempre representante da insubordinação estudantil. Nunca quis trair a minha geração. Embora não goste do termo “geração”. E saí do país, em grande parte, em representação dessa geração. Para mim foi uma forma ética de estar. Estudava filosofia; o imperativo categórico de Kant, fazia isso de uma forma individualizada. “E tudo o que fizeres, faz como se fosse uma lei universal”.

Quem era a figura cá fora que servia de referência?, o seu pai?
O meu pai era referência para a minha educação. Na cadeia já ninguém me servia de referência. Era eu próprio.

Quando é que se fez autónomo?
Quando vim para Lisboa, 18 anos. Não me sinto superior a ninguém, mas nunca senti ninguém em cima de mim. Há pessoas que admiro, mas não há ninguém de quem possa dizer que exerceu uma autoridade moral sobre mim. Os meus pais, claro, deram-me uma educação de grande empenhamento, valores clássicos e tradicionais, uma educação para a responsabilidade.

Nasceu em 1942. Fale-me desse rapaz de Ponta Delgada.
Talvez isto também tenha a ver com os sapatos. Sabia sempre que não ia ficar em Ponta Delgada. O meu pai sempre quis que estudássemos. Fui o mais novo em várias situações. Desde logo em casa; era o filho mais novo, e com uma grande diferença do meu irmão mais velho, dez anos.

O seu pai tinha estudos? Como é que percebeu da importância fundamental dos estudos?
Não, tinha o 2º ano do liceu. Talvez por isso – achou que devia dar aos filhos aquilo que não teve. Estive em Vila Franca do Campo, fiz lá os estudos primários.

Nem sequer era Ponta Delgada, mais recôndito ainda.
O meu pai era guarda-fiscal. Era o comandante de metade da ilha, tudo o que ficasse para além da Lagoa, o meu pai é que comandava. Vila Franca do Campo era uma vila piscatória, lindíssima, onde a principal actividade da guarda-fiscal era cobrar impostos aos pescadores. Na escola estava com os filhos desses pescadores, que muitas vezes tinham dificuldades de leitura. Desde cedo era uma espécie de ajudante do professor primário. Isso marcou-me muito. Tive a sorte de ter uma professora de Filosofia que tinha vindo do continente, que permitia a discussão de cinema nas aulas. Fez-me crescer bastante.

A sua mãe, abria também as portas para o conhecimento?
À maneira dela. Era muito religiosa. Curiosamente, tudo o que eram milagres, dava-me a entender que não acreditava. Nunca me falou de a água ser vinho, de os peixes se multiplicarem ou da passagem de Jesus pela Terra. A palavra do Senhor, como se dizia, tinha-a na ponta da língua, os exemplos e as dúvidas. Tinha um certo pensamento sobre a linguagem, muito dela, muito reflexivo.

“No princípio era o verbo”. A palavra é verdadeiramente fundadora de um mundo.
Gosto imenso de pensar sobre as palavras. Sou um fiel adepto daquela frase do Karl Kraus: “Quanto mais vejo uma palavra de perto, mais ela me responde de longe”.

Um panfletário, Karl Krauss.
Exactamente. Mas quem diz isso da palavra, está tudo dito sobre a reflexão. Eu escrevia num jornal, que ainda existe, o Correio dos Açores, cujo director era amigo do meu pai, o Dr. Gaspar Read Henriques. Fazia crítica de cinema, como se faz aos 16, 17 anos, e ele publicava-me na primeira página.

Que filmes eram? Chegava tudo a Ponta Delgada?
Chegava tudo com um ano de atraso. O meu pai assinava os jornais do continente, A Bola, o Diário de Notícias. Iam de barco, era mais barato. No princípio dos anos 50, havia duas carreiras regulares de Lisboa para São Miguel: o Carvalho Araújo e o Lima, de 15 em 15 dias. Eram barcos que tinham sido confiscados aos alemães no tempo da Primeira Guerra Mundial.

Apesar do atraso, a verdade é que eram pontes para o mundo e quebravam a insularidade.
Sabia muito bem que o meu horizonte insular não esgotava o mundo.

Quando é que saiu pela primeira vez?
Para as outras ilhas, aos 12 anos de idade. Aos 18 para Lisboa.

O dinheiro nunca foi uma limitação?
O dinheiro era a grande limitação. O meu pai é que geria as finanças e tinha um critério de qualidade de vida: o da instrução dos filhos. Vou dar um exemplo, pôs-nos, a mim e ao meu irmão Luís, em aulas de dança. Eu tinha dez anos. Pôs os filhos nas aulas de dança para se saberem comportar em sociedade. Não havia pré-primária, e arranjou uma explicadora para termos as primeiras letras a partir dos cinco anos. A D. Maximiana, lembro-me muito bem dela. Um dia, uns oito anos depois, fomos fazer-lhe uma visita, a senhora estava caída no chão, sozinha em casa. Como as coisas são. O meu pai, quando me viu na actividade política, ficou muito preocupado. O Dr. Gaspar Read Henriques dizia-lhe: “Ó Ferreira, não mandes o teu filho para Lisboa, manda para Coimbra, sempre é mais sossegado”. Quando fui para Filosofia o meu pai disse-me: “Ao menos vai para Direito”. Mas não me proibiu.

José Medeiros Ferreira entrevistado por Anabela Mota Ribeiro, continuar aqui.
Publicada originalmente na Revista Pública, em Março de 2011.
 

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

A União Europeia pode desaparecer sem darmos por ela

                                                        Fotografia Miguel Manso


A União Europeia pode desaparecer sem darmos por ela

 Esta entrevista podia chamar-se a Crónica dos Bons Alunos. Porque das virtudes e desvirtudes de se ser bom aluno se fala ao longo desta conversa sobre o passado e o presente da integração europeia de Portugal e do estado actual da União, que José Medeiros Ferreira, historiador, ministro dos Negócios Estrangeiros do Governo que em 1977 pediu a adesão de Portugal à então Comunidade Económica Europeia, aborda no livro Não Há Mapa Cor-de-Rosa. A História (Mal)Dita da Integração Europeia. Também podíamos definir esta entrevista como uma conversa sobre mapas. Do Mapa Cor-de-Rosa, que dá nome ao livro, aos impérios da Europa que se tornaram anacrónicos, como o império austro-húngaro ou o império romano-germânico. E que podem ser uma metáfora para um dos destinos possíveis da UE

José Medeiros Ferreira (n. 1942) recebeu a Revista 2 na sua casa em Lisboa numa tarde fria mas cheia de Sol, à altura de um Verão de São Martinho. Acidentalmente, sentámo-nos frente a frente, separados por uma mesa pequena, como se fôssemos jogadores de xadrez. Talvez por causa dessa geografia, mas sobretudo por José Medeiros Ferreira ser um óptimo conversador, de discurso fluido e bem-humorado, a entrevista correu quase como um jogo de pingue-pongue, bola para lá, bola para cá. Em cima da mesa, estiveram basicamente Portugal e a integração europeia, das aberturas do passado aos medos de um xeque-mate, por conta do programa cautelar ou do temido resgate. De Portugal, diz que era preciso outro Governo, da Europa, que ou dá um salto em frente ou vai estagnar. O caminho não é sair do euro, mas ninguém sabe que voltas a Europa vai dar.
 
Entrevista a José Medeiros Ferreira por Miguel Gaspar (In) Público, a ler aqui

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

José Medeiros Ferreira em Ponta Delgada




Apresentação do livro NÃO HÁ MAPA COR-DE-ROSA de José Medeiros Ferreira
 6 FEV. / TEATRO MICAELENSE / 19H00

A obra será apresentada por Pilar Damião, Roberto Amaral e Vamberto Freitas.

Uma parceria Teatro Micaelense e Livraria SolMar.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Nos 25 anos de "Gente Feliz com Lágrimas"



Eis aqui o texto de apresentação de "Gente Feliz Com Lágrimas"ontem na Livraria SolMar. Trata-se da 23ª edição comemorativa dos 25 anos do romance.
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Nos vinte e cinco anos de Gente Feliz Com Lágrimas
"E onde descrevi a ruína e a sombra destas paredes, erguerei janelas que se abrirão para o sol da manhã".
João de Melo, Gente Feliz Com Lágrimas

Para a Adelaide, com uma lágrima de saudade
Vamberto Freitas
Quando da publicação da primeira edição, em 1988, de Gente Feliz Com Lágrimas eu residia algures no sul da Califórnia, tinha uma vida estável e satisfatória em tudo que nos traz a felicidade possível, resumia os meus dias a dar aulas e a escrever para o Diário de Notícias. Tinha começado a escrever sistematicamente sobre as literaturas norte-americana e açoriana para o suplemento então chamado simplesmente Cultura do diário lisboeta, o que me obrigava a estar atento ao melhor que no nosso país se ia publicando com os Açores como referência principal. Nas mais improváveis situações de vida, os livros também se podem tornar parte íntima de nós, quer por amizade ao seu autor quer por acontecimentos nas nossas vidas, que, sem sabermos ou suspeitarmos, nos continham a nós próprios nas suas páginas em representações que mesmo em sucessivas leituras nos parecem naturalmente distantes dos nossos próprios percursos, os mundos reinventados de outros, a ficção como acto artístico que nos poderá falar directamente, mas deverá permanecer sempre exclusivamente como referência identitária só na nossa capacidade intelectual de sentirmos a pertença a uma comunidade agora tornada imaginária, da qual já nos havíamos desligado ou dela nunca havíamos feito parte geograficamente, restando só a memória de uma cidadania quase só sentimental. Com este romance de João de Melo tudo se transformaria, a minha aproximação ao texto, por assim dizer, viria a ser desusada, tomaria contornos demasiado pessoais e emotivos.
Conheci João de Melo pela primeira vez num dos Encontros de Escritores Açorianos, aqui em São Miguel, e no ano que Gente Feliz Com Lágrimas era publicado e já então largamente comentado e premiado. Nunca sobre ele tinha escrito uma palavra, pois como eu diria dali a pouco num ensaio do Diário de Notícias, a sua escrita intimidava-me como poucas, particularmente a de O Meu Mundo Não É Deste, o antecessor do romance hoje em foco. Só que nesse mesmo Solar de Lalém da Maia, eu conheceria alguém que derrubaria esta e outras barreiras literárias em mim, tal como eu derrubaria as dela – uma mulher que então se chamava Adelaide Batista, e hoje chama-se Adelaide Freitas. O meu regresso a casa, como já disse noutra parte, iniciar-se-ia em breve. Mais do que isso, Adelaide tinha sido vizinha e amiga de João de Melo na Achadinha, que viraria Rozário em muita da obra deste autor. Doutorada em Literatura Norte-Americana, Adelaide estava já virada também para a Literatura Açoriana contemporânea, e dentro desta muito afincadamente para a obra do seu conterrâneo e vizinho, que eventualmente resultaria no primeiro livro de ensaios sobre a obra do autor de Gente Feliz Com Lágrimas, intitulado precisamente João de Melo e a Literatura Açoriana, publicado pela editora D. Quixote, em 1993. Estávamos ainda numa época em que nomear assim a nossa literatura mais parecia ante muitos outros uma espécie de criminalidade literária e cultural, o que não inquietava ou comovia a Adelaide minimamente. Seria ela, quando nos conhecemos na Maia e em pouco iniciávamos uma rica e intelectualmente frutífera vida em comum, que preencheu por completo os meus dias em tudo, a literatura dos nossos afectos uma constante na nossa casa, a escrita e a conversa imparáveis sobre os nossos projectos, com João de Melo e toda a sua obra até àquela data figurando num centro especial para nós os dois. Eventualmente eu escreveria vários ensaios sobre o autor nosso amigo, mas ela escreveu muito mais e melhor, como já aqui referi. Só mais uma palavra sobre a Adelaide no que se refere à obra de João de Melo – foi ela que colocou O Meu Mundo Não É Deste Reino nas mãos do seu antigo professor na City University of New York, e seu grande amigo até hoje, Gregory Rabassa. Não vou repetir aqui o que o grande mestre da tradução nos Estados Unidos diria sobre o romance numa carta que depressa nos enviava, basta relembrar que My World Is Not Of This Kingdom seria mais tarde publicado naquele país, e objecto de apreciações várias.
"O valor da obra de João de Melo – diria ela no extenso ensaio intitulado 'A Miticidade em João de Melo' e incluído no seu já mencionado livro – deriva da riqueza do seu potencial significativo. Ela não vale pelo que diz mas pelo encerra; não tanto pelo que revela mas pelo que potencializa, constituindo um sistema autopotencializado, cuja ontologia encontra expressão numa linguagem mítica. Uma linguagem dialógica, de tensão interna, para a qual concorrem as vozes e o estilo, o discurso, as disjunções subtis do tempo e do espaço, as personagens, o ponto de vista, etc., tudo num jogo livre de aproximação e rejeição, com vista à dramatização entre um número variado de sentidos opostos: o indivíduo e a sociedade, o homem e a natureza, o interior e o exterior, o passado e o futuro, e todas as oposições existenciais nos seus diversos códigos analógicos. Nesta dinâmica se movem todas as placas giratórias, garante fundamental da força e organicidade textual e narrativa, que dá suporte a uma miticidade que, clarificando a cultura, a prepara para o seu desenvolvimento e para outras manifestações. Trata-se, com efeito, de um verdadeiro hino à esperança, à tenacidade e sobrevivência de um povo, que é dos Açores como de outro qualquer lugar do mundo".
A longa citação foi deliberada, pois eu queria que a Adelaide falasse aqui comigo -- foi ela que, repito, mais e melhor do que ninguém escreveu sobre João de Melo, muito antes de virar moda em certas universidades ou publicações. Nestes vinte e cinco anos de Gente Feliz Com Lágrimas muitas outras lágrimas já escorreram, mas o "hino à esperança" de que falava a autora de Sorriso Por Dentro Da Noite, mantém-se – tem de se manter. A "realidade" transfigurada em Gente Feliz Com Lágrimas parecia-nos uma estória de um tempo ido, a memória, sempre, da miséria e do desespero do povo português, aqui e em todo o país, da nossa procura incessante da nossa própria regeneração e salvação, rumo a novos mundos mais abertos, que não o que nos haviam legado desde a fundação da pátria. A esperança, uma vez mais, permanece – mas Gente Feliz Com Lágrimas torna-se agora um clássico actualizadíssimo, como aliás são todos os clássicos. Não estamos nos anos 60, mas estamos de novo nas mesmas ausências e desespero – famílias com fome, jovens desesperados por um futuro que de novo lhes é negado, um sistema político de todo insensível, frio e protector exclusivamente de uma outra elite que, tal como nesse passado ainda da nossa memória magoada, parece tratar de si e só de si, e ainda volta a prescrever descaradamente o remédio português de sempre – emigrem, literalmente dito por alguns deles, "abandonem a zona de conforto" rumo a outra Europa, ou ao Novo Mundo. A grande ficção nunca tem de ser justificada pela chamada "realidade", no seu melhor é uma tirada artística, um "retrato" de um lugar e de um tempo. No nosso caso, desgraçadamente, é sempre esse lugar e esse tempo que reconfirmam a nossa arte literária, desde há séculos, numa perversão de todas as nossas vontades e sonhos. Gente Feliz Com Lágrimas é uma grande obra de arte, não precisava de nada disto, só da nossa memória e capacidade imaginativa, do nosso gosto pelas, e apreciação das suas linguagens simultaneamente de beleza pura e, sim, dureza realista. "tudo para o ilhéu – citava ainda a Adelaide Vitorino Nemésio noutro texto – se resume em longitude e apartamento. A solidão é o âmago do que está separado e distante".
O que me leva aqui a outra afirmação sobre Gente Feliz Com Lágrimas – trata-se também, para mim sem qualquer dúvida, do primeiro grande romance de um escritor português e açoriano sobre a nossa imigração na América do Norte. Por certo que antes de João de Melo já existiam os escritores imigrados e luso-descendentes nos EUA, mas falo de um escritor que teve a capacidade e sensibilidade literária e intelectual de olhar e de facto ver o que nos acontecia num grande país a norte naquele continente, o Canadá, essa outra pátria nossa a partir de meados do século passado. Houve sempre a tentação, até há bem poucos anos, e quebrada por Álamo Oliveira quando publica o seu Já Não Gosto de Chocolates e Vasco Pereira da Costa com a poesia de My Californian Friends, por parte dos nossos escritores açorianos residentes de olhar para os nossos imigrantes através de uma espécie de atrevimento desumanizante. Não tinham vida interior, pouco mais sabiam do que a sua linguagem despedaçada. Com João de Melo passamos dessa unidimensionalidade para seres humanos reinventados em toda a sua complexidade e, sim, inteligência. Tudo isto faz parte da grandeza de Gente Feliz Com Lágrimas.
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João de Melo, Gente Feliz Com Lágrimas (23ª edição), Lisboa, D. Quixote, 2013.






 

domingo, 19 de janeiro de 2014

O João de Melo, O Grande Manifesto


JOÃO DE MELO, O GRANDE MANIFESTO
"Um romance monumental – eis aquilo de que se trata. Do título à nota com que encerra, e mesmo se nem sempre é fácil encontrar-lhe a melodia. Ou precisamente por causa disso. Narrativa polifónica, feita de fragmentos e memórias descontínuas, a cada instante determinada a somar centros de consciência, “Gente Feliz Com Lágrimas” mantém as costuras à vista, e talvez seja essa a sua suprema virtude."
Joel Neto, em  http://www.joelneto.com/373318.html.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Indispensável "Não Há Mapa Cor-de-Rosa"

                                                     Fotografia de Tiago Miranda



Não Há Mapa Cor-de-Rosa

“Paulo Portas não inventou a “diplomacia económica”. O livro de Medeiros Ferreira (que saiu há pouco tempo) demonstra límpida e seguramente que, desde meados do século XVIII, Portugal sempre teve uma diplomacia de “natureza material e financeira”. Por uma razão simples: porque “a taxa de poupança interna foi sempre insuficiente” para “dar resposta” às necessidades da sociedade portuguesa. No século XX, por exemplo, isso aconteceu “desde o convénio com os credores externos de 1902” (e dos “suprimentos do Banco de Inglaterra entre 1916 -1918”) à “disputa pelas reparações [...] na Conferência de Paz de 1919”; e por aí fora até à estratégia com os beligerantes de 1939 a 1945. A “ideia” nunca deixou de ser “a captação de capital no exterior” para substituir o que não existia cá.”  Ler aqui http://www.publico.pt/portugal/noticia/nao-ha-mapa-corderosa-1619179
Vasco Pulido Valente (in) Público


quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Alimento




“Preciso das outras artes, como de pão. Alimento-me delas e tenho uma enorme gratidão em relação aos criadores. Comove e inspira-me o modo como vejo as pessoas a fazer cinema, a pintar ou a compor. É um testemunho, uma celebração da própria vida, uma forma de resistir à morte.”

José Tolentino Mendonça (In) JL.


O Melhor de Poesia de 2013


                                                Fotografia do espólio de Alberto Lacerda


até cada objecto se encher de luz e ser apanhado
por todos os lados hábeis, e ser ímpar,
ser escolhido,
e lampejando do ar à volta,
na ordem do mundo aquela fracção real dos dedos juntos
como para escrever cada palavra:
pegar ao alto numa coisa em estado de milagre: seja:...
um copo de água,
tudo pronto para que a luz estremeça:
o terror da beleza, isso, o terror da beleza delicadíssima
tão súbito e implacável na vida administrativa

Herberto Helder, in «Servidões», Assírio & Alvim, 2013.