segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
Nos 25 anos de "Gente Feliz com Lágrimas"
Eis aqui o texto de apresentação de "Gente Feliz Com Lágrimas"ontem na Livraria SolMar. Trata-se da 23ª edição comemorativa dos 25 anos do romance.
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Nos vinte e cinco anos de Gente Feliz Com Lágrimas
"E onde descrevi a ruína e a sombra destas paredes, erguerei janelas que se abrirão para o sol da manhã".
João de Melo, Gente Feliz Com Lágrimas
Para a Adelaide, com uma lágrima de saudade
Vamberto Freitas
Quando da publicação da primeira edição, em 1988, de Gente Feliz Com Lágrimas eu residia algures no sul da Califórnia, tinha uma vida estável e satisfatória em tudo que nos traz a felicidade possível, resumia os meus dias a dar aulas e a escrever para o Diário de Notícias. Tinha começado a escrever sistematicamente sobre as literaturas norte-americana e açoriana para o suplemento então chamado simplesmente Cultura do diário lisboeta, o que me obrigava a estar atento ao melhor que no nosso país se ia publicando com os Açores como referência principal. Nas mais improváveis situações de vida, os livros também se podem tornar parte íntima de nós, quer por amizade ao seu autor quer por acontecimentos nas nossas vidas, que, sem sabermos ou suspeitarmos, nos continham a nós próprios nas suas páginas em representações que mesmo em sucessivas leituras nos parecem naturalmente distantes dos nossos próprios percursos, os mundos reinventados de outros, a ficção como acto artístico que nos poderá falar directamente, mas deverá permanecer sempre exclusivamente como referência identitária só na nossa capacidade intelectual de sentirmos a pertença a uma comunidade agora tornada imaginária, da qual já nos havíamos desligado ou dela nunca havíamos feito parte geograficamente, restando só a memória de uma cidadania quase só sentimental. Com este romance de João de Melo tudo se transformaria, a minha aproximação ao texto, por assim dizer, viria a ser desusada, tomaria contornos demasiado pessoais e emotivos.
Conheci João de Melo pela primeira vez num dos Encontros de Escritores Açorianos, aqui em São Miguel, e no ano que Gente Feliz Com Lágrimas era publicado e já então largamente comentado e premiado. Nunca sobre ele tinha escrito uma palavra, pois como eu diria dali a pouco num ensaio do Diário de Notícias, a sua escrita intimidava-me como poucas, particularmente a de O Meu Mundo Não É Deste, o antecessor do romance hoje em foco. Só que nesse mesmo Solar de Lalém da Maia, eu conheceria alguém que derrubaria esta e outras barreiras literárias em mim, tal como eu derrubaria as dela – uma mulher que então se chamava Adelaide Batista, e hoje chama-se Adelaide Freitas. O meu regresso a casa, como já disse noutra parte, iniciar-se-ia em breve. Mais do que isso, Adelaide tinha sido vizinha e amiga de João de Melo na Achadinha, que viraria Rozário em muita da obra deste autor. Doutorada em Literatura Norte-Americana, Adelaide estava já virada também para a Literatura Açoriana contemporânea, e dentro desta muito afincadamente para a obra do seu conterrâneo e vizinho, que eventualmente resultaria no primeiro livro de ensaios sobre a obra do autor de Gente Feliz Com Lágrimas, intitulado precisamente João de Melo e a Literatura Açoriana, publicado pela editora D. Quixote, em 1993. Estávamos ainda numa época em que nomear assim a nossa literatura mais parecia ante muitos outros uma espécie de criminalidade literária e cultural, o que não inquietava ou comovia a Adelaide minimamente. Seria ela, quando nos conhecemos na Maia e em pouco iniciávamos uma rica e intelectualmente frutífera vida em comum, que preencheu por completo os meus dias em tudo, a literatura dos nossos afectos uma constante na nossa casa, a escrita e a conversa imparáveis sobre os nossos projectos, com João de Melo e toda a sua obra até àquela data figurando num centro especial para nós os dois. Eventualmente eu escreveria vários ensaios sobre o autor nosso amigo, mas ela escreveu muito mais e melhor, como já aqui referi. Só mais uma palavra sobre a Adelaide no que se refere à obra de João de Melo – foi ela que colocou O Meu Mundo Não É Deste Reino nas mãos do seu antigo professor na City University of New York, e seu grande amigo até hoje, Gregory Rabassa. Não vou repetir aqui o que o grande mestre da tradução nos Estados Unidos diria sobre o romance numa carta que depressa nos enviava, basta relembrar que My World Is Not Of This Kingdom seria mais tarde publicado naquele país, e objecto de apreciações várias.
"O valor da obra de João de Melo – diria ela no extenso ensaio intitulado 'A Miticidade em João de Melo' e incluído no seu já mencionado livro – deriva da riqueza do seu potencial significativo. Ela não vale pelo que diz mas pelo encerra; não tanto pelo que revela mas pelo que potencializa, constituindo um sistema autopotencializado, cuja ontologia encontra expressão numa linguagem mítica. Uma linguagem dialógica, de tensão interna, para a qual concorrem as vozes e o estilo, o discurso, as disjunções subtis do tempo e do espaço, as personagens, o ponto de vista, etc., tudo num jogo livre de aproximação e rejeição, com vista à dramatização entre um número variado de sentidos opostos: o indivíduo e a sociedade, o homem e a natureza, o interior e o exterior, o passado e o futuro, e todas as oposições existenciais nos seus diversos códigos analógicos. Nesta dinâmica se movem todas as placas giratórias, garante fundamental da força e organicidade textual e narrativa, que dá suporte a uma miticidade que, clarificando a cultura, a prepara para o seu desenvolvimento e para outras manifestações. Trata-se, com efeito, de um verdadeiro hino à esperança, à tenacidade e sobrevivência de um povo, que é dos Açores como de outro qualquer lugar do mundo".
A longa citação foi deliberada, pois eu queria que a Adelaide falasse aqui comigo -- foi ela que, repito, mais e melhor do que ninguém escreveu sobre João de Melo, muito antes de virar moda em certas universidades ou publicações. Nestes vinte e cinco anos de Gente Feliz Com Lágrimas muitas outras lágrimas já escorreram, mas o "hino à esperança" de que falava a autora de Sorriso Por Dentro Da Noite, mantém-se – tem de se manter. A "realidade" transfigurada em Gente Feliz Com Lágrimas parecia-nos uma estória de um tempo ido, a memória, sempre, da miséria e do desespero do povo português, aqui e em todo o país, da nossa procura incessante da nossa própria regeneração e salvação, rumo a novos mundos mais abertos, que não o que nos haviam legado desde a fundação da pátria. A esperança, uma vez mais, permanece – mas Gente Feliz Com Lágrimas torna-se agora um clássico actualizadíssimo, como aliás são todos os clássicos. Não estamos nos anos 60, mas estamos de novo nas mesmas ausências e desespero – famílias com fome, jovens desesperados por um futuro que de novo lhes é negado, um sistema político de todo insensível, frio e protector exclusivamente de uma outra elite que, tal como nesse passado ainda da nossa memória magoada, parece tratar de si e só de si, e ainda volta a prescrever descaradamente o remédio português de sempre – emigrem, literalmente dito por alguns deles, "abandonem a zona de conforto" rumo a outra Europa, ou ao Novo Mundo. A grande ficção nunca tem de ser justificada pela chamada "realidade", no seu melhor é uma tirada artística, um "retrato" de um lugar e de um tempo. No nosso caso, desgraçadamente, é sempre esse lugar e esse tempo que reconfirmam a nossa arte literária, desde há séculos, numa perversão de todas as nossas vontades e sonhos. Gente Feliz Com Lágrimas é uma grande obra de arte, não precisava de nada disto, só da nossa memória e capacidade imaginativa, do nosso gosto pelas, e apreciação das suas linguagens simultaneamente de beleza pura e, sim, dureza realista. "tudo para o ilhéu – citava ainda a Adelaide Vitorino Nemésio noutro texto – se resume em longitude e apartamento. A solidão é o âmago do que está separado e distante".
O que me leva aqui a outra afirmação sobre Gente Feliz Com Lágrimas – trata-se também, para mim sem qualquer dúvida, do primeiro grande romance de um escritor português e açoriano sobre a nossa imigração na América do Norte. Por certo que antes de João de Melo já existiam os escritores imigrados e luso-descendentes nos EUA, mas falo de um escritor que teve a capacidade e sensibilidade literária e intelectual de olhar e de facto ver o que nos acontecia num grande país a norte naquele continente, o Canadá, essa outra pátria nossa a partir de meados do século passado. Houve sempre a tentação, até há bem poucos anos, e quebrada por Álamo Oliveira quando publica o seu Já Não Gosto de Chocolates e Vasco Pereira da Costa com a poesia de My Californian Friends, por parte dos nossos escritores açorianos residentes de olhar para os nossos imigrantes através de uma espécie de atrevimento desumanizante. Não tinham vida interior, pouco mais sabiam do que a sua linguagem despedaçada. Com João de Melo passamos dessa unidimensionalidade para seres humanos reinventados em toda a sua complexidade e, sim, inteligência. Tudo isto faz parte da grandeza de Gente Feliz Com Lágrimas.
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João de Melo, Gente Feliz Com Lágrimas (23ª edição), Lisboa, D. Quixote, 2013.
domingo, 19 de janeiro de 2014
O João de Melo, O Grande Manifesto
JOÃO DE MELO, O GRANDE MANIFESTO
"Um romance monumental – eis aquilo de que se trata. Do título à nota com que encerra, e mesmo se nem sempre é fácil encontrar-lhe a melodia. Ou precisamente por causa disso. Narrativa polifónica, feita de fragmentos e memórias descontínuas, a cada instante determinada a somar centros de consciência, “Gente Feliz Com Lágrimas” mantém as costuras à vista, e talvez seja essa a sua suprema virtude."
Joel Neto, em http://www.joelneto.com/373318.html.
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
Indispensável "Não Há Mapa Cor-de-Rosa"
Fotografia de Tiago Miranda
Não Há Mapa
Cor-de-Rosa
“Paulo Portas não inventou a “diplomacia económica”. O livro
de Medeiros Ferreira (que saiu há pouco tempo) demonstra límpida e seguramente
que, desde meados do século XVIII, Portugal sempre teve uma diplomacia de
“natureza material e financeira”. Por uma razão simples: porque “a taxa de
poupança interna foi sempre insuficiente” para “dar resposta” às necessidades
da sociedade portuguesa. No século XX, por exemplo, isso aconteceu “desde o
convénio com os credores externos de 1902” (e dos “suprimentos do Banco de
Inglaterra entre 1916 -1918”) à “disputa pelas reparações [...] na Conferência
de Paz de 1919”; e por aí fora até à estratégia com os beligerantes de 1939 a
1945. A “ideia” nunca deixou de ser “a captação de capital no exterior” para substituir
o que não existia cá.” Ler aqui http://www.publico.pt/portugal/noticia/nao-ha-mapa-corderosa-1619179
Vasco Pulido Valente (in) Público quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
Alimento
“Preciso das
outras artes, como de pão. Alimento-me delas e tenho uma enorme gratidão em
relação aos criadores. Comove e inspira-me o modo como vejo as pessoas a fazer
cinema, a pintar ou a compor. É um testemunho, uma celebração da própria vida,
uma forma de resistir à morte.”
José Tolentino Mendonça (In) JL.
O Melhor de Poesia de 2013
Fotografia do espólio de Alberto Lacerda
até cada objecto se encher de luz e ser apanhado
por todos os lados hábeis, e ser ímpar,
ser escolhido,
e lampejando do ar à volta,
na ordem do mundo aquela fracção real dos dedos juntos
como para escrever cada palavra:
pegar ao alto numa coisa em estado de milagre: seja:...
um copo de água,
tudo pronto para que a luz estremeça:
o terror da beleza, isso, o terror da beleza delicadíssima
tão súbito e implacável na vida administrativa
Herberto Helder, in «Servidões», Assírio & Alvim, 2013.
domingo, 5 de janeiro de 2014
Eusébio ( 1942-2014 )
Havia nele a máxima tensão
Como um clássico ordenava a própria força
Sabia a contenção e era explosão...
Não era só instinto era ciência
Magia e teoria já só prática...
Havia nele a arte e a inteligência
Do puro e sua matemática
Buscava o golo mais que golo – só palavra
Abstracção ponto no espaço teorema
Despido do supérfluo rematava
E então não era golo – era poema.
Manuel Alegre
Como um clássico ordenava a própria força
Sabia a contenção e era explosão...
Não era só instinto era ciência
Magia e teoria já só prática...
Havia nele a arte e a inteligência
Do puro e sua matemática
Buscava o golo mais que golo – só palavra
Abstracção ponto no espaço teorema
Despido do supérfluo rematava
E então não era golo – era poema.
Manuel Alegre
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
Alfabetos
Claudio Magris
«O mar é
interessante porque é essencialmente duas coisas. Há o mar
como grande prova, o mar de Conrad, de Stevenson, o mar da tempestade, o dos grandes
capitães de Conrad como símbolos da luta e da lealdade. Como grande amante da
literatura de aventuras isso significa muito. Mas para mim o mar é outra coisa.
É o mar da posição horizontal, não da luta para dominá-lo, mas ao contrário,
para se abandonar. É o mar da felicidade. É por isso que o mar está
indissoluvelmente ligado ao amor, a Eros. Para mim, era inconcebível o amor sem
o mar. O mar está também na história da minha vida das paisagens do amor, isto
é, desse grande abandono nos braços da vida. Sem luta. Nado muito mas isso não
tem nada a ver com o desporto, não, é realmente abandonar-se em grandes braços
amorosos.»
Claudio Magris, entrevista de Ana Sousa Dias, Revista LER, dezembro 2013, a
propósito da edição portuguesa do seu
livro “Alfabetos”, lançado pela Quetzal.
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
A Leitura
Meus olhos resgatam o que está preso na página:
o branco do branco e o preto do preto.
(Bem Ammar)
( in) O Bebedor Nocturno, Herberto Hélder, Assírio & Alvim.
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
José Medeiros Ferreira " Não Há Mapa Cor-De-Rosa
A questão europeia não está isenta de controvérsias e o longo processo que culminou naquilo que é hoje a União Europeia também não. E se, como diz o autor, «por circunstâncias políticas, das quais os historiadores nem sempre se conseguem livrar e que muitas vezes condicionam o seu campo de investigação, se filia a génese do processo da organização internacional da Europa nos escombros da II Guerra Mundial», a verdade é que o conceito embrionário do projecto remonta algumas décadas.
O processo de reorganização europeia no pós-guerra visou antes de mais recuperar o continente da hecatombe que sobre ele se abatera e por isso optou por ignorar alguns antecedentes – e agentes – politicamente incómodos do projecto de construção europeia. É essa história que agora se reconstitui, articulando-a com a integração europeia de Portugal: o processo de adesão, os anos que antecederam o alargamento a Leste – que viria a alterar drasticamente o equilíbrio da União – e, finalmente, as consequências nefastas da crise financeira e da zona euro, que têm vindo a cavar um fosso Norte-Sul.
No Há Mapa Cor-De-Rosa, José Medeiros Ferreira, ed.70, 2013.
sábado, 12 de outubro de 2013
Uma Família Açoriana
Trata-se de uma série de época que ao longo de 8 episódios nos irá retratar o percurso de uma família abastada de São Miguel na segunda metade do Sec. XIX.
Na beleza avassaladora das "ilhas Encantadas", nos Açores do Sec. XIX, nasce no seio de uma família modesta Vasco Falcão, que cedo se torna num próspero homem de negócios, sempre disposto a lutar contra os preconceitos e conservadorismos em busca de uma sociedade perfeita baseada na harmonia do Homem com a Natureza.
Um visionário genial, um lutador inflexível. Teve vitórias e derrotas, foi amado e odiado, foi pecador e santo, foi…humano. Por isso um dia percebeu que tinha conseguido tudo na vida….Tudo menos uma família!
Baseia-se no livro de Maria Filomena Mónica "Os Cantos" e num pré-guião de Maria Filomena Mónica e António Barreto, sendo o guião final da autoria de João Nunes.
Com Nicolau Breyner, Maria João Luís, Duarte Guimarães, Catarina Wallestein, Nuno Gil, Maria Leite e Manuel Wiborg.
Estreia dia 13 Outubro na RTP.










