quinta-feira, 30 de agosto de 2012

ExtraTexto

                                                                David Bowie

O Anjo

                                                          José Cardoso Pires, 1964



O anjo sobrevoou a cidade às 12.00-12.27 (hora solar). Era louro e de asas vermelhas e tinha um belo rosto triangular em nada semelhante aos dos querubins de igreja. Planou em lentas e tranquilas curvas por cima dos arranha-céus e das praias que contornavam a cidade, percorrendo-os com a sua sombra.
Foi escrito: a aparição teve lugar ao sétimo dia de um mês sobre todos radioso e na linha zénite, sol a prumo. Exacta e inolvidável, exactíssima, pôs em alvoroço as multidões de banhistas que formigavam no areal (aquela era a estação do sol e da festa do corpo) e suspendeu o trânsito nas avenidas da beira-mar, vogando, vogando sempre.

 

Alexandra Alpha, José Cardoso Pires.

 

EPC


“O modo de amar, as modalidades do desejo, as formas de viajar, os momentos de prazer, modelar pelos versos dos poetas, as suas histórias pessoais, as imagens do cinema, os traços e as cores da pintura, as árias de ópera ou as canções de Brel”

Tudo o Que não Escrevi, Eduardo Prado Coelho

Um colóquio dedicado a Eduardo Prado Coelho vai realizar-se nos dias 15 e 16 de Novembro, na Fundação Gulbenkian, em Lisboa. Reflectir sobre a herança do ensaísta que definiu uma política cultural para o país.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Os Cantores De Leitura

                                                          Maria Gabriela Llansol



"seu contexto: aprender a leitura tem um método, mas não
obedece a um método. Depende da infinita variedade dos livros, ou seja, da corrente que flui, e nos mergulha nela – seja qual for o seu suporte. O écran, o ar, a cena, tudo me lembra a página. Quando a lembrança dessa página se esbater, uma matéria complexa, sem síntese, virá perturbar-me os olhos. Recorrerei à voz para acalmar esse silêncio, que transparece – mudo. Recorrerei ao canto que seleccionará, para a emissão de voz, tão duros materiais.

 - Amor meu, a invenção constante é uma ave plena.
  Mas eu não sei para que ave me dirijo."

 

 

Os Cantores De Leitura, Maria Gabriela Llansol, Assírio Alvim.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Chaplin os Primeiros Anos




«Temos de rir diante do nosso desamparo contra as forças da natureza- ou enlouquecemos.»
Charlie Chaplin


Nascido em Londres em 1889, Charlie Chaplin cresceu numa pobreza extrema. Os pais trabalhavam no mundo do espectáculo, mas cedo a próspera carreira do pai foi interrompida pelo alcoolismo, e a mãe, que adorava, perdeu a voz e depois enlouqueceu, com sífilis. Ainda com os pais vivos, Charlie foi entregue, com 7 anos, à Escola Hanwell para Crianças Órfãs e Desamparadas. Foi, segundo ele, o período mais infeliz da sua vida. Como conseguiu esta criança pobre, abandonada e tão desafortunada tornar-se um actor extraordinário, conhecido e célebre no mundo inteiro?

Stephen Weissman examina, passo a passo, a vida de Chaplin e as origens do seu génio, mostrando como a sua trágica infância lhe moldou a personalidade e a arte. Mal afamado, devido às suas opções políticas e à sua escandalosa vida sexual — que Weissman contextualiza e analisa — Chaplin foi uma personalidade muito mais complexa e contraditória do que até agora se sabia. Weissman dá a conhecer quer a lenda do cinema, quer o turbulento período no qual Chaplin viveu e trabalhou.


Chaplin os Primeiros Anos, Stephen Weissman, Ed. Bizancio

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Religião Para Ateus


                                                Tadao  Ando, Igreja da luz, Ibaraki, Japão, 1989
 
«Parecemos incapazes de resistir a exagerar cada aspeto de nós mesmos: quanto tempo estaremos no planeta, a importância do que conseguimos, a raridade e a injustiça dos nossos fracassos profissionais, os inúmeros mal-entendidos nas nossas relações, a intensidade dos nossos sofrimentos. Individualmente, o melodrama está sempre na ordem do dia. A arquitetura religiosa pode ter uma função crucial neste egoísmo (em última análise tão doloroso como errado), devido à sua capacidade para ajustar as impressões que temos do nosso tamanho físico- e, consequentemente, também do nosso tamanho psicológico (...) É claro que «sentirmo-nos pequenos» é uma dolorosa realidade diária do recreio humano. No entanto, sentirmo-nos pequenos devido a alguma coisa poderosa, nobre, perfeita e inteligente é sermos apresentados à sabedoria com alguma dose de alegria.»
Religião para Ateus é uma tentativa de interpretar as fés, essencialmente o cristianismo e, em menor escala, o judaísmo e o budismo, na esperança de encontrar conhecimentos coligidos que possam ser úteis na vida secular, especialmente no que respeita aos desafios colocados pela comunidade e pelo sofrimento mental e físico.
Religião para Ateus, Um guia para não crentes sobre as utilizações da religião
Alain de Botton, Ed. Quixote

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Antemanhã




Poderia ter escrito a tremer de respirares tão longe
Ter escrito com o sangue.
Também poderia ter escrito as visões
Se os olhos divididos em partes não sobrassem
No vazio de ceguez
E luz.
Poderia ter escrito o que sei
Do futuro e de ti
E de ter visto no deserto
O silêncio, o fogo e o dilúvio.
De dormir cheio de sede e poderia
Escrever
O interior do repouso
E ser faúlha onde a morte vive
E a vida rompe.
E poderia ter escrito o meu nome no teu nome
Porque me alimento da tua boca
E na palavra me sustento em ti.

                                                                                                   (Inédito)

Poesia, Daniel Faria, Assírio & Alvim


quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O Lustre


Clarice Lispector
 


"A sala. A sala cheia de pontos neutros. O cheiro de casa vazia. Mas o lustre! Havia o lustre. A grande aranha escandescia. Olhava-o imóvel, inquieta, parecia pressentir uma vida terrível. Aquela existência de gelo. Uma vez! uma vez a um relance - o lustre se espargia em crisântemos e alegria."

O Lustro, Clarice Lispector, Relógio D'Água.


«Ao contrário do seu primeiro romance [Perto do Coração Selvagem], escrito em fragmentos, saltando constantemente de uma cena para a outra, O Lustre é um conjunto coerente. Apesar de os seus extensos segmentos descreverem propositadamente acontecimentos, consistem sobretudo em longos monólogos interiores, interrompidos apenas por um singular e perturbador fragmento contendo diálogo ou acção. O livro progride em ondas lentas que se elevam, alterosas, nos momentos de revelação. As páginas entre estas epifanias são precisamente os momentos em que o livro se torna mais intolerável para o leitor, que é forçado a seguir o movimento interior de outra pessoa com um detalhe microscópico. Acostumado às epifanias, esperando estímulos e surpresas permanentes, o leitor que aborde o livro pela primeira vez depressa se sente desconcertado.
Porém, a intensidade glacial do livro exerce um fascínio particular.
(…) Só quando lido devagar, reflectidamente, e sem distracções, três ou cinco páginas de cada vez, é que O Lustre revela o seu carácter penetrante.» [Benjamin Moser, Clarice Lispector — Uma Vida]


 

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

A Informação


Martin Amis

 
 

“A definição mediática de Martin Amis (n. 1949) foi automática no início da sua carreira: ele era o «bad boy da literatura inglesa», e continuou a sê-lo muito para lá do cronologicamente razoável. (Google-se a expressão «bad boy of english literature/english letters» e ainda se encontram dúzias de artigos, alguns publicados quando Amis já era cinquentenário.) Mas no princípio dos anos 90 algo aconteceu. O jornalismo britânico reagiu coletivamente como um anfitrião exasperado. O bad boy fictício cuja presença tolerara durante anos continuava ali, recusando levar a sua badboyness para outro sítio. Medidas de emergência foram tomadas e o bad boy foi reclassificado como bad man. Para validar a nova «personalidade», alguns factos foram apresentados: Amis abandonou a sua mulher; Amis despediu a sua agente; Amis zangou-se com um dos seus melhores amigos; Amis pediu fortunas pelos direitos de um novo romance; Amis queria dentes novos e um carro desportivo; Amis estava fora de controlo. A informação surgia em torrente, e as manchetes escreviam-se praticamente sozinhas. A Informação – o romance publicado em 1995, no meio desta tempestade tabloide – não se escreveu sozinho, mas o leitor na posse de toda a informação prévia pode sentir-se tentado a cometer várias falácias biográficas ao longo do caminho. Os temas, como sempre na ficção de Amis, são tão garridos como manchetes do Daily Mirror: sucesso e fracasso, os dramas mesquinhos da masculinidade, rivalidade, violência, humilhação. Mas se tudo isto é familiar, nunca antes parecera tão terrivelmente pessoal. A Informação não é autobiografia disfarçada, nem sequer um roman à clef, mas mais do que qualquer ficção de Amis, parece arrancada ao osso.”
Rogério Casanova, Revista Ler
 
«E depois há a informação, que é nada, e vem de noite.»
Martin Amis
 
A Informação, Martin Amis, Ed.Quetzal.

 



terça-feira, 21 de agosto de 2012

A Lista Imperfeita


 Admitindo a limitação provocada pelos 50 títulos desta lista, é inadmissível que dela não faça parte os Lusíadas de Luis Vaz de Camões, e o Livro do Desassossego de Fernando Pessoa. Uma escolha de 100 obras, permitia um leque mais vasto, e porque não incluir Os Sonetos Completos de Antero de Quental, ou, até mesmo Mau Tempo no Canal de Vitorino Nemésio.
50 livros que toda a gente deve ler