quarta-feira, 9 de maio de 2012

A memória inventada num tempo de guerra


 “…Vais regressar a um país de bufos e beatas. Uns vão querer saber como anda a pátria por estes lados. As outras hão-de perguntar-te se os pretos vão à missa e se deixaste algum filho atrás. Aqueles poucos da tua idade que escaparam a África e à América farão, um dia, a pergunta desde sempre fisgada; ‘E as pretas’? Vais dizer o quê? Onde começarás a mentir para comprar o teu sossego? Quando precisares de fugir, talvez o regresso a este tempo seja o teu último refúgio, a forma de proteger o espaço íntimo a que tens direito.”

África Frente e Verso era o livro de Urbano Bettencourt que (nos) faltava, despeja força e sangue, raiva e amor numa consistente e volumosa obra que no seu todo me parece um clarão que ilumina como poucas toda uma sociedade, e a (pouca) sorte de sucessivas gerações. Faz parte de uma literatura cuja arte maior tem sido sempre a coragem de desconstruir os meandros submersos da nossa sociedade, ante as forças mais arcaicas que até há poucos anos nos dominaram, essas que apontam sempre o estrangeiro para quem não estava ou está satisfeito, ou não conseguia nem consegue meter-se nos seus espertíssimos esquemas de enriquecimento, ou sequer numa vida de mera sobrevivência quieta e legítima. Poderá ser que a poesia e prosa deste autor não patenteie ordinariamente ideologias, como gostavam os nossos neo-realistas. Será precisamente a sua serenidade e hábeis recursos literários que primeiro nos fazem admirar a sua beleza, astúciae originalidade – e só depois digerir as suas ideias. Qualquer leitor mais atento irá inevitavelmente além do puro prazer do texto. O resto está escondido no subtexto, tão actuante como palavra a preto e branco.

Vamberto Freitas (in) Açoriano Oriental, 11 Maio, 2012.

Urbano Bettencourt, África Frente e Verso, Ponta Delgada, Letras Lavadas Edições, 2012.


sábado, 5 de maio de 2012

A Confissão da Leoa


"Tristeza não é chorar. Tristeza é não ter para quem chorar"


"Os nossos jovens colegas trabalhavam no mato, dormindo em tendas de campanha e circulando a pé entre as aldeias. Eles constituíam um alvo fácil para os felinos. Era urgente enviar caçadores que os protegessem. Os caçadores passaram por dois meses de frustração e terror, acudindo a diários pedidos de socorro até conseguirem matar os leões assassinos. Mas não foram apenas essas dificuldades que enfrentaram. De forma permanente lhes era sugerido que os verdadeiros culpados eram habitantes do mundo invisível, onde a espingarda e a bala perdem toda a eficácia. Aos poucos, os caçadores entenderam que os mistérios que enfrentavam eram apenas os sintomas de conflitos sociais que superavam largamente a sua capacidade de resposta. Vivi esta situação muito de perto. Frequentes visitas que fiz ao local onde decorria este drama sugeriram-me a história que aqui relato, inspirada em factos e personagens reais."

Mia Couto, a confissão da leoa, Ed. Caminho, 2012.


terça-feira, 1 de maio de 2012

domingo, 29 de abril de 2012

Convite África Frente e Verso

No livro de Urbano Bettencourt a ser lançado em Ponta Delgada no próximo dia 3 Maio, pelas 20h30m, na livraria SolMar.
Durante a sessão terá lugar uma leitura de textos a cargo de Luis Alberto Bettencout, Margarida Benevides, Raul Resendes, José Medeiros, Nelson Cabral, Maria Medeiros, Fátima Sousa, e José Carlos Jorge.

sábado, 28 de abril de 2012

Os Malaquias


Serra Morena. Um raio esturrica o casal, em luz e carne. Os filhos ficam órfãos, com destinos diferentes. Antônio, o menino que não cresce. Nico, o patriarca engolido por um bule de café. Júlia, a menina em fuga permanente. Um lugar onde as sombras da terra e da água convivem. Onde a morte e a vida são o mesmo mundo. Um poema seco à humanidade de cada um de nós.
Uma escrita áspera mas poética, desenhada com a vertigem das memórias da família Malaquias, e que evolui como tributo pessoal da autora aos seus antepassados.
Transcendental e mágico, este romance do insólito revela-se uma leitura para o coração.
Um livro forte, aclamado, invulgar.

Vencedora do Prémio Literário José Saramago 2011
Finalista do Prémio São Paulo de Literatura e do Prémio Jabuti, na categoria romance, ambos em 2011.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Agenda Festa Do Livro 2012




A Livraria SolMar a partir do dia 19 de Abril realiza “ FESTA DO LIVRO 2012”. Esta iniciativa vai possibilitar o acesso a uma Feira do Livro, com descontos de 10 a 50%, lançamentos, sessões de leitura, celebrando assim de forma festiva o livro e a leitura.

- 19 Abril, abertura da Feira do Livro, com forte incidência nas áreas de temática infanto-juvenis, culinária, açorianos, antecipando a época festiva do Senhor Santo Cristo.
- 23 Abril, Dia Mundial do Livro, montra alusiva ao Plano Regional de Leitura, oferta de flores e descontos.

- 26 Abril, lançamento do livro 30 CRÓNICAS II de Emanuel Jorge Botelho com ilustrações de Urbano, pelas 20h30m, na livraria.
- 3 Maio, lançamento do livro África Frente e Verso de Urbano Bettencourt,
 pelas 20h30m, na livraria.

 -16 Maio, lançamento do livro A Tua Luz Costurou-me Uma Bainha no Coração de Daniel Gonçalves, pelas 20h30m, na livraria.

-31 Maio, lançamento do livro BorderCrossings leituras transatlânticas de Vamberto Freitas, pelas 19.00h, na livraria.

- 11 Junho, lançamento do livro Os Sítios Sem Resposta de Joel Neto, pelas 19.00h, na livraria.

 Fortalecer o interesse do livro e incentivar a leitura são os objectivos da nossa livraria procurando sempre ir ao encontro e desejos dos leitores.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O Teu Rosto Será o Último


João Ricardo Pedro nasceu em 1973, na Reboleira, Amadora. Curioso acerca da força de Lorentz, licenciou-se em Engenharia Eletrotécnica pelo Instituto Superior Técnico. Durante mais de uma década, trabalhou em telecomunicaçõessem, no entanto, alguma vez ter aplicado as admiráveis equações de Maxwell. Na primavera de 2009, em consequência do carácter caprichoso dos mercados, achou-se com mais tempo do que aquele de que necessitava para cumprir as obrigações do quotidiano. Num acesso de pragamatismo, começou a escrever.
O Teu Rosto Será o Último é o seu romance de estreia, Prémio LeYa 2011.


«Tudo começa com um homem saindo de casa, armado, numa madrugada fria. Mas do que o move só saberemos quase no fim, por uma carta escrita de outro continente. Ou talvez nem aí. Parece, afinal, mais importante a história do doutor Augusto Mendes, o médico que o tratou quarenta anos antes, quando lho levaram ao consultório muito ferido. Ou do seu filho António, que fez duas comissões em África e conheceu a madrinha de guerra numa livraria. Ou mesmo do neto, Duarte, que um dia andou de bicicleta todo nu.
Através de episódios aparentemente autónomos - e tendo como ponto de partida a Revolução de 1974 -, este romance constrói a história de uma família marcada pelos longos anos de ditadura, pela repressão política, pela guerra colonial.
Duarte, cuja infância se desenrola já sob os auspícios de Abril, cresce envolto nessas memórias alheias - muitas vezes traumáticas, muitas vezes obscuras - que formam uma espécie de trama onde um qualquer segredo se esconde. Dotado de enorme talento, pianista precoce e prodigioso, afigura-se como o elemento capaz de suscitar todas as esperanças. Mas terá a sua arte essa capacidade redentora, ou revelar-se-á, ela própria, lugar propício a novos e inesperados conflitos?»