domingo, 25 de março de 2012

Antonio Tabucchi 1943-2012




Post Scriptum
Uma baleia vê os homens

Sempre tão atarefados, e com longas barbatanas que agitam com frequência. E como são pouco redondos, sem a majestosidade das formas acabadas e suficientes, mas com uma pequena cabeça móvel onde parece concentrar-se toda a sua estranha vida. Chegam deslizando sobre o mar mas não nadam, quase como se fossem pássaros, e infligem a morte com fragilidade e graciosa ferocidade. Permanecem longo tempo em silêncio, mas depois entre eles gritam com fúria repentina, com um amontoado de sons que quase não varia e aos quais falta a perfeição dos nossos sons essenciais: chamamento, amor, pranto de luto. E como deve ser penoso o seu amar-se: e áspero, quase brusco, imediato, sem uma macia capa de gordura, favorecido pela sua natureza filiforme que não prevê a heróica dificuldade da união nem os magníficos e ternos esforços para a realizar.
Não gostam da água e têm medo dela, e não se percebe porque a frequentam. Também eles andam em bandos mas não levam fêmeas e adivinha-se que elas estão algures, mas são sempre invisíveis. Às vezes cantam, mas só para si, e o seu canto não é um chamamento, mas uma forma de lamento angustiado. Cansam-se depressa, e quando cai a noite estendem-se sobre as pequenas ilhas que os transportam e talvez adormeçam ou olhem para a lua. Vão-se embora deslizando em silêncio e percebe-se que são tristes.

«Mulher de Porto Pim» (Lisboa, 1985)
(1.ª edição italiana, 1983)

quarta-feira, 21 de março de 2012

Uma oferta de Daniel Gonçalves. Hoje, Dia Mundial da Poesia, Aniversário da SolMar.

a casa dos livros (com vários esboços)


(um esboço)

como uma ilha de luz
na floresta densa
do silêncio

a casa dos livros
guarda a fórmula
da eternidade


(outro esboço)

onde antes cabia apenas
uma pedra

uma casa como uma arca
contra o esquecimento

traçada a branco
para a imensidão
das palavras

(ainda outro esboço)

todos os livros precisam de um colo
alinhado contra a correnteza
do tempo


(ainda outro)

com todos os livros do mundo
podias erguer do nada

uma cidade perfeita


(e outro ainda)

os livros não cabem em
nenhuma casa


Daniel Gonçalves

terça-feira, 20 de março de 2012

Pátria Utópica - Excerto da apresentação por Pilar Damião



«No Portugal do século XXI, nesta era incerta e inconstante, de crise económica, mas também social e política, na era onde os imperativos tecno‐económicos colonizam as esferas do mundo da vida, onde o défice democrático é cada vez maior, torna‐se crucial reavaliar a influência dos intelectuais em movimentos que sustentam a liberdade e dignidade humana. Isto significa que, o intelectual tem de se desprender, utilizando as palavras de T. Adorno, do kitsch oficial, mas também não pode preconizar o papel de mero “intérprete cultural” como Z. Bauman afirma. Ora, considerando, a cultura do discurso crítico e o compromisso com a transparência, com os valores cosmopolitas, com as liberdades humanas, o intelectual irá certamente, estimular debates que irão animar a civitas e proporcionar uma esfera pública incubadora de uma democracia deliberativa. Desta forma, esperamos que o Grupo de Genebra, que este Grupo de intelectuais autónomos, com sua vocação individual, energia, força e persistência continue a propor, à nossa Pátria ‐ agora esvaziada de sentido crítico e esperança ‐ novas utopias.»

Ponta Delgada, 16 de Março, 2012
Livraria Solmar
Pilar Damião de Medeiros

Excerto da apresentação do livro
Pátria Utópica: O Grupo de Genebra Revisitado
António Barreto, Ana Benavente, Eurico Figueiredo, José Medeiros Ferreira
e Valentim Alexandre

domingo, 4 de março de 2012

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Nuno Costa Santos Na SolMar



Lançamento do livro Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco, de Nuno Costa Santos
dia 1 Março pelas 20h30m.

Jornalista e escritor, Fernando Assis Pacheco (1937-1995) marcou, pelas suas invulgares qualidades intelectuais e de personalidade, toda uma geração.
As reportagens e crónicas que escreveu para o Diário de Lisboa, o República, O Jornal e a Visão, entre outros, quebraram os cânones e abriram caminho a novas formas, mais literárias, de fazer jornalismo.
A sua figura tornou-se extremamente popular após a participação no concurso televisivo Cornélia.
Foi um homem de esquerda e opositor declarado da ditadura, publicando os primeiros poemas contra a guerra colonial.
Esta é a sua primeira biografia.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Precipitados


Pablo Genovés "Precipitados", Galeria Art Nueve, Arco 2012


"A Cultura conquistada pela Natureza, ou a Natureza aprisionada pela Cultura".
Em Portugal é o Dilúvio.

Policiais Vintage


Os grandes mestres da literatura policial da mítica colecção Vampiro da editora Livros do Brasil, estão agora disponíveis na nossa livraria a verdadeiro preço crime de 2.50€. Centenas de crimes de bolso com fabulosas capas com esta do pintor Lima de Freitas.


«... a Vampiro tornou-se um inegável caso à parte, alcançando uma popularidade de que nenhuma das suas antecessoras e sucessoras se pode gabar. Dos múltiplos motivos que podem ter concorrido para esse sucesso, talvez se possam destacar quatro ou cinco factores principais. Desde logo, a introdução do policial de bolso, um conceito provavelmente importado do mundo editorial anglo-saxónico, já que a principal referência francesa, a colecção Le Masque, criada em 1927, tinha um formato ligeiramente superior. Decerto não menos relevante foi a sua aposta em autores de língua inglesa, num Portugal ainda largamente dominado pela cultura francesa. O terceiro trunfo foram as suas notáveis capas, boa parte delas desenhadas, no início da colecção, por Cândido Costa Pinto (1911-1976). Companheiro de Mário Cesariny no Grupo Surrealista de Lisboa, as capas que produziu para a Vampiro foram uma verdadeira pedrada no charco das artes gráficas nacionais. Hoje olhamos para elas distraidamente nos escaparates dos alfarrabistas, mas, no cinzento Portugal dos anos 40 e 50, seguramente deslumbraram muitos leitores. Até mudar de grafismo, optando por capas pretas ilustradas com fotografias pouco apelativas, a colecção contou sempre com a colaboração de grandes artistas, entre os quais se destaca, além de Costa Pinto, o pintor Lima de Freitas.

É ainda plausível que o modo como a Vampiro rapidamente fidelizou leitores possa ter ficado a dever-se ao facto de ter começado por se concentrar num número reduzido de escritores, todos eles da tradição do policial dedutivo, e todos eles criadores de séries, isto é, de um conjunto de livros com o mesmo detective, o que foi uma opção inteligente, já que boa parte dos leitores de policiais se viciam mais facilmente nas criações do que nos criadores. A Vampiro apostou, sobretudo, em Agatha Christie, com o seu Poirot, em Ellery Queen, com o seu detective amador homónimo, em Erle Stanley Gardner, criador do advogado Perry Mason, e, para referir apenas os autores mais recorrentes no início da colecção, em S. S. Van Dine, cujos livros são protagonizados pelo sofisticado investigador diletante Philo Vance.»

(In)Público por Luís Miguel Queirós.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Gato num apartamento vazio




Gato num apartamento vazio

Morrer não é coisa que se faça a um gato.
Que há-de um gato fazer
num apartamento vazio?
Subir às paredes?
Roçar-se nos móveis?
Aparentemente não mudou nada
e no entanto está tudo mudado.
Continua tudo no seu lugar
E no entanto está tudo fora do sítio.
E à noite a lâmpada já não está acesa.

Ouvem-se passos nas escadas,
mas não são os mesmos.
A mão que põe o peixe no prato
também já não é a que o punha.

Há aqui qualquer coisa que já não começa
à hora do costume,
qualquer coisa que não se passa
como deveria passar-se.
Havia aqui alguém que há muito estava e estava
e que de repente desapareceu
e agora insistentemente não está.

Procurou-se em todos os armários,
revistaram-se as estantes,
espreitou-se para debaixo do tapete.
Violou-se até a proibição
de desarrumar os papéis.
Que mais se pode fazer?
Dormir e esperar.

Quando regressar, ele vai ver,
ele vai ver quando chegar.
Vai ficar a saber
que isto não é coisa que se faça a um gato.
Caminhar-se-á em direcção a ele
como que contrariado,
devagarinho,
com patas amuadas.
E nada de saltos ou mios. Pelo menos ao princípio.

O Fim e o Princípio de Wislawa Szymborska, tradução de Manuel António Pina. Homenagem à poetisa polaca Wislawa Szymborska, que morreu no passado dia 1.