domingo, 25 de setembro de 2011

O desejo de ser inutíl


"Reflectir, encarar as coisas, assumir as responsabilidades, prosseguir o seu trabalho ou seja o que for que se empreendeu mesmo quando as circunstâncias se tornam adversas, é isso um homem, alguém que enfrenta os seus problemas, que leva até ao fim o que se propôs fazer, que procura ser rigoroso consigo próprio. Eu tento ser assim, e trato de me defender quando os meus princípios éticos são atacados."

Hugo Pratt, O desejo de ser inútil, Relógio D'Água

domingo, 11 de setembro de 2011

Antero de Quental 11 Setembro de 1891



Na Mão De Deus

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva no colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!


Antero de Quental
, Sonetos Completos.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Livraria SolMar no Público


Henry James nasceu em 1843, na cidade de Nova Iorque, e morreu em Londres, em 1916. Na expressão de Jorge de Sena, nasceu norte-americano e morreu inglês.
James publicou dezenas de romances, contos e novelas, escreveu poderosíssimas páginas, criou encantadoras personagens e os seus escritos constituem uma deliciosa leitura. Os seus livros baseiam-se em observações psicológicas subtis de indivíduos que passam por situações emocionais intensas. A relação entre a América “ingénua” e a Europa culta, e os contrastes entre os seus valores morais e estéticos eram tema favorito de Henry James, talvez consequência de uma vida repartida entre os dois lados do Atlântico.
A novela retrata a menina Daisy Miller, “ surpreendente e admiravelmente bonita”, uma jovem americana, liberal, de modos desfasados do seu tempo, coquete, mas honesta. O seu contemplativo enamoramento por Winterbourne, um norte-americano, um rico herdeiro que se movimenta entre os códigos restritos da compostura e timidez, será vítima da inevitável regulação social.
Nas opulentas estâncias de veraneio europeias, nas margens do lago de Genebra, e na Cidade Eterna “pelas cínicas ruas de Roma”, Winterbourne contemplava e desencontrava Daisy no afago de uma brisa inocente e cruel. Debaixo do enredo melodramático da novela, Henry James revela, magistralmente, e a mais subtil tragédia da inocência perdida e dos sonhos desfeitos.

Texto de José Carlos Frias (in) Público, 19 Agosto de 2011, Daisy Miller, Colecção Não Nobel.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Marca de Água


«Permitam-me que o reitere: a água é igual ao tempo e fornece à beleza o seu duplo. Parcialmente de água, também nós servimos da mesma forma a beleza. Aflorando a água, esta cidade apura as feições do tempo, embeleza o futuro. Nisso consiste o papel desta cidade no universo. Porque a cidade é estática, ao passo que nós nos movemos. A lágrima é disso a prova. Porque nós passamos e a beleza fica. Porque nos dirigimos para o futuro, enquanto a beleza é o eterno presente. A lágrima é a nossa tentativa de permanecer, de ficar para trás, de nos fundirmos com a cidade. Mas isso é contra as regras. A lágrima é um retrocesso, um tributo do futuro ao passado. Ou então é o resultado que se obtém quando se subtrai a maior da menor parcela: a beleza, do homem. O mesmo vale para o amor, porque também o nosso amor é maior do que nós.»

Marca de Água de Joseph Brodsky.

sábado, 13 de agosto de 2011

Inferno


«Diz: --Tudo é inútil, se o último local de desembarque tiver de ser a cidade infernal, e é lá no fundo que, numa espiral cada vez mais apertada, nos chupar a corrente.
E Polo: -- O inferno dos vivos não é uma coisa que virá a existir; se houver un, é o que já está aqui, o inferno que habitamos todos os dias, que nós formamos ao estarmos juntos. Há dois modos para não o sofrermos. O primeiro torna-se fácil para muita gente: aceitar o inferno e fazer parte dele a ponto de já não o vermos. O segundo é arriscado e exige uma atenção e uma aprendizagem contínuas: tentar e saber reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não é inferno, e fazê-lo viver, e dar-lhe lugar.»

As Cidades Invisíveis de Italo Calvino.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Leitura

«A essência do acto perfeito de leitura é, como vimos, de reciprocidade dinâmica, de resposta à vida do texto. O texto, embora inspirado, não pode ter uma existência significativa se não for lido (que estímulo de vida existe num Stradivarius que não é tocado?). A relação do verdadeiro leitor com o livro é criativa. O livro tem necessidade do leitor tal como este tem necessidade do livro.»
George Steiner, Paixão Intacta.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Possibilidade

Jorge Molder

«Continuo a fazer de conta que não sou cego, continuo a encher a minha casa de livros. Há dias ofereceram-me uma edição de 1966 da Enciclopédia Brockhaus. Senti a presença desse livro na minha casa, senti-a como uma espécie de felicidade. (...) Senti como que uma gravitação amistosa. Penso que o livro é uma das possibilidades de felicidade concedida aos homens.»

J.L.Borges, O Livro.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

De Olhos Abertos


«Em Petite Plaisance, quando empurra a porta, por baixo da varanda de onde pendem espigas de milho (símbolo local de prosperidade, oferenda a um qualquer deus desconhecido, deixado pelos índios, quem sabe?), o visitante tem o sentimento de penetrar com naturalidade numa terra onde o ar é diferente. O olhar de Marguerite Yourcenar, ao mesmo tempo longínquo e cortês, com algo de irónico, pousa sobre ele, avalia-o, julga-o. E começa então a falar, com a segurança daquele que acredita...»

Este livro reune diversas entrevistas que Marguerite Yourcenar (1903-1987) concedeu a Matthieu Galey. Ao longo dessas conversas, Yourcenar descreve o itinerário da sua existência nómada, desde a infância antes da Guerra de 1914, junto de um pai excepcional, até à deslocação para a ilha de Montes Desertos, na costa este dos Estados Unidos. Mesmo ao abordar a sua vida quotidiana, Yourcenar revela um invulgar dom para situar os seres, os acontecimentos e as circunstâncias numa perspectiva mais ampla. Sem reservas, com uma simplicidade e sabedoria conquistada ao longo dos anos, os "olhos abertos" de Yourcenar demoram-se nos mais variados aspectos dos mundos antigo e contemporâneo. No conjunto, este é o testemunho que Yourcenar nos deixou sobre os seus sentimentos, acções e pensamentos.

De Olhos Abertos, Marguerite Yourcenar, Conversas com Mathieu Galey.
Tradução de Renata Correia Botelho.
Relógio D'Água,2011.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde



«Qualquer estátua – é sabido – contém um princípio vital que uns dizem derivar do artista que a moldou, outros, da entidade que representa, outros ainda do próprio vigor da pedra, que apesar de cortada e extraída continua a nascer e a crescer nas pedreiras. Talvez seja ilusória aquela aparente rigidez das formas. Provavelmente, a estátua observa o que se passa em volta. Tudo vê, ouve e guarda. Mas apenas actua nos momentos propícios, raros e ponderosos. E sendo assim, deve haver um segredo para penetrar na alma das estátuas. Um gesto, um vocábulo, um pensamento piedoso emergindo no tempo e na conjugação astral adequados. Ou talvez apenas uma pessoa bem determinada, escolhida pelo favor dos deuses, seja apta a chegar à alma que se disfarça na pedra.»

Mário de Carvalho, Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde, Ed. Caminho.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Rosa do Mundo

William Waterhouse

«Há muitos e muitos milhares de anos, a poesia aproximou-se do homem e tão próximos ficaram, que ela se instalou no seu coração. E começaram a ver o mundo conjuntamente estabelecendo uma inseparável relação que perdurará para sempre. Não demorou muito a que a poesia se emancipasse, autonomizando-se. Como uma rosa de cujas pétalas centrípetas emana a beleza e o mais intenso perfume, sem nunca prescindir da defesa vigilante dos seus espinhos, assim cresceu livre a poesia carregada de silencioso mistério e sedução.»

Manuel Hermínio Monteiro, in Rosa do Mundo - 2001 poemas para o futuro, 2001, p. IX.,Ed. Assirio e Alvim.