Uma pátria tem algum sentido quando é a boca que nos beija a falar dela, a trazer nas suas sílabas o trigo, as cigarras, a vibração da alma ou do corpo ou do ar, ou a luz que irrompe pela casa com as frésias e torna, amigo, o coração tão leve.
Poesia de Eugénio de Andrade, ed. Modo de Ler,2011.
"Então Blimunda disse, Vem. Desprendeu-se a vontade de Baltasar Sete-Sóis, mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia e a Blimunda.” José Saramago
«A vida ainda era passível de ser vivida. Bastava esquecer, decidi-lo com determinação, brutalmente. A escolha era simples: a escrita ou a vida. Teria eu a coragem – a crueldade para comigo mesmo – de pagar esse preço?»
Logo após a guerra, em 1946, nos campeonatos organizados pelas forças aliadas em Berlim, atrás do cartaz Checoslováquia, para grande chacota do público presente, vem apenas um único atleta, magro e escanzelado. Mas quando nos 5.000 metros aquele atleta não só se desembaraça em poucos minutos dos seus mais possantes adversários com uma volta de avanço, como agora começa a ultrapassá-los nova¬mente, um a seguir ao outro e, enquanto estes abran¬dam, ele volta a acelerar, cada vez mais. De boca aberta ou aos gritos o público do estádio já não aguenta mais. Mais do que duas voltas! Vocifera o locutor do estádio. Em pé, a exultar, estão oitenta mil espectadores. Aquilo não é normal, gritam, aquele tipo faz tudo o que não deveria fazer e ganha! O nome daquele rapaz magro e louro de sorriso aberto nunca mais ninguém o esquecerá: Emil Zatopek. Pou¬cos anos e dois Jogos Olímpicos depois, Emil torna-se invencível.
«Punhos fechados, rodando caoticamente o torso, Emil também faz sempre qualquer coisa diferente com os seus braços. E toda a gente sabe que corremos com os braços. Para propulsionarmos melhor o corpo, devemos utilizar os membros superiores para aligeirar as pernas do seu próprio peso: nas provas de distância, reduzindo os movimentos da cabeça e dos braços obtém-se um melhor rendimento. Porém, Emil faz completamente o contrário, ele aparenta correr sem se preocupar com os braços, cuja impulsão convulsiva parte de uma posição demasiado alta e os quais descrevem curiosas deslocações, por vezes erguidos ou rejeitados, para trás, pendurados ou abandonados numa gesticulação absurda, os seus ombros também se meneiam, e os seus cotovelos, também esses exageradamente levantados, vão como se ele transportasse uma carga demasiado pesada. Durante a corrida parece-se com um pugilista que combate a sua sombra, todo o seu corpo assemelha-se a um mecanismo avariado, deslocado, doloroso, exceptuando a harmonia das suas pernas, que mordem e mastigam a pista com voracidade. Resumindo, faz tudo de modo diferente dos outros, que por vezes acham que ele faz coisas absurdas.»
1 - A História do Povo Açoriano - José M.Teixeira Dias - Publiçor 2 - Dicionário Sentimental - Fátima Sequeira Dias - Publiçor 3 - O Cemitério de Praga - Umberto Eco - Gradiva 4 - Liberade - Jonathan Franzen - Dom Quixote 5 - Dois Poetas e Um Pintor - Emanuel Jorge Botelho, António Teves, Urbano - Artes e Letras 6 - Quarto Livro de Crónicas -António Lobo Antunes - Dom Quixote 7 - Snu e a Vida Privada com Sá Carneiro - Cândida Pinto - Livros D'Hoje 8 - A Mentira Sagrada - Luis Miguel Rocha - Porto Editora 9 - A Humilhação - Philip Roth - Dom Quixote 10 - As Ilhas Desconhecidas - Raul Brandão - Artes e Letras
Alexandra Lucas Coelho viveu a Revolução do Egipto no Cairo. Esteve na Praça Tharir, dormiu na Praça Tharir e foi da Praça Tharir que viu Hosni Mubarak cair do poder e todo um país celebrar em êxtase. Falou e conviveu com muitas pessoas, com todo o tipo de pessoas que fizeram a revolução, assistindo, em directo e sem filtros, ao ímpeto revolucionário. Tahrir! OsDias da Revolução é um relato totalmente inédito, comovente, por vezes avassalador. A autora de Caderno Afegão e Viva México partilha com os leitores o seu diário pessoal dos loucos dias de Fevereiro de 2011 que mudaram o destino de todo o mundo árabe.